Política e Resenha · Análise
Por Padre Carlos
Há uma diferença fundamental entre quem conhece a política pelos livros e quem aprendeu a decifrá-la ao longo de décadas de convivência com seus personagens, suas disputas, suas alianças e suas inevitáveis contradições. O primeiro conhece as teorias; o segundo, além delas, conhece a natureza humana. É dessa experiência que nasce a sabedoria popular — e é nesse terreno que se insere o provérbio lembrado pelo senador Otto Alencar.
Como é de costume, quando está em Brasília, em seu gabinete, o senador costuma recorrer a provérbios e ditados populares para traduzir, em poucas palavras, situações que muitas vezes exigiriam longas explicações. Neste momento de efervescência política, com a proximidade do segundo turno e as articulações que já projetam o cenário eleitoral de 2028, ele teria recorrido a uma dessas máximas que atravessam gerações:
“Sempre que você passar e vir um grande amigo seu conversando com um dos seus piores inimigos, pode ter absoluta certeza de que os dois estão conspirando contra você.”
A frase é forte, provocadora e carregada de ironia. Mas, para compreendê-la corretamente, é preciso reconhecer sua natureza: trata-se de um provérbio, uma expressão da sabedoria popular, e não de uma afirmação literal de que toda conversa entre um amigo e um adversário representa uma traição.
O senador não precisa estar dizendo que toda aproximação esconde uma conspiração. O sentido mais profundo do provérbio está na advertência que a experiência política ensina: não se deve confundir amizade declarada com lealdade incondicional, nem acreditar que os interesses de hoje serão necessariamente os mesmos de amanhã.
A experiência ensina a enxergar além das aparências
Na política, a experiência tem um valor que não se aprende apenas nos discursos, nas reuniões partidárias ou nos manuais de ciência política. Ela se constrói observando comportamentos, acompanhando mudanças de posição, testemunhando acordos e compreendendo que, por trás das declarações públicas, existem interesses legítimos, projetos pessoais e disputas por espaços de poder.
É justamente por isso que os provérbios continuam vivos. Eles condensam, em poucas palavras, a experiência acumulada de muitas gerações.
Quando alguém diz que é preciso ter cuidado com o amigo que conversa com o inimigo, não está necessariamente condenando a conversa, muito menos proibindo o diálogo. Está recomendando prudência. Está lembrando que a política é dinâmica e que as relações pessoais, por mais sólidas que pareçam, podem ser submetidas à pressão dos interesses.
Um político experiente sabe que adversários podem conversar sem deixar de ser adversários. Sabe também que antigos inimigos podem encontrar pontos de convergência e que aliados históricos podem divergir quando os caminhos eleitorais deixam de coincidir.
O que a experiência recomenda é não julgar apenas pelas palavras, mas observar a coerência entre o discurso, as atitudes e os compromissos assumidos.
Nesse sentido, o provérbio atribuído a Otto Alencar tem valor precisamente porque não precisa ser interpretado ao pé da letra para produzir reflexão. Sua força está na advertência, não na acusação.
Na política, as alianças têm memória curta e o futuro é disputado cedo
Basta olhar para o calendário político para perceber que 2028 já começou a ocupar o pensamento de muita gente. Embora as eleições municipais ainda estejam distantes, lideranças, partidos, vereadores e grupos regionais já avaliam cenários, medem forças e calculam os efeitos das decisões tomadas agora.
O segundo turno, nesse contexto, funciona como um teste de lealdades, mas também como uma oportunidade de diálogo e recomposição. Apoios são negociados, antigas divergências podem ser relativizadas e novos entendimentos começam a ser construídos.
Nada disso é, por si só, condenável. A democracia depende de diálogo, negociação e capacidade de composição. O problema surge quando a aliança é apresentada como compromisso permanente, enquanto seus protagonistas a tratam como instrumento provisório para alcançar objetivos particulares.
É nesse ambiente que a advertência do provérbio ganha relevância. Não para transformar cada conversa em motivo de suspeita, mas para lembrar que a política exige atenção, memória e discernimento.
Nos bastidores
Quem conhece os bastidores sabe que nem sempre o adversário mais perigoso é aquele que se apresenta como adversário. Às vezes, o risco está em acreditar que a proximidade de ontem garante a fidelidade de amanhã.
Vitória da Conquista: quem está pensando em 2028?
Em Vitória da Conquista, o provérbio também oferece uma chave interessante para interpretar as movimentações que poderão definir a sucessão municipal de 2028.
A prefeita Sheila Lemos, sua base política, os vereadores, os partidos e as lideranças regionais terão de lidar com uma realidade conhecida: as alianças que sustentam um projeto precisam ser renovadas por meio de diálogo, resultados e confiança mútua.
A força de uma liderança não se mede apenas pelo número de pessoas que aparecem ao seu lado em uma fotografia. Mede-se, sobretudo, pela capacidade de manter uma base coesa, construir convergências e oferecer razões concretas para que os aliados continuem acreditando no projeto.
Ao mesmo tempo, a oposição terá de compreender que reunir adversários de uma administração não significa, automaticamente, construir uma alternativa capaz de vencer. Uma aliança eleitoral precisa de mais do que interesses compartilhados: precisa de objetivos claros, capacidade de diálogo e uma proposta que faça sentido para a população.
Até 2028, muita coisa poderá mudar. Dirigentes que hoje caminham juntos poderão descobrir divergências; antigos adversários poderão encontrar interesses comuns; e lideranças que parecem indispensáveis poderão ser surpreendidas pela dinâmica da política.
Isso não significa que toda mudança seja traição. Significa apenas que a política não é estática e que a experiência recomenda acompanhar os movimentos sem ingenuidade e sem precipitação.
A sabedoria está no provérbio; a inteligência, em saber interpretá-lo
Talvez seja esse o aspecto mais importante da frase lembrada pelo senador Otto Alencar. Os provérbios populares não foram criados para funcionar como sentenças judiciais, com aplicação automática a cada situação. São instrumentos de interpretação da vida, construídos a partir da observação humana e transmitidos de geração em geração.
Seu valor está em nos fazer pensar.
Quando o provérbio sugere desconfiar de dois personagens que conversam, sua mensagem não precisa ser a condenação do diálogo. Pode ser, antes, um convite a reconhecer que os interesses políticos nem sempre são transparentes e que a confiança deve ser acompanhada pela capacidade de avaliar comportamentos.
Afinal, conversar com um adversário pode ser um gesto de maturidade democrática. Negociar com quem pensa diferente pode ser necessário para governar. Reconciliar-se com antigos desafetos pode representar uma mudança legítima de posição.
O que não se deve fazer é confundir essas possibilidades com a obrigação de acreditar cegamente em todas as promessas.
O político sábio não vive procurando conspirações em cada esquina. Mas também não entrega o próprio destino à certeza de que todos os que sorriem ao seu lado compartilham dos mesmos objetivos.
É nessa linha tênue entre confiança e prudência que a experiência se transforma em sabedoria.
O recado para 2028
A política brasileira continuará produzindo alianças improváveis, reencontros surpreendentes e declarações de fidelidade que o tempo tratará de testar. Em Vitória da Conquista, na Bahia e no restante do país, os movimentos que hoje parecem secundários poderão ter consequências importantes na disputa municipal de 2028.
Por isso, o provérbio atribuído a Otto Alencar merece ser ouvido com a atenção de quem reconhece a experiência por trás da ironia.
Não porque toda conversa esconda uma conspiração. Não porque todo amigo seja um traidor em potencial. Mas porque a história política demonstra, repetidas vezes, que os interesses mudam, as alianças se reorganizam e a confiança precisa conviver com o discernimento.
A sabedoria popular não manda fechar os olhos para o diálogo. Manda abri-los para a realidade.
E, quando 2028 chegar, muitos políticos descobrirão que o sucesso de suas alianças dependerá menos dos abraços distribuídos nos palanques do que da consistência dos compromissos construídos ao longo do caminho.
Afinal, na política, a experiência ensina a desconfiar das aparências sem condenar antecipadamente as pessoas. Porque a verdadeira sabedoria não está em enxergar traição em toda parte, mas em saber distinguir a amizade sincera da conveniência passageira.
Otto Alencar
Eleições 2028
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Sheila Lemos
Política Baiana
Provérbios
Segundo Turno
Padre Carlos — Teólogo, filosófia e colunista político — Política e Resenha
A gênese do poder é a verdade.





