
Memória · Vitória da Conquista · Resgate histórico
Margarida Oliveira: a pioneira que a memória de Conquista não pode esquecer
Primeira mulher a disputar a Prefeitura, a ser eleita deputada estadual e a ser eleita vice-prefeita de Vitória da Conquista: uma trajetória que merece ser reconhecida enquanto ainda podemos ouvi-la.
Uma injustiça silenciosa
Há uma injustiça silenciosa que cometemos com frequência em nossas cidades: esquecemos aqueles que ajudaram a construir a nossa história e só nos lembramos de reconhecer sua importância quando já não estão entre nós. Foi sobre essa realidade que conversei recentemente com o professor Durval Lemos Menezes. Sua reflexão me chamou a atenção para uma questão que considero fundamental: por que esperamos a ausência para celebrar a presença? Por que deixamos para depois o reconhecimento que poderia ser oferecido hoje, enquanto essas pessoas ainda podem ouvir, sentir e compartilhar a homenagem que merecem?
Considero essa omissão uma forma de violência contra a memória, contra a história e contra aqueles que dedicaram parte de suas vidas à construção da sociedade. Uma cidade que não reconhece seus protagonistas corre o risco de perder também a compreensão de sua própria trajetória. É por isso que o Política e Resenha assume o compromisso de resgatar a história, reconhecer legados e fazer justiça à memória das personalidades que ajudaram a construir Vitória da Conquista. E começamos essa caminhada falando de uma mulher que merece ocupar um lugar de destaque na memória política conquistense: Margarida Maria Lisbôa Oliveira.
Uma mulher de coragem
Margarida não é apenas um nome nos registros eleitorais. Sua trajetória representa uma página importante da luta das mulheres por espaço e reconhecimento na política brasileira. Advogada, servidora pública e mulher de coragem, ela entrou em um ambiente dominado por homens e decidiu enfrentar as barreiras de uma sociedade que ainda resistia à presença feminina nos espaços de poder.
Em 1982, quando poucas mulheres ousavam disputar os cargos mais importantes da política municipal, Margarida tornou-se a primeira mulher a concorrer à Prefeitura de Vitória da Conquista como candidata principal de uma chapa. Filiada ao então Partido Democrático Social, enfrentou uma disputa difícil, em um contexto político e cultural no qual o machismo impunha obstáculos consideráveis às mulheres que desejavam exercer funções de liderança.
Ela não venceu aquela eleição, mas sua candidatura representou uma vitória histórica. Obteve mais de 14 mil votos e demonstrou que uma mulher poderia disputar a Prefeitura com expressão eleitoral. Sua presença naquela campanha rompeu uma barreira que não era apenas partidária: era cultural. Margarida ajudou a questionar a ideia de que a política, especialmente a disputa pelo Executivo municipal, deveria ser um território exclusivamente masculino.
Da Assembleia à vice-prefeitura
O pioneirismo, entretanto, não terminou ali. Em 1990, Margarida foi eleita deputada estadual pelo então PFL, tornando-se a primeira mulher de Vitória da Conquista a conquistar uma cadeira na Assembleia Legislativa da Bahia. Exerceu o mandato entre 1991 e 1995 e ocupou funções relevantes no Legislativo, incluindo a vice-liderança da Maioria e a vice-presidência da Comissão de Educação, Esportes e Serviços Públicos. Também presidiu, em 1993, a CPI sobre Convênios Eleitoreiros.
Essas responsabilidades demonstram que sua atuação não se limitou a abrir portas. Margarida ocupou espaços de decisão, participou de atividades de fiscalização e integrou estruturas importantes do Poder Legislativo baiano. Sua história precisa ser contada com a seriedade que os fatos exigem, sem exageros, mas também sem diminuir a dimensão de suas conquistas.
Em 1992, alcançou outro marco: foi eleita vice-prefeita de Vitória da Conquista na chapa de José Pedral Sampaio, o mesmo político que havia enfrentado na eleição municipal de dez anos antes. Entretanto, optou por permanecer na Assembleia Legislativa e concluir seu mandato estadual. É importante registrar esse detalhe corretamente: Margarida foi a primeira mulher eleita vice-prefeita do município, mas não chegou a exercer efetivamente a função.
Sua relação com a cidade também passou pela articulação política em favor de obras públicas. Em depoimentos, atribuiu à sua atuação junto ao governo estadual a defesa de iniciativas como o Hospital Geral, o Colégio Estadual Luís Eduardo Magalhães e a Avenida Luís Eduardo Magalhães. Essas declarações fazem parte de sua memória política e devem ser consideradas dentro desse contexto, sem transformar sua participação em responsabilidade exclusiva pela realização dessas obras.
Linha do tempo
Marcos de uma trajetória pioneira
| 1982 | Primeira mulher a concorrer à Prefeitura de Vitória da Conquista como candidata principal de uma chapa, pelo PDS. Mais de 14 mil votos. |
| 1990 | Eleita deputada estadual pelo PFL, a primeira conquistense na Assembleia Legislativa da Bahia. Mandato de 1991 a 1995. |
| 1992 | Eleita vice-prefeita na chapa de José Pedral Sampaio, a primeira mulher a alcançar o posto no município. Optou por concluir o mandato na Assembleia e não exerceu a função. |
| 1993 | Presidiu a CPI sobre Convênios Eleitoreiros. Atuou ainda como vice-líder da Maioria e vice-presidente da Comissão de Educação, Esportes e Serviços Públicos. |
| 2000 | Candidatura a vereadora, que encerrou sua trajetória eleitoral. |
Uma biografia sem retoques
Há, portanto, muito mais a contar sobre Margarida do que a simples relação dos cargos que ocupou. Sua trajetória atravessa diferentes momentos da política conquistense, desde os anos da redemocratização até a consolidação de novas possibilidades de participação feminina. Em uma época na qual o machismo era um obstáculo concreto à presença das mulheres nos espaços de poder, ela teve a coragem de disputar eleições, assumir responsabilidades públicas e construir uma trajetória própria.
É claro que reconhecer uma personalidade histórica não significa transformar sua biografia em uma narrativa sem contradições. Margarida teve vitórias, escolhas e derrotas eleitorais. Depois de seu mandato como deputada, continuou a disputar eleições, sem conseguir novos mandatos, e encerrou sua trajetória eleitoral após a candidatura a vereadora em 2000. Mas uma derrota nas urnas não apaga o significado histórico de quem ajudou a ampliar as fronteiras da participação democrática.
Sua importância também aparece na memória de outras mulheres que vieram depois. A presença feminina na política de Vitória da Conquista não começou com as gerações atuais. Antes de muitas mulheres ocuparem cargos de direção e de representação, outras abriram caminhos, enfrentaram resistências e demonstraram que esses lugares também lhes pertenciam. Margarida está entre essas pioneiras.
Quando uma cidade homenageia suas mulheres, não deve lembrar apenas aquelas que estão em evidência no presente. Precisa reconhecer também as que abriram as portas pelas quais outras puderam passar. A história não começa com a geração que hoje ocupa o poder. Ela é construída por muitas mãos, inclusive por aquelas que, com o passar do tempo, acabam esquecidas nos arquivos, nas lembranças familiares e nas páginas pouco consultadas da vida pública.
Contra o esquecimento
É justamente contra esse esquecimento que o Política e Resenha deseja trabalhar. Nosso compromisso não é apenas comentar os acontecimentos do dia, analisar disputas eleitorais ou interpretar os movimentos dos grupos políticos. Queremos também contribuir para a preservação da memória de Vitória da Conquista, recuperando trajetórias que ajudam a explicar quem somos e como chegamos até aqui.
A reflexão do professor Durval Lemos Menezes permanece como uma advertência necessária: precisamos aprender a reconhecer as pessoas enquanto elas estão presentes. Homenagens póstumas têm seu valor, mas não substituem o reconhecimento oferecido em vida. A gratidão não deveria depender da ausência, e a memória não pode ser tratada como uma obrigação que só cumprimos diante da morte.
Margarida Oliveira merece ser lembrada porque sua história faz parte da história política de Vitória da Conquista. Foi pioneira na disputa pela Prefeitura, tornou-se a primeira mulher conquistense eleita deputada estadual e foi eleita vice-prefeita antes que outra mulher viesse a exercer efetivamente essa função. São fatos que precisam permanecer vivos na memória coletiva, não como simples curiosidades biográficas, mas como parte da luta pela ampliação da democracia e da participação feminina na vida pública.
A memória de uma cidade não pode depender da morte de seus protagonistas para finalmente receber a atenção que merece.
Política e Resenha
Uma cidade que respeita sua história não espera que seus protagonistas desapareçam para lhes reconhecer o valor. Ela registra suas contribuições, preserva seus documentos, escuta seus testemunhos e transmite às novas gerações a consciência de que o presente foi construído por pessoas que, muitas vezes, enfrentaram dificuldades que hoje já não conseguimos dimensionar.
Começamos com Margarida Oliveira essa caminhada de resgate histórico porque acreditamos que a memória também é uma forma de justiça. E porque Vitória da Conquista precisa conhecer melhor as mulheres e os homens que ajudaram a construir sua identidade.
Não queremos esperar que o silêncio se imponha para descobrir a importância de quem esteve conosco. Queremos contar essas histórias enquanto ainda podemos ouvi-las, confrontá-las com os documentos e reconhecer o que cada trajetória deixou de contribuição para a nossa sociedade.
Afinal, a história de uma cidade não pertence apenas aos vencedores das eleições, aos ocupantes dos cargos ou aos nomes que aparecem diariamente nas manchetes. Pertence também aos pioneiros, aos que abriram caminhos e àqueles cuja contribuição o tempo, injustamente, tentou apagar.
Reconhecer Margarida Oliveira é reconhecer uma parte importante da história de Vitória da Conquista. E fazer esse reconhecimento agora é afirmar que a memória de uma cidade não pode depender da morte de seus protagonistas para finalmente receber a atenção que merece.
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Padre Carlos
Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha




