
Uma carta sobre algumas amizades
Por Padre Carlos
Há pessoas que, quando penso nelas, não consigo separar de um tempo da minha vida.
Não são apenas nomes. São ruas, vozes, risadas, esquinas, músicas, conversas interrompidas pelo sono, planos que pareciam enormes, lugares que hoje talvez tenham mudado completamente. São pessoas que ficaram ligadas para sempre a uma determinada versão de mim.
Tenho muitos amigos assim.
Amigos da infância, na Pituba. Amigos do Areal, amigos da Paróquia do Santo André. ( Grupo de jovens, CVX e a comunidade) Companheiros da militância no bairro e na cidade. Amigos do seminário, filosofia e teologia. Amigos que a vida me deu depois, em Vitória da Conquista. Gente de tempos diferentes, mundos diferentes, crenças, sonhos e circunstâncias diferentes. Alguns ainda estão perto. Outros estão a uma mensagem de distância. Outros talvez estejam separados de mim por anos de silêncio.
Mas silêncio não é necessariamente esquecimento.
Talvez uma das verdades mais difíceis que aprendemos quando envelhecemos seja justamente esta: nem toda amizade termina.
Algumas apenas mudam de lugar dentro de nós.
Quando ainda acreditávamos que sempre haveria uma próxima vez
Quando somos mais jovens, imaginamos que aquilo que amamos permanecerá exatamente como está. O grupo continuará reunido. As conversas continuarão acontecendo. Aquele amigo continuará aparecendo sem avisar. Aquela mesa continuará recebendo as mesmas pessoas. Aquele telefone continuará tocando. Aquele café continuará sendo tomado.
Pensamos que haverá sempre uma próxima vez.
E quase nunca percebemos quando a última acontece.
Talvez tenha existido, em algum momento da minha vida, uma última tarde em que todos os amigos estavam reunidos e ninguém sabia que era a última.
Alguém riu.
Alguém contou uma história.
Alguém disse que precisava ir embora cedo.
Talvez alguém tenha reclamado de alguma coisa sem importância.
Depois todos se despediram como sempre fazemos quando acreditamos que haverá outro encontro.
“Até amanhã.”
“Depois a gente se fala.”
“Qualquer coisa me liga.”
E fomos embora.
Só que o amanhã foi chegando carregado de outras coisas. Trabalho. Família. Estudos. Mudanças. Novas cidades. Novas responsabilidades. Novos amores. Novas preocupações.
E aquele grupo nunca mais esteve exatamente reunido daquele jeito.
É uma descoberta estranha perceber que alguns dos momentos mais importantes da nossa vida aconteceram sem que soubéssemos que eram importantes.
Pituba: onde tudo ainda estava começando
A infância na Pituba é assim para mim.
Quando volto a ela pela memória, não volto apenas a um lugar. Volto a uma versão minha que já não existe. A criança que olhava o mundo com uma espécie de confiança que somente as crianças possuem. A criança para quem amizade era simplesmente estar junto.
Não existiam grandes teorias sobre afeto.
Existia o amigo.
Isso bastava.
Amigos daquela época conheceram partes minhas que talvez ninguém mais tenha conhecido, porque estiveram presentes enquanto tudo ainda estava começando.
Conheceram minhas primeiras certezas e minhas primeiras dúvidas. Minhas pequenas coragens. Meus medos. Minhas descobertas.
Quando penso na Pituba, portanto, não penso apenas em ruas.
Vejo rostos.
E talvez seja isso que os lugares façam conosco: guardam pessoas dentro deles.
Santo André: outra página do álbum
Depois vieram outras estações. O Santo André pertence a outra página desse álbum.
Ali já havia outros sonhos, outras perguntas, outra maneira de olhar a vida. Amigos que participaram de uma fase em que eu começava a perceber que crescer significava também escolher caminhos.
Alguns daqueles companheiros talvez hoje vivam vidas completamente diferentes daquela que imaginávamos.
E está tudo bem.
Há uma espécie de beleza nisso.
O rapaz que conheci naquela época talvez não exista mais. Assim como eu também já não sou exatamente aquele homem.
“Mas fomos testemunhas uns dos outros. E isso ninguém consegue apagar.”
A militância e os sonhos de transformar o mundo
A militância trouxe outro tipo de amizade.
A amizade construída não apenas pela convivência, mas também por ideias, inquietações, esperanças e pelo desejo — talvez às vezes ingênuo, talvez necessário — de transformar alguma coisa no mundo.
Quem já dividiu sonhos políticos sabe que existe nisso uma intensidade particular.
As discussões que avançavam horas.
A convicção de que determinadas batalhas eram definitivas.
As reuniões intermináveis.
Os projetos.
As divergências.
Os entusiasmos.
As decepções.
E, no meio de tudo aquilo, os amigos.
Com algumas dessas pessoas, provavelmente discordei muitas vezes. Em determinados momentos, talvez tenhamos tomado caminhos completamente diferentes.
Mas há uma coisa que o tempo me ensinou: discordar depois não apaga aquilo que fomos juntos antes.
Seria injusto apagar uma amizade inteira porque a vida nos levou a conclusões diferentes.
As pessoas mudam.
Nós mudamos.
E a amizade madura precisa suportar inclusive aquilo que não permaneceu igual.
O seminário: amizades nascidas da busca
Depois houve o seminário.
Outra estação.
Outro silêncio.
Outra profundidade.
Ali conheci pessoas ligadas a perguntas diferentes. Perguntas sobre fé, vocação, sentido, destino, entrega, Deus, humanidade.
Há amizades que nascem da festa.
Outras nascem da luta.
E existem aquelas que nascem da busca.
Os amigos do seminário pertencem, para mim, a esse território.
Foram testemunhas de perguntas que talvez eu nem soubesse formular corretamente. Compartilhamos inquietações interiores, esperanças, crises, convicções, descobertas.
Algumas amizades conseguem guardar aquilo que fomos quando ainda estávamos tentando descobrir quem seríamos.
Isso cria um vínculo difícil de explicar.
Talvez hoje alguns daqueles amigos estejam muito distantes. Talvez nossas vidas tenham seguido por direções inesperadas.
Mas às vezes basta ouvir determinada música, entrar em determinado lugar ou reencontrar uma fotografia para que tudo retorne.
O tempo é curioso.
Ele leva quase tudo para longe, mas deixa pequenas portas abertas.
Um cheiro. Uma canção. Uma rua. Uma frase. Uma fotografia.
E, de repente, alguém que não víamos há vinte anos aparece inteiro dentro de nós.
Vitória da Conquista e uma nova geografia afetiva
Mais tarde, Vitória da Conquista.
Uma nova cidade significa sempre uma nova possibilidade de pertencimento.
Chegamos trazendo conosco todas as pessoas que vieram antes, ainda que ninguém perceba.
Quando conhecemos alguém novo, apresentamos apenas nosso nome. Mas dentro de nós existe uma multidão.
Somos feitos de encontros.
Carregamos frases que amigos disseram décadas atrás. Há maneiras de pensar que aprendemos numa conversa. Gestos que incorporamos. Conselhos que primeiro recusamos e depois compreendemos. Coragens que alguém nos emprestou quando ainda não possuíamos as nossas.
Por isso acredito que ninguém chega sozinho a lugar algum.
Em Vitória da Conquista encontrei novos amigos. Outras conversas. Outras histórias. Outras noites. Outros projetos.
E, lentamente, aquela cidade também passou a guardar nomes.
“Existem cidades que não amamos pelos prédios. Amamos pelas pessoas que encontramos nelas.”
A casa onde guardamos as pessoas
Com o passar dos anos, comecei a imaginar a vida como uma casa enorme.
Durante muito tempo pensei que amizade verdadeira significasse manter todos os amigos na sala.
Hoje não penso mais assim.
Há pessoas que continuam na sala conosco. Participam do cotidiano. Sabem dos problemas da semana, das preocupações, dos compromissos, das alegrias recentes.
Outras passaram para cômodos mais distantes. Não estão presentes todos os dias, mas continuam dentro da casa.
Há também aquelas que vivem quase exclusivamente nas fotografias, nas músicas, nos lugares e na memória.
Mas continuam fazendo parte da casa.
Porque deixaram alguma coisa.
Uma janela aberta.
Uma fotografia na parede.
Uma cadeira.
Uma história.
Talvez amizade verdadeira também seja aprender a não exigir que alguém permaneça exatamente no mesmo lugar para sempre.
Nem toda amizade precisa permanecer perto para continuar sendo verdadeira.
Esta frase demorou muito tempo para fazer sentido para mim.
Porque existe uma tendência humana de medir amor pela frequência.
Se não ligou, esqueceu.
Se não apareceu, não se importa.
Se não conversamos mais todos os dias, então aquilo terminou.
Mas talvez algumas relações humanas sejam maiores do que essa matemática.
Há pessoas com quem hoje converso pouco e que continuam sendo profundamente queridas.
Talvez não saibam exatamente como são meus dias. Talvez eu também não saiba detalhes dos seus.
Mas conhecemos versões antigas uns dos outros.
E isso é muito.
Talvez você esteja lendo estas palavras
Há amigos que conheceram sonhos meus que nem existem mais. Conheceram dores que já cicatrizaram. Conheceram medos que hoje parecem pequenos. Conheceram pessoas que eu fui.
Talvez você esteja lendo estas palavras e nós não conversemos há muito tempo. Talvez hoje saibamos pouco da rotina um do outro.
Mas quero que você saiba uma coisa:
quando penso naquela fase da minha vida, você está lá.
Talvez eu pense na Pituba e encontre você. Talvez pense no Santo André. Talvez nas discussões e esperanças da militância. Talvez nos corredores, silêncios e reflexões do seminário. Talvez nas ruas de Vitória da Conquista.
Talvez eu nem consiga lembrar exatamente da última vez em que nos encontramos.
Mas lembro de quem éramos.
E isso permanece.
Não é uma cobrança
Não escrevo estas palavras como uma cobrança.
Não quero perguntar por que nos afastamos.
Às vezes não existe resposta. E talvez nem precise existir.
A vida não rompe todas as amizades com uma discussão cinematográfica.
Na maioria das vezes ela apenas vai colocando coisas entre duas pessoas.
Um emprego. Um casamento. Uma mudança. Um filho. Uma nova cidade. Uma doença na família. Uma preocupação. Uma rotina. Um cansaço.
Quando percebemos, aquilo que antes era diário tornou-se mensal. Depois anual. Depois ocasional.
E um dia encontramos o nome daquela pessoa no telefone e ficamos alguns segundos olhando.
Pensamos em escrever.
Às vezes escrevemos.
Às vezes não.
Mas lembrar também é uma forma de presença.
Não precisamos obrigar o passado a voltar
Aprendi também que não é preciso reconstruir tudo.
Isso talvez seja uma das formas mais difíceis de maturidade.
Nem toda amizade antiga precisa voltar a ser exatamente o que era.
Algumas coisas pertencem com perfeição ao tempo em que aconteceram.
“Tentar reproduzi-las pode ser como tentar voltar a morar numa casa que já não existe.”
Podemos visitar.
Podemos lembrar.
Podemos agradecer.
Mas não precisamos obrigar o passado a voltar.
Isso não diminui aquilo que vivemos. Pelo contrário. Talvez seja justamente o que preserva sua beleza.
Que sorte tivemos de nos encontrar
Há amizades que duraram alguns anos e mudaram uma vida inteira.
Há pessoas que passaram rapidamente por nós e deixaram consequências permanentes.
Algumas nos ensinaram coragem. Outras nos ensinaram a rir. Algumas acreditaram em nós quando ainda tínhamos dificuldade de acreditar. Outras nos confrontaram. Algumas dividiram a mesa. Outras dividiram lágrimas. Algumas apareceram nos dias felizes. Outras tiveram a delicadeza de não ir embora nos dias ruins.
Somos também aquilo que recebemos dessas pessoas.
Por isso, quando penso nos amigos que se afastaram, tento substituir a pergunta “por que não estamos mais tão próximos?” por outra:
“Que sorte tivemos de nos encontrar.”
Essa mudança parece pequena. Mas transforma tudo.
A saudade deixa de ser uma acusação
e passa a ser gratidão.
Uma forma silenciosa de eternidade
Há pessoas que não fazem mais parte dos nossos dias, mas continuarão para sempre fazendo parte da nossa história.
E talvez exista nisso uma forma silenciosa de eternidade.
Não a eternidade grandiosa dos monumentos.
Uma eternidade pequena.
Humana.
A eternidade de alguém que continuará existindo dentro de uma lembrança enquanto houver alguém capaz de lembrar.
Aos amigos de todos esses caminhos
Aos amigos da Pituba, do Santo André, da militância, do seminário, de Vitória da Conquista e de tantos outros caminhos que atravessei: talvez a vida tenha diminuído nossas conversas, mudado nossas rotinas e colocado quilômetros, responsabilidades e anos entre nós.
Talvez hoje sejamos pessoas muito diferentes daquelas que um dia sentaram juntas para conversar.
Talvez discordemos de coisas que antes nos uniam.
Talvez a próxima vez que nos encontremos seja por acaso.
Talvez demore.
Mesmo assim, nenhuma distância consegue apagar aquilo que verdadeiramente aconteceu.
Vocês continuam presentes em algum lugar da minha memória.
E, portanto, em algum lugar de mim.
Se algum dia nos encontrarmos novamente, talvez não seja necessário explicar todos esses anos.
Talvez baste um abraço.
Um sorriso.
E aquela frase simples que somente os verdadeiros afetos conseguem compreender:
“Quanto tempo.”
Porque existem sentimentos que não precisam permanecer diariamente à nossa frente para continuar existindo.
Algumas pessoas simplesmente mudam de lugar na nossa história.
Saem da rotina e entram na memória.
Saem do presente e passam a morar numa fotografia antiga, numa rua, numa música, numa conversa que ainda conseguimos ouvir dentro da cabeça.
E ainda assim continuam sendo queridas.
Muito queridas.
Talvez seja esta a beleza mais serena das amizades que o tempo afastou: descobrir que nem tudo aquilo que ficou distante foi perdido.
Algumas coisas apenas encontraram outra maneira de permanecer.
E, se depois de ler estas palavras você se lembrou de alguém que não vê há muito tempo, talvez não seja necessário escrever uma longa mensagem.
Procure aquele nome antigo.
E diga apenas:
“Lembrei de você hoje.”



