Política e Resenha

Se quiser ficar, terá de me amar também nos pedaços

Artigo de Opinião

Se quiser ficar, terá de me amar também nos pedaços

Por Padre Carlos

Há uma verdade sobre mim que aprendi a pronunciar sem vergonha: sou um ser humano quebrado por dentro. Não digo isso para despertar pena, nem para transformar minhas cicatrizes em espetáculo. Digo porque cansei de fingir inteireza para ser aceito. Existem partes minhas que talvez nunca voltem ao lugar, e quem decidir permanecer ao meu lado precisará compreender que me amar significa, muitas vezes, amar também aquilo que em mim ainda está tentando sobreviver.

Carrego ausências que não aparecem nas fotografias. Pessoas passaram pela minha vida, coisas aconteceram, sonhos foram interrompidos, e algumas dessas experiências deixaram marcas que o tempo não apagou. Há lembranças que guardo como quem mantém móveis velhos dentro de um quarto escuro: não porque ainda tenham utilidade, mas porque não descobri como retirá-los sem mexer em toda a estrutura da casa.

Não sou novo em falhas. Não sou feito apenas de leveza. Tenho medo, tenho inseguranças, tenho momentos em que duvido até das coisas boas que chegam até mim. E, por muito tempo, achei que precisava esconder tudo isso para merecer amor.

“Aprendi a sorrir entre ruínas.”

A estranha arte de sobreviver

Aprendi a continuar mesmo quando não sabia exatamente para onde estava indo. Aprendi a construir alguma coisa com os cacos, ainda que algumas peças jamais tenham voltado para o lugar original. Houve dias em que tentei transformar minha dor em força; em outros, apenas tentei sobreviver até o anoitecer.

O problema é que sobreviver por muito tempo também cria hábitos.

Quem já foi ferido aprende a observar demais. Aprende a desconfiar do silêncio, a perceber mudanças mínimas no tom de voz, a imaginar despedidas antes mesmo que elas aconteçam. Quem já foi abandonado emocionalmente, de alguma maneira, costuma desenvolver uma estranha vontade de fugir antes de ser deixado.

Por isso, se você quiser permanecer comigo, precisa saber: haverá dias em que vou recuar justamente quando mais quiser ficar.

Talvez eu hesite.

Talvez eu duvide.

Talvez eu levante muros quando você estiver tentando construir pontes.

Talvez eu me assuste com a felicidade simplesmente porque aprendi que aquilo que parecia seguro também podia desaparecer.

Não faça disso uma ofensa pessoal.

Existem batalhas que começaram muito antes da sua chegada.

Algumas vezes, quando alguém tenta entrar profundamente em minha vida, uma parte de mim se pergunta quanto tempo demorará para essa pessoa ir embora. Não porque eu queira acreditar no pior, mas porque certas experiências ensinam o coração a esperar perdas.

E existe uma crueldade silenciosa nisso: às vezes, aquilo que mais desejamos é exatamente aquilo que mais tememos receber.

O medo de receber aquilo que mais desejo

Eu quero ser amado, mas também tenho medo de depender desse amor.

Quero me entregar, mas temo descobrir novamente que entreguei demais.

Quero confiar, mas há dias em que minhas cicatrizes confundem cuidado com ameaça.

Talvez seja essa uma das grandes contradições humanas: podemos desejar desesperadamente um abraço e, ao mesmo tempo, ter medo de baixar os braços que usamos para nos proteger.

“Podemos desejar desesperadamente um abraço e, ao mesmo tempo, ter medo de baixar os braços que usamos para nos proteger.”

Não quero ser consertado

Mas não quero alguém que tente me consertar.

Essa talvez seja a parte mais importante de tudo.

Não preciso de um salvador.

Não preciso de alguém que transforme meu passado em diagnóstico ou minha dor em projeto pessoal. Amar alguém ferido não significa assumir a obrigação de reconstruí-lo. Cada pessoa também precisa fazer o próprio caminho de cura.

O que peço é diferente.

Quero alguém que saiba respeitar o tempo em que estou aprendendo a existir novamente.

Quero alguém que olhe para minhas rachaduras sem tratá-las como defeitos de fabricação. Alguém que entenda que algumas cicatrizes não desaparecem quando encontramos uma pessoa boa. Amor não apaga automaticamente aquilo que aconteceu antes dele.

O amor não cura tudo

Há uma ideia romântica — e talvez injusta — de que o amor verdadeiro cura tudo.

Não acredito nisso.

O amor pode acolher.

Pode fortalecer.

Pode criar lugares seguros.

Pode devolver esperança.

Mas existem dores que também exigem silêncio, tempo, amadurecimento, perdão e uma reconstrução que ninguém consegue realizar por nós.

Quem ama não precisa necessariamente curar a ferida do outro.

Às vezes, amar é simplesmente não tocar na ferida do outro com violência.

É saber esperar.

É compreender que determinadas reações possuem histórias.

É perceber que existe uma pessoa inteira por trás de cada mecanismo de defesa.

Minhas feridas não me dão o direito de ferir

Também não quero transformar minhas dores em licença para machucar ninguém. Ter sido ferido não me concede o direito de ferir. Carregar traumas não me autoriza a tratar mal quem tenta me amar.

Tenho responsabilidade sobre aquilo que faço com as minhas cicatrizes.

Posso não ter escolhido algumas delas, mas sou responsável pelo que construirei depois delas.

“Não somos culpados por tudo aquilo que nos aconteceu, mas precisamos decidir o que faremos com aquilo que aconteceu conosco.”

Ainda estou aprendendo

Por isso continuo tentando.

Tentando confiar.

Tentando ficar.

Tentando não transformar cada pessoa nova no fantasma de alguém que partiu.

Tentando compreender que nem toda demora significa abandono, nem todo silêncio significa desprezo, nem toda distância significa despedida.

Ainda estou aprendendo.

Mas existe uma coisa que não quero mais fazer: fingir que sou inteiro para merecer ser amado.

Não quero esconder minhas rachaduras até que alguém se apaixone por uma versão editada de mim.

Quero ser visto por completo.

Com as partes bonitas e as partes difíceis.

Com aquilo que já curei e aquilo que ainda dói.

Com os lugares iluminados e os cômodos que ainda mantenho fechados.

Porque o verdadeiro encontro entre duas pessoas talvez comece justamente quando deixamos de perguntar: “Como posso parecer perfeito para que você fique?” e começamos a perguntar: “Você consegue me enxergar como realmente sou?”

Uma casa que ainda carrega marcas

Se você decidir entrar na minha vida, não prometo uma casa sem marcas.

Algumas paredes ainda carregam sinais de antigas tempestades.

Algumas portas demoram para abrir.

Existem quartos que talvez eu ainda não consiga mostrar.

Mas também há janelas.

Há luz entrando.

Há reconstrução acontecendo.

E, sobretudo, ainda existe amor aqui.

Talvez um amor mais cauteloso.

Mais desconfiado.

Mais lento.

Mas também mais consciente do valor que existe em alguém que decide permanecer.

Não quero pena. Quero presença.

Não quero que ninguém fique por pena.

Quero presença.

Não quero promessas grandiosas.

Quero coerência.

Não quero alguém dizendo que nunca irá embora.

Quero alguém demonstrando, nos pequenos gestos, que hoje escolhe estar aqui.

Porque aprendi que a vida não oferece garantias eternas. Pessoas mudam, caminhos se separam, circunstâncias transformam tudo.

“Enquanto houver encontro, que ele seja verdadeiro. Enquanto houver amor, que ele seja inteiro. Mesmo que eu ainda esteja feito de pedaços.”

A inteireza possível

Talvez, afinal, ser humano seja justamente isso: carregar algumas coisas quebradas sem deixar que elas destruam nossa capacidade de amar.

Eu ainda tenho rachaduras.

Ainda tenho medo.

Ainda existem partes minhas que não voltaram.

Mas estou aqui.

E talvez isso também seja uma forma de inteireza.

Não a inteireza de quem nunca foi quebrado, mas a de quem reuniu os próprios pedaços e decidiu continuar vivendo.

Artigo de opinião

Por Padre Carlos

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Reflexões sobre amor, humanidade, fragilidade e reconstrução.


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