Política e Resenha

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Quando o pensamento incomoda: por que a extrema direita tem tanto medo do reitor da UESB?

Política e Resenha · Opinião

Por Padre Carlos

Há algo profundamente revelador na reação de determinados setores da extrema direita à manifestação do professor Robério, reitor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). A pergunta que precisa ser feita, sem medo e sem rodeios, é esta: por que incomoda tanto quando um reitor pensa, fala e convida a sociedade a refletir sobre os destinos do Brasil?

O que há de tão ameaçador em um educador discutir o orçamento público, questionar prioridades econômicas, defender investimentos em educação, ciência, saúde e políticas sociais? Por que uma opinião política, expressa por alguém que possui uma trajetória acadêmica e conhece os desafios da universidade pública, desperta tanta indignação em quem parece acreditar que determinados assuntos só podem ser discutidos quando favorecem suas próprias convicções?

Talvez a resposta esteja justamente aí: o que incomoda não é apenas aquilo que o reitor diz, mas a liberdade com que ele pensa. E uma sociedade na qual o pensamento livre passa a ser tratado como provocação, afronta ou inimigo político começa a percorrer um caminho perigoso.

A universidade não foi criada para agradar ao poder

É preciso recordar uma verdade elementar, embora alguns pareçam empenhados em esquecê-la: a universidade não existe para repetir o discurso dos poderosos, aplaudir governos, obedecer a partidos ou se curvar às pressões das redes sociais. Sua missão é formar consciências, produzir conhecimento, investigar a realidade e oferecer à sociedade instrumentos para compreender o mundo em que vive.

Uma universidade que não questiona é uma universidade que renuncia à sua razão de existir. Um professor que tem medo de formular perguntas deixa de cumprir plenamente sua missão intelectual. E um reitor que só pode falar quando suas palavras agradam a determinada corrente ideológica não é livre: é um refém da intimidação.

A universidade é, por excelência, um lugar de inquietação. Nela, certezas precisam ser examinadas, argumentos confrontados e verdades submetidas à investigação. É assim que avança o conhecimento. É assim que amadurece uma democracia. É assim que uma sociedade deixa de ser conduzida pelo grito e passa a ser orientada pela razão.

O professor Robério, ao trazer para o debate a discussão sobre o orçamento público e as prioridades nacionais, exerce o direito de participar de uma questão que interessa a todos os brasileiros. Pode ser contestado, questionado e até mesmo criticado com veemência. O que não pode é ser transformado em alvo de perseguição simplesmente porque sua posição desagrada a determinados grupos.

Discordar é um direito. Tentar silenciar quem discorda é uma ameaça à liberdade.

E aqui está a fronteira que separa uma democracia saudável de uma cultura política autoritária: a capacidade de conviver com ideias que não são as nossas.

Por que a extrema direita se incomoda tanto?

A pergunta merece ser enfrentada de frente.

Quando um reitor questiona as prioridades econômicas do país, ele obriga a sociedade a olhar para além das palavras de ordem. Quando um professor discute a destinação dos recursos públicos, ele convida o cidadão a perguntar quem paga a conta, quem recebe os benefícios e quais interesses são preservados nas decisões políticas.

Isso é democracia. Isso é pensamento crítico. Isso é cidadania.

O problema começa quando determinados militantes e grupos políticos deixam de responder aos argumentos e passam a atacar quem os apresenta. Em vez de discutir números, propostas e consequências, tentam desqualificar a pessoa. Em vez de confrontar ideias, procuram constranger o autor delas. Em vez de demonstrar por que alguém estaria errado, trabalham para que essa pessoa tenha medo de continuar falando.

É uma velha estratégia: quando não se consegue vencer o argumento, tenta-se intimidar quem argumenta.

Não se deve atribuir esse comportamento a todos os que se identificam com a direita, pois a pluralidade democrática também pertence a esse campo político. Mas é legítimo denunciar os setores da extrema direita que tratam a discordância como traição, transformam adversários em inimigos e procuram impor à vida pública uma espécie de obediência ideológica.

A liberdade de expressão não pode ser um privilégio reservado a quem pensa como nós. Ou ela vale para todos, ou deixa de ser liberdade para se tornar instrumento de dominação.

Se o reitor defendesse posições alinhadas à extrema direita, seus adversários teriam o direito de criticá-lo. Por que, então, ele não teria o mesmo direito de manifestar suas convicções? Quem concedeu a determinados grupos o poder de decidir quais opiniões um educador pode expressar?

Ninguém.

O reitor não está acima das críticas. Mas também não está abaixo dos direitos que protegem qualquer cidadão.

Santa Catarina: uma tragédia que precisa nos fazer refletir

A história brasileira já nos apresentou episódios dolorosos nos quais a exposição pública, as acusações e a pressão institucional produziram consequências humanas devastadoras.

Em Santa Catarina, o caso do professor Luiz Carlos Cancellier de Olivo, reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, permanece como uma lembrança dolorosa dos riscos envolvidos quando acusações graves, operações policiais e intensa exposição pública se combinam antes que todas as questões sejam devidamente esclarecidas.

Em 2017, Cancellier morreu por suicídio, depois de ter sido preso e afastado de suas funções no contexto da Operação Ouvidos Moucos. Sua morte provocou comoção e um amplo debate sobre os métodos de investigação, a exposição pública de suspeitos, a presunção de inocência e os limites do poder institucional.

Não seria responsável atribuir uma tragédia dessa dimensão a uma única causa, ignorando sua complexidade humana. Mas seria igualmente irresponsável esquecer as circunstâncias que a cercaram e deixar de perguntar como acusações, humilhações públicas e pressões podem atingir profundamente a dignidade de uma pessoa.

Para não esquecer

Nenhuma divergência política, nenhuma disputa institucional e nenhuma batalha ideológica valem a destruição da dignidade humana.

É por isso que o episódio deve ser lembrado com respeito, prudência e responsabilidade. Não para alimentar o ódio contra adversários, mas para impedir que a sociedade normalize a perseguição, a execração pública e a desumanização de quem se encontra no centro de uma controvérsia.

O caso de Cancellier não pode ser reduzido a uma arma retórica. Deve ser compreendido como um alerta sobre a responsabilidade das instituições, da imprensa, das autoridades e de todos aqueles que participam do debate público.

Quando uma pessoa passa a ser tratada como culpada antes de ter seus direitos plenamente respeitados, quando sua imagem é destruída no tribunal das redes sociais e quando a acusação se transforma em condenação moral antecipada, toda a sociedade corre perigo.

É justamente por isso que devemos proteger o reitor da UESB de qualquer tentativa de intimidação, sem lhe negar o direito de ser questionado e sem abrir mão da responsabilidade de apurar os fatos. Defender Robério não significa exigir imunidade às críticas. Significa afirmar que nenhuma crítica pode justificar perseguição, ameaça, calúnia ou violência.

A memória de uma tragédia exige de nós mais humanidade, não mais ódio.

Vitória da Conquista não pode se calar

Vitória da Conquista é uma cidade de tradição educacional, de vida intelectual intensa e de homens e mulheres que construíram sua história acreditando no valor da educação. A UESB é parte fundamental dessa trajetória. Seus professores, pesquisadores, estudantes e servidores representam uma força que ultrapassa os limites dos seus campi e alcança toda a região Sudoeste da Bahia.

Atacar a liberdade de pensamento dentro de uma universidade significa atingir muito mais do que uma pessoa. Significa ameaçar o ambiente no qual novas gerações aprendem a questionar, investigar e construir suas próprias convicções.

Por isso, a sociedade conquistense precisa compreender a dimensão desse debate. Não se trata de escolher entre esquerda e direita, entre Lula e seus adversários, entre simpatizantes e críticos do reitor. Trata-se de defender um princípio que deve estar acima das conveniências eleitorais: ninguém pode ser intimidado por exercer legitimamente sua liberdade de pensamento.

A democracia não exige unanimidade. Exige respeito às diferenças, compromisso com os fatos e disposição para resolver conflitos por meio do diálogo.

Se o professor Robério cometeu algum equívoco em suas análises, que seus críticos apresentem dados, argumentos e interpretações alternativas. Se discordam de suas posições políticas, que exponham suas razões. Se consideram inadequada alguma manifestação, que expliquem publicamente por quê.

O que não podemos aceitar é a substituição do debate pela intimidação, da crítica pela calúnia e da divergência pela tentativa de destruição moral de quem pensa diferente.

A universidade precisa de liberdade para pensar. O reitor precisa de segurança para exercer suas funções. E a sociedade precisa de coragem para não assistir em silêncio quando esses direitos são ameaçados.

O papel da imprensa livre

É neste momento que a imprensa livre assume uma responsabilidade histórica.

Um jornalismo comprometido com a democracia não existe para servir de instrumento de um partido, de um governo ou de um grupo ideológico. Existe para investigar, informar, questionar o poder e defender o direito da sociedade de conhecer os fatos.

Quando um educador se torna alvo de ataques por suas posições, cabe à imprensa examinar o que está acontecendo. Quem critica? Quais argumentos apresenta? Existem ameaças? Há informações falsas circulando? A controvérsia está sendo tratada com honestidade ou transformada em campanha de desqualificação pessoal?

Essas perguntas precisam ser feitas. E precisam ser respondidas com responsabilidade.

É essa a missão de uma imprensa que não se curva: não proteger pessoas contra críticas legítimas, mas impedir que a crítica seja usada como disfarce para a perseguição. Não substituir a investigação pela militância, mas oferecer à sociedade informações verificadas para que ela possa formar seu próprio juízo.

É nesse espírito que o Política e Resenha se coloca ao lado da liberdade acadêmica, do direito à divergência e da dignidade humana. Nossa solidariedade ao reitor Robério e à comunidade universitária não significa concordância automática com cada uma de suas opiniões. Significa compromisso com o direito de expressá-las sem medo.

Não aceitaremos que o silêncio seja imposto pelo constrangimento, que a mentira seja confundida com argumento ou que a intimidação se transforme em método de disputa política.

A imprensa livre tem o dever de denunciar abusos, investigar acusações e dar voz à sociedade. E tem, sobretudo, a obrigação de não abandonar esse compromisso quando a vítima da pressão pensa diferente de seus leitores, de seus jornalistas ou de seus proprietários.

Uma imprensa que só defende a liberdade de quem concorda com ela não é verdadeiramente livre. É apenas mais um instrumento de facção.

O medo não pode governar a universidade

Há algo de profundamente triste quando um professor precisa calcular o preço pessoal de cada palavra antes de participar do debate público. Há algo de assustador quando um reitor pode se sentir constrangido a silenciar não porque lhe faltem argumentos, mas porque teme a reação daqueles que não suportam ouvir uma opinião divergente.

Não podemos permitir que esse ambiente se instale em Vitória da Conquista.

Não podemos aceitar que a universidade seja empurrada para o silêncio. Não podemos permitir que pesquisadores, professores e estudantes aprendam a esconder suas convicções por medo de se tornarem alvos de campanhas de ódio. Não podemos ensinar aos nossos jovens que a melhor maneira de sobreviver intelectualmente é não pensar em voz alta.

Uma universidade sem liberdade é um prédio cheio de salas, mas vazio de sua missão mais nobre. Um país no qual os intelectuais precisam pedir licença aos grupos mais agressivos para formular perguntas é um país que começa a abdicar de seu futuro.

O pensamento livre incomoda porque questiona privilégios, desafia certezas e expõe contradições. Mas é precisamente por isso que ele precisa ser protegido.

A democracia não se fortalece quando todos repetem a mesma opinião. Fortalece-se quando opiniões diferentes podem se confrontar sem que seus autores sejam ameaçados, humilhados ou perseguidos.

É esse o compromisso que precisamos assumir como sociedade.

Nosso lado é o da liberdade

Ao reitor Robério, à UESB e a todos os que acreditam no valor do pensamento livre, deixamos uma mensagem de solidariedade e responsabilidade pública: nenhuma pessoa deve enfrentar sozinha uma campanha de intimidação. Nenhuma instituição de ensino deve ser constrangida a abandonar sua missão por pressão política. Nenhum cidadão deve ser tratado como inimigo simplesmente porque expressa uma convicção que desagrada a alguém.

A solidariedade que defendemos não é um cheque em branco. É um compromisso com a dignidade, o diálogo, a verdade e o respeito às garantias democráticas. Se houver críticas, que sejam feitas. Se houver divergências, que sejam debatidas. Se houver acusações, que sejam apuradas. Mas que ninguém confunda o direito de discordar com uma licença para perseguir.

Que a UESB continue sendo um espaço de ciência, consciência e liberdade. Que seus professores possam ensinar sem medo, que seus estudantes possam perguntar sem constrangimento e que seus dirigentes possam participar do debate público sem se tornarem reféns de campanhas de hostilidade.

E que Vitória da Conquista saiba reconhecer o momento em que precisa levantar a voz em defesa de um princípio maior do que qualquer partido.

Porque a história nos ensina que o silêncio da sociedade pode ampliar a solidão de quem sofre pressão. E nos ensina, também, que a liberdade não desaparece de uma só vez: ela se enfraquece cada vez que alguém é intimidado e os demais fingem que nada aconteceu.

Não permitiremos que o medo se transforme em regra. Não permitiremos que a universidade seja reduzida a uma instituição que fala apenas quando os poderosos autorizam. Não permitiremos que a divergência seja tratada como crime moral.

Enquanto existir uma imprensa livre, haverá espaço para denunciar a intimidação, questionar os abusos e defender o direito de pensar. Enquanto houver cidadãos dispostos a se solidarizar com quem sofre ataques, haverá resistência contra a tentativa de transformar o medo em instrumento de poder.

E, enquanto a liberdade continuar sendo um valor inegociável para nossa sociedade, o reitor Robério, a UESB e todos aqueles que defendem o pensamento livre não estarão sozinhos.

A universidade não pertence à extrema direita, à esquerda ou a qualquer governo. Pertence à sociedade e ao futuro.

Quem tem medo do pensamento livre deveria explicar por que deseja tanto silenciá-lo.

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Padre Carlos Josaphat

Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha

A gênese do poder é a verdade.