Padre Carlos
Há momentos em que a memória nos visita sem pedir licença. Basta reencontrarmos uma anotação antiga, uma página amarelada, um nome esquecido entre tantos outros, e de repente somos transportados para um tempo que parecia perdido. Voltamos a ser quem fomos, ainda que por alguns instantes. Voltamos às perguntas, às inquietações, aos sonhos e até às dúvidas que um dia nos fizeram companhia.
Foi assim que, nestes últimos dias, reencontrei algumas anotações dos meus tempos de estudante de Filosofia. E confesso que senti saudade.
Saudade de um tempo em que uma pergunta podia ocupar uma noite inteira. Saudade das longas conversas, dos livros abertos sobre a mesa, das discussões que pareciam não ter fim e daquela sensação quase juvenil de que, se lêssemos mais um livro, talvez finalmente encontrássemos uma resposta para aquilo que nos inquietava.
O estudante e as anotações antigas
Durante o curso de Filosofia, meu Trabalho de Conclusão de Curso foi sobre o Positivismo no Brasil. Era um tema que me interessava profundamente e que me levou a mergulhar na história das ideias, na formação do pensamento brasileiro e na influência que o positivismo exerceu sobre a construção da nossa República.
Mas houve outro trabalho que, de alguma maneira, ficou ainda mais profundamente guardado em minha memória.
Era o trabalho do padre Gerson sobre Jean-Paul Sartre e o Existencialismo.
Lembro-me de como aquele estudo me chamou a atenção. Não era apenas uma exposição sobre um filósofo ou uma escola de pensamento. Havia ali uma tentativa de compreender o Existencialismo dentro do seu tempo histórico, dentro das feridas abertas pela primeira metade do século XX, pelas guerras, pela crise das certezas, pela experiência da liberdade e pela angústia diante de um mundo que havia perdido muitas de suas antigas referências.
Talvez tenha sido naquele momento que alguma coisa dentro de mim começou a mudar.
Nos anos seguintes, voltei muitas vezes ao Existencialismo. Não necessariamente para encontrar respostas, mas para compreender melhor as perguntas.
E talvez seja isso que a Filosofia faça de melhor conosco: ela não nos entrega respostas prontas. Ela nos ensina a perguntar melhor.
Hoje, tantos anos depois, quando volto àquelas anotações, percebo que não estava apenas estudando Sartre, Camus, Kierkegaard ou outros pensadores. Eu estava, sem saber, estudando a mim mesmo.
É curioso como o tempo transforma a leitura.
Quando somos jovens, lemos um livro procurando compreender o autor. Quando envelhecemos, muitas vezes percebemos que estávamos procurando compreender a nós mesmos.
Sartre e Camus: a amizade e a ruptura
Foi nesse reencontro com minhas antigas leituras que voltei a pensar em Jean-Paul Sartre e Albert Camus.
Poucas histórias intelectuais do século XX são tão fascinantes quanto a amizade e a posterior ruptura entre esses dois grandes pensadores.
Eles foram amigos, admiradores e interlocutores. Dois homens profundamente envolvidos com as grandes questões de seu tempo: liberdade, responsabilidade, existência, escolhas, violência, política, justiça e o sentido da vida.
Mas também eram homens.
E talvez essa seja a parte mais bonita e mais dolorosa da história.
Porque a amizade entre Sartre e Camus acabou sendo atravessada por divergências filosóficas e políticas profundas. O debate sobre a violência, o comunismo, a revolução e os limites da ação política acabou levando os dois a uma ruptura pública.
E foi justamente essa história que me fez voltar a uma questão que talvez me acompanhe desde aqueles velhos tempos de Filosofia.
Como pode alguém compreender tão profundamente a existência humana e, ainda assim, encontrar tanta dificuldade para compreender o outro?
A pergunta ganhou uma força especial para mim quando pensei em um amigo que estava mergulhando em O Estrangeiro, de Camus. Durante uma aula sobre a vida e a obra do escritor, ele fez uma pergunta que ficou comigo.
Em outras palavras, ele queria saber como duas pessoas que haviam dedicado tanto tempo a pensar sobre a condição humana poderiam chegar a um ponto em que já não conseguiam acolher uma à outra em suas diferenças.
E então ele disse algo que me marcou:
“Essa distância entre tanto conhecimento e o cuidado com o outro me fez pensar.”
— Um amigo do seminário em Belo Horizonte
Fez-me pensar também.
A distância entre saber e viver
Talvez porque essa pergunta toque numa das maiores contradições da condição humana.
Nós costumamos imaginar que estudar nos torna necessariamente melhores. Que quanto mais lemos, mais compreendemos. Que quanto mais conhecemos Filosofia, Psicologia, Literatura ou Teologia, mais preparados estaremos para compreender a nós mesmos e aos outros.
Mas não é tão simples.
O conhecimento pode ampliar nossa inteligência sem necessariamente ampliar nossa humanidade.
Podemos conhecer profundamente a teoria da empatia e continuar sendo incapazes de perdoar. Podemos falar durante horas sobre tolerância e perder a paciência diante daquele que pensa diferente de nós. Podemos estudar relações humanas e não perceber nossas próprias contradições.
E talvez essa seja uma das descobertas mais desconcertantes da maturidade: perceber que existe uma distância, às vezes enorme, entre aquilo que sabemos e aquilo que conseguimos viver.
Eu mesmo já encontrei dentro de mim algumas dessas distâncias.
Há coisas que sabemos perfeitamente que deveríamos fazer e, mesmo assim, não fazemos.
Sabemos que não deveríamos responder quando estamos dominados pela raiva, mas respondemos.
Sabemos que uma pessoa não pode ser reduzida ao erro que cometeu, mas às vezes permitimos que aquele erro passe a representar tudo o que pensamos sobre ela.
Sabemos que podemos estar errados, mas construímos argumentos cada vez mais sofisticados para provar que estamos certos.
E aqui a Filosofia encontra a Psicologia.
Nossa inteligência, que deveria servir à busca da verdade, também pode ser usada para construir justificativas para aquilo que desejamos acreditar.
O ressentimento pode vestir a roupa de princípio.
O orgulho pode apresentar-se como dignidade.
A necessidade de vencer pode chamar-se defesa da verdade.
A dificuldade de conviver com o outro pode ser apresentada como coerência.
E quanto mais sofisticada é nossa inteligência, mais sofisticadas podem ser também as nossas justificativas.
Para que servem os livros?
Foi por isso que, com o passar dos anos, comecei a compreender que ler muito não significa necessariamente viver melhor.
É uma constatação que até me dói escrever, porque passei boa parte da vida entre livros.
Eu gostaria de acreditar que os grandes livros necessariamente produzem grandes homens.
Mas a experiência nos mostra que não é assim.
Podemos ler Dostoiévski e continuar sem reconhecer o nosso próprio ressentimento. Podemos compreender Kafka e continuar olhando para as pessoas apenas segundo aquilo que elas podem nos oferecer. Podemos estudar Camus e Sartre e continuar tendo dificuldade para suportar alguém que pensa de maneira diferente.
Então, para que servem os livros?
Para abrir possibilidades.
A Literatura pode nos colocar dentro da consciência de alguém que não somos nós.
A Filosofia pode nos apresentar perguntas que jamais teríamos coragem de fazer sozinhos.
A Psicologia pode revelar mecanismos que estavam funcionando dentro de nós sem que percebêssemos.
A História pode nos ensinar que aquilo que parece absolutamente novo muitas vezes já aconteceu de outra maneira.
Mas nenhuma dessas coisas pode realizar por nós a última passagem.
A passagem entre compreender e transformar.
E talvez seja exatamente aí que conhecimento e sabedoria começam a se separar.
CONHECIMENTO E SABEDORIA
O conhecimento amplia aquilo que conseguimos pensar.
A sabedoria começa quando aquilo que compreendemos passa a exigir alguma coisa de nós.
Suportar a liberdade do outro
É fácil falar sobre tolerância quando estamos entre aqueles que pensam como nós.
Difícil é praticá-la diante daquele que nos irrita.
É fácil falar sobre perdão quando estamos diante de uma história distante.
Difícil é perdoar alguém que feriu o nosso orgulho.
É fácil defender a liberdade enquanto o outro utiliza a própria liberdade para dizer algo de que discordamos.
É fácil falar sobre humildade enquanto não somos nós que precisamos reconhecer o erro.
Talvez por isso aquela velha história de Sartre e Camus continue tão atual.
Não porque devamos julgar quem estava certo ou errado.
Não porque uma amizade rompida seja necessariamente uma prova de fracasso humano.
Mas porque aquela história nos devolve uma pergunta que continua sem resposta.
Existe uma distância entre compreender o humano e conseguir viver humanamente diante dele.
E essa pergunta me parece ainda mais importante hoje, quando vivemos um tempo de tanta intolerância, tanta polarização e tanta dificuldade de ouvir quem pensa diferente.
Às vezes penso que aquele jovem estudante de Filosofia que fui, sentado diante dos livros, não imaginava que passaria tantos anos depois ainda tentando responder às mesmas perguntas.
Talvez essa seja a grande ironia da Filosofia.
Pensamos que estamos estudando os grandes filósofos, quando, na verdade, eles estão lentamente estudando a nós.
Sartre, Camus, Nietzsche, Aristóteles, Platão e tantos outros foram companheiros de uma longa caminhada. Alguns ficaram mais próximos, outros se afastaram. Alguns livros foram esquecidos por algum tempo e depois reencontrados.
Mas certas perguntas permanecem.
Pedaços de mim
E hoje, quando volto às minhas antigas anotações, não encontro apenas conceitos.
Encontro pedaços de mim.
Encontro aquele rapaz que acreditava que os livros poderiam ajudá-lo a compreender o mundo. Encontro o estudante que se encantava com uma ideia nova. Encontro as noites de leitura, as discussões, as dúvidas e aquela esperança bonita de que compreender alguma coisa era também uma maneira de transformar a própria vida.
Talvez seja por isso que senti tanta saudade.
Não apenas da Filosofia.
Senti saudade de quem eu era quando comecei a fazer aquelas perguntas.
O tempo passa, os cabelos embranquecem, os livros mudam de lugar nas estantes e algumas certezas vão ficando pelo caminho.
Mas certas perguntas permanecem jovens.
E talvez seja justamente essa a beleza da Filosofia.
Ela nos envelhece por fora e, ao mesmo tempo, conserva dentro de nós a inquietação daquele estudante que ainda quer saber por que existimos, o que fazemos com a nossa liberdade, o que significa ser responsável e, sobretudo, como podemos aprender a viver com o outro.
Camus e Sartre começaram essa conversa há muitas décadas.
Eu continuo conversando com eles.
E talvez aquela jovem do clube de leitura tenha percebido algo que nós, depois de tantos livros, às vezes esquecemos: não basta compreender a existência humana.
É preciso aprender a cuidar do humano que está diante de nós.
Porque é relativamente fácil compreender o ser humano quando ele está dentro de um livro.
Muito mais difícil é compreendê-lo quando ele está diante de nós, contrariando-nos, decepcionando-nos, ferindo nosso orgulho ou simplesmente sendo diferente daquilo que gostaríamos que ele fosse.
É nesse momento que toda a nossa Filosofia é colocada à prova.
E talvez seja justamente aí que descobrimos se aquilo que aprendemos nos livros tornou-se, de fato, parte de quem somos.
Talvez, depois de tantos anos, essa seja a síntese que eu procurava quando jovem.
Não basta conhecer a vida.
É preciso aprender a vivê-la.
Não basta compreender o outro.
É preciso aprender a acolhê-lo.
E não basta falar sobre liberdade.
É preciso suportar a liberdade do outro.
Volto às minhas velhas anotações e sorrio.
Aquele estudante de Filosofia talvez não soubesse ainda, mas estava apenas começando uma conversa que duraria a vida inteira.
Hoje, tantos anos depois, continuo fazendo perguntas.
E talvez seja essa a melhor forma de não envelhecer completamente.
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Padre Carlos
Teólogo, sacerdote e colunista político — Política e Resenha




