Política e Resenha

O homem que viu a fome nos olhos de uma criança

Política e Resenha · Memória e Política

Há homens públicos que podem ser conhecidos pelos cargos que ocuparam. Outros, porém, precisam ser conhecidos pelas histórias que carregam dentro de si.

O senador Otto Alencar pertence a essa segunda categoria.

Toda vez que ele fala de Irmã Dulce, não está simplesmente contando uma passagem de sua biografia. Está abrindo uma janela para um Brasil que muitos talvez prefiram esquecer. Um Brasil onde a fome não era uma palavra utilizada em discursos políticos, mas uma realidade que podia ser vista no corpo de uma criança.

E foi justamente isso que mais me tocou em seu relato.

Onze anos ao lado de Irmã Dulce

Otto Alencar teve o privilégio — e também o peso — de trabalhar durante 11 anos ao lado de Irmã Dulce, no Hospital Santo Antônio, em Salvador. Ali, entre enfermarias, corredores e histórias de sofrimento, ele conheceu uma realidade que nenhum livro de estatística consegue traduzir completamente.

Ele viu crianças chegarem ao hospital vítimas daquilo que deveria ser impossível em qualquer sociedade: a fome extrema.

Crianças com os ossos frágeis. Crianças com fraturas espontâneas provocadas pela desnutrição. Crianças que chegavam aos 11 ou 12 anos carregando no próprio corpo as marcas de uma pobreza que lhes roubara até o direito de crescer.

E talvez nenhuma frase seja mais poderosa do que aquela que ficou registrada em seu depoimento:

“Criança de 12 anos que não tinha peso, só tinha os ossos.”

É impossível ler isso sem parar por alguns segundos.

Porque há momentos em que a política deixa de ser disputa partidária, eleição, governo ou oposição. Há momentos em que a política volta à sua origem: a tentativa humana de impedir que alguém sofra aquilo que não deveria sofrer.

Otto não estava falando de uma planilha.

Estava falando de pessoas.

Estava falando de crianças que ele viu.

A memória que impede a estatística

E quando um homem que exerceu a medicina durante tantos anos diz que determinadas lembranças ainda o fazem chorar, é preciso prestar atenção.

Eu acredito que esse seja um dos maiores valores da memória: ela nos impede de transformar a dor dos outros em estatística.

Quem nunca viu a fome de perto pode falar sobre ela como um número.

Quem viu uma criança faminta, porém, nunca mais consegue olhar para a fome da mesma maneira.

É nesse ponto que a memória de Otto Alencar encontra a memória de Irmã Dulce.

A freira que ficou conhecida como o Anjo Bom da Bahia compreendeu que a pobreza não podia esperar pela burocracia, pela conveniência política ou pelo momento eleitoral. Ela simplesmente abria as portas para quem precisava entrar.

E naquele hospital, Otto conheceu uma Bahia que não aparecia nos cartões-postais, uma Bahia onde milhares de brasileiros sobreviviam entre a pobreza, a doença e o abandono.

O médico viu.

Irmã Dulce viu.

E quem vê jamais pode dizer que não sabia.

Para além da polarização

É por isso que considero especialmente forte quando Otto fala sobre o combate à fome no Brasil. Ele fala a partir de uma convicção política, evidentemente. Defende os governos de Lula e atribui a eles papel central na redução da pobreza e da fome. Isso faz parte de sua visão política e não precisa ser escondido.

Mas existe algo anterior à política partidária.

Existe a experiência.

Existe a memória.

Existe o menino ou a menina que um dia entrou naquele hospital sem ter sequer massa corporal suficiente para sustentar os próprios ossos.

E é justamente por isso que o depoimento de Otto merece ser ouvido para além da polarização.

Não precisamos concordar com todas as suas posições políticas para compreender a força de sua memória.

Não precisamos votar como ele para reconhecer a humanidade daquele relato.

Não precisamos transformar Irmã Dulce em patrimônio de uma ideologia para reconhecer que sua obra continua sendo uma das maiores páginas de solidariedade da história da Bahia.

A fome, afinal, não pergunta em quem a pessoa vota.

A fome não tem partido.

A fome não conhece esquerda ou direita.

A fome não sabe quem é Lula, Bolsonaro, Fernando Henrique, Itamar ou qualquer outro presidente.

A fome simplesmente chega.

E quando chega, ela não destrói apenas o estômago. Ela rouba a infância, enfraquece os ossos, adoece o corpo, humilha a dignidade e, muitas vezes, condena gerações inteiras à exclusão.

Por isso, quando discutimos políticas públicas de combate à pobreza, precisamos fazê-lo com seriedade.

Programas de transferência de renda, alimentação escolar, educação, saúde, emprego e proteção social não podem ser tratados apenas como instrumentos de propaganda eleitoral. São mecanismos de proteção da dignidade humana.

Ao defender as políticas sociais dos governos Lula, Otto faz uma comparação com aquilo que testemunhou décadas atrás. Para ele, a redução da fome representa uma conquista histórica.

Podemos discutir números.

Podemos discutir governos.

Podemos discutir métodos.

Podemos discutir responsabilidades.

A democracia vive justamente dessa possibilidade de discutir.

Mas existe uma coisa que não deveríamos discutir: se uma criança deve ou não ter o direito de comer.

Esse deveria ser o ponto de partida de qualquer projeto político.

Testemunha de um Brasil que existiu

E talvez seja essa a maior lição escondida no depoimento de Otto Alencar.

Um homem que passou pela medicina, pela política e pelo poder público poderia escolher falar apenas de suas vitórias, de seus mandatos, de suas eleições ou de suas realizações.

Mas, quando ele volta ao passado, volta às enfermarias de Irmã Dulce.

Volta às crianças.

Volta aos ossos frágeis.

Volta à fome.

Volta àquelas imagens que o tempo não conseguiu apagar.

E, nesse instante, o senador deixa de ser apenas o político que conhecemos.

Torna-se testemunha.

Testemunha de um Brasil que existiu.

Testemunha de uma pobreza que mutilava corpos.

Testemunha de uma época em que crianças podiam chegar ao hospital carregando no próprio esqueleto a prova da desigualdade.

Talvez seja justamente por isso que suas palavras tenham me tocado.

Porque há discursos que tentam convencer.

E há memórias que simplesmente nos atravessam.

A memória de Otto Alencar é uma dessas.

Ele viu o que muitos não viram.

E algumas imagens, quando entram pelos olhos, nunca mais saem da alma.

Irmã Dulce passou pela vida fazendo o que podia para diminuir aquela dor.

Otto passou 11 anos ao lado dela, cuidando de pessoas e testemunhando histórias que permaneceram gravadas em sua consciência.

Décadas depois, quando fala sobre a fome, sua voz política vem acompanhada pela voz do médico que um dia encontrou crianças sem forças para sustentar os próprios ossos.

É impossível não perceber a dimensão humana disso.

O que o poder não apaga

No final das contas, talvez seja essa a grandeza de certos homens públicos: não esquecerem aquilo que viram antes de chegarem ao poder.

Porque o poder passa.

Os mandatos passam.

As eleições passam.

Os governos passam.

Mas algumas imagens permanecem.

E talvez uma das imagens mais fortes da vida de Otto Alencar seja justamente aquela criança de 12 anos que chegou ao Hospital Santo Antônio sem peso, “só com os ossos”.

Que o Brasil nunca se acostume a esquecer essas crianças.

Que a política nunca transforme a fome em estatística.

E que a memória de homens como Otto Alencar nos lembre de uma verdade simples, mas profundamente humana:

antes de qualquer ideologia, existe uma criança.

E antes de qualquer disputa pelo poder, deveria existir o compromisso de garantir que ela tenha o direito elementar de comer, crescer e viver.

Essa é uma causa que deveria unir o Brasil.

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Padre Carlos  — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha