Política e Resenha

HEPTACRACIA: OU AS SETE PRAGAS DO BRASIL

Política e Resenha · Artigo de opinião

por José Alcimar de Oliveira*

Quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro. E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha dentro de você.
— Nietzsche

Nesses tempos obscuros, refratários à reflexão, de aversão à teoria, para recorrer ao já dito por Theodor Adorno, boa parte do Brasil parece estar sob anestesia cognitiva, em estado de sonambulismo. Francisco de Goya y Lucientes, o mais célebre gravurista espanhol do século XVIII, expressou de forma a mais acutilante esse quadro mental numa famosa gravura, de 1799, e sob um título assustador: o sono da razão produz monstros.

Contemporâneo filosófico do iluminismo artístico de Goya, Kant escreve: “É tão cômodo ser menor (viver na menoridade cognitiva). Se tenho um livro (talvez de autoajuda) que faz as vezes de meu entendimento, um diretor espiritual que por mim tem consciência (que pensa por mim), um método que por mim decide (…), então não preciso de esforçar-me eu mesmo. Não tenho necessidade de pensar, quando posso simplesmente pagar; outros se encarregarão em meu lugar dos negócios desagradáveis”. O grifo no início da citação é meu, bem como são minhas as inserções entre parênteses.

Num artigo recente, Eduardo Hoornaert, historiador e teólogo belga de reconhecimento internacional que se fez brasileiro, pois vive no Brasil desde 1958 e celebra 96 anos de uma vida luminosa neste 07 de outubro de 2026, escreveu: “despertar um sonâmbulo é uma empresa arriscada, pois ele adora ‘perambular’ no seu sonho. Despertar para a realidade é doloroso para um sonâmbulo, pois a quimera é tão atrativa e sedutora (…) e lhe garante uma ‘falsa segurança'”. Foi imensa a alegria de conhecer pessoalmente, no dia 28 de fevereiro de 2026, Eduardo Hoornaert em sua casa-biblioteca em Salvador, juntamente com um grupo de Professores da UFAM e da UEA, numa visita organizada por nossa soteropolitana Papisa Bernizeth.

Mas a vida, esse equilíbrio tão frágil e movediço, também implica tristeza e incertezas. E sobre isso quero discorrer nos sete parágrafos que se seguem, cada um dedicado a conferir alguma inteligibilidade às sete pragas que ameaçam e já vêm ameaçando o Brasil há algum tempo. Trata-se, como indica o título, de uma heptacracia, que embora não se apresente numa ordem hierárquica, ou seja, que vai do pior ao ainda pior, optei por iniciar pela praga da ignorância, que o franciscano do medievo Roger Bacon classificava como “um animal particularmente feroz, que devora e destrói todas as razões”.

As sete pragas em síntese

01 Agnotocracia — o poder da ignorância
02 Misocracia — o poder do ódio
03 Fobocracia — o poder do medo
04 Mamomcracia — o poder do dinheiro
05 Kleocracia — o poder da glória e da fama
06 Caquistocracia — o poder do pior
07 Tanatocracia — o poder da morte

01 – AGNOTOCRACIA

Trata-se do poder da ignorância. Não da ignorância no sentido socrático, epistemológico, conhecida como “douta ignorância”. A ignorância, no caso, de quem diante do que não sabe ou ignora, tem consciência de que o que julga saber é quase um nada diante do que não sabe. Por isso Sócrates dizia “só sei que nada sei”. Essa ignorância tem estatuto filosófico e deve ser cultivada. O que é muito diferente da ignorância como projeto, como programa social, que produz o negacionismo, que conduz as pessoas a se reunirem ao redor de um pneu e pedir a intervenção de forças sobrenaturais para alterar o que foi socialmente produzido. Até a Bíblia condena esse tipo de ignorância, como encontramos no Livro do profeta Oseias 4,6: “o meu povo se perde, perece, por falta de conhecimento”. Conhecimento salva. Ignorância mata.

02 – MISOCRACIA

É o poder do ódio. É quando o ódio se organiza como política. O que é o fascismo senão uma forma orgânica de ódio, que mobiliza e imobiliza, de forma que a pessoa fica enfeixada, amarrada, como o agricultor amarra em feixe, por exemplo, um conjunto de varas. O ódio cega. Impede a visão. Quem odeia é dominado, imobilizado, pelo objeto de sua crença. Uma das piores formas de ódio é o religioso. Platão, por exemplo, nos fala da misologia, do ódio à razão. Adorno, por sua vez, nos fala do mesmo ódio sob a forma de aversão à teoria. O mais terrível da misocracia é que o ódio é ensinado. Nenhuma criança nasce com propensão ao ódio.

03 – FOBOCRACIA

É o poder do medo. Uma poderosa forma de poder. A Idade Média, organizada pelo regime de Cristandade, desenvolveu técnicas as mais sofisticadas e eficientes para difundir a fé pelos instrumentos do medo. Numa população dominada pelo analfabetismo, mais do que isso, pela ignorância organizada, era pelo medo, pelo temor de Deus (timor Domini, timor servilis), medo do Senhor, medo servil. O governo do medo se afirma pela geração de um estado contínuo de insegurança. Acerca disso, seja dada a palavra a Spinoza: “Porque a multidão livre conduz-se mais pela esperança que pelo medo, ao passo que uma multidão subjugada conduz-se mais pelo medo que pela esperança: aquela procura cultivar a vida, esta procura somente evitar a morte”.

04 – MAMOMCRACIA

Nesse caso, pela força denotativa de origem bíblica, religiosa, prefiro o conceito de MAMOMCRACIA ao de PLUTOCRACIA. Em Jesus de Nazaré o dinheiro (mammon, em aramaico), que significa riqueza, lucro, se apresenta como um tipo de divindade concorrente. Por isso, Jesus afirma: “Ninguém pode servir a dois senhores, pois odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro” (Mt 6,24). Não se trata de um poder qualquer. Tem nome: Dinheiro. Aqui podemos recorrer a outros dois judeus para reforçar a crítica ao poder do Dinheiro: Marx, que via no Dinheiro o operador universal da divisão, e Walter Benjamin, que deixou uma obra inacabada sob o título de Capitalismo como Religião. E ao geógrafo-filósofo Milton Santos, que nos fala da tirania do dinheiro.

05 – KLEOCRACIA

Trata-se do poder da glória, da fama. Da busca doentia dos “likes”. É o poder da aparência. Ser é aparecer. Aquiles prefere morrer jovem na cidade de Troia a gozar de uma vida longa mas anônima ao regressar à sua casa. O grande e saudoso jornalista Zuenir Ventura, que partiu no outubro recente, escreveu que mais do que invasão de privacidade, o que de fato impera é a evasão de privacidade. É certo dizer aqui que não se trata do kleos antigo, homérico, ligado a um grande feito. É um tipo de kleos vazio, degenerado, vão. O que vai ao encontro da vaidade feita fogueira, tal como encontramos no sábio e belo livro do Eclesiastes, 1,2: “Vanitas vanitatum, et omnia vanitas: vaidade das vaidades, e tudo é vaidade”. A kleocracia é o império do raso, da excitação continuada, da profundidade epidérmica.

06 – CAQUISTOCRACIA

É o poder do pior. Literalmente é o governo dos piores. Em oposição à aristocracia, que igualmente é digna de crítica, e a ambos os poderes, oponho a democracia, não a burguesa, como temos no Brasil. Democracia em que o povo, como classe consciente de sua força e de seus direitos, exerce o poder. Não a democracia retoricamente defendida pela burguesia como valor universal. Democracia, que fique bem marcado, como estratégia de democratização de direitos e a começar pela base. A caquistocracia, sem escrúpulos e de forma a mais desinibida, é o que hoje ocupa o poder no Estado brasileiro. A caquistocracia se alimenta do ódio à política. Como o povo passa a ver como racional e aceitável figuras que negam os direitos humanos? Por que se deixa envenenar pela representação política do pior? E nada pior do que a política da negação e desqualificação da política. A caquistocracia produz não apenas a figura do pobre de direita (na verdade, um pobre de direitos), mas – e o que é pior – o letrado de direita, inclusive com pós-doutorado. Como escreve Milton Santos: “O terrível é que, nesse mundo de hoje, aumenta o número de letrados e diminui o de intelectuais. Não é este um dos dramas atuais da sociedade brasileira?”.

07 – TANATOCRACIA

Trata-se do poder da morte. Seja a necropolítica de Mbembe, a decidir na sociedade quem deve viver e quem deve morrer. Seja o que chamo de necrocracia (e não sei se o conceito já foi usado antes de mim, e isso pouco me importa), em que o Estado, em nome da política de segurança, racionaliza a morte como algo natural, como projeto político e reduz as vidas matadas a frios quadros estatísticos. A exaltação das armas adquire força emblemática, converte-se num signo teológico, num culto religioso com elevado poder convocatório. Não se trata de defender a vida, mas de imprimir sentido à morte. É o reverso do sentido que o Movimento de Jesus de Nazaré confere à Cruz. Já não existe redenção. A propósito, o Arcebispo de El Salvador Dom (e Santo) Oscar Romero, em meio ao morticínio em que se transformou seu pequeno e explorado País, solicitou ao teólogo franciscano brasileiro Leonardo Boff: “padre, ajude-nos a elaborar uma teologia da vida”. Dom Oscar Romero foi assassinado em 24 de março de 1980 enquanto celebrava missa em que clamava pela vida de seu povo. Como afirmar socialmente a força da vida e impedir que a pulsão de morte freudiana se converta em política de Estado no Brasil?

* José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, onde cursou e obteve o mestrado (em 1998) e o doutorado (em 2011). É também teólogo heterodoxo e sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical e filho do cruzamento metafórico dos rios Solimões (em Manacapuru – AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana – CE). Desde Manaus, AM, em outubro de 2026.

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José Alcimar de Oliveira — Professor de Filosofia da UFAM — Política e Resenha