Opinião · Vitória da Conquista
Em 24 de novembro, a Câmara Municipal vai olhar de frente para aquilo que a cidade produz todos os dias e prefere não ver: toneladas e toneladas de resíduos.
Toda cidade revela quem é pelo modo como trata aquilo que descarta. Há quem meça o progresso pelas avenidas largas, pelas praças reformadas, pelos prédios que crescem. Eu prefiro medir também pelo que fica depois: o que sobra, para onde vai, quem recolhe, quanto custa e quem presta contas. É no lixo que a gestão pública se despe das fotografias e mostra a sua verdadeira competência.
Por isso, a audiência pública convocada pelo vereador Ivan Cordeiro para discutir a destinação final dos resíduos e a política de resíduos sólidos merece mais do que uma nota de rodapé na agenda política. Merece atenção, presença e, sobretudo, seriedade.
Os números que ninguém pode ignorar
O Aterro Sanitário Municipal opera desde 2009 e recebe, em média, 7.200 toneladas de lixo por mês. Dados da própria Prefeitura mostram um crescimento contínuo de cerca de 5% ao ano: eram 6.200 toneladas mensais em janeiro de 2022 e passaram a 7.200 em janeiro de 2025. Em palavras simples, Conquista produz hoje algo em torno de 240 toneladas de resíduos domiciliares por dia, e esse número não para de subir.
| Lixo recolhido por mês no aterro (toneladas) | ||
| Jan/2022 | 6.200 | |
| Jan/2025 | 7.200 | |
Fonte: dados da Prefeitura de Vitória da Conquista, conforme divulgado para a audiência pública.
Uma tonelada a mais por mês parece pouco quando se fala em milhares. Mas um aumento de 5% ao ano é uma curva que se acumula, e curva que se acumula cobra a conta. Mais lixo significa mais caminhões, mais combustível, mais mão de obra, mais área de aterro ocupada e mais dinheiro público comprometido. Se a tendência apontada pela Prefeitura se mantiver, o volume de hoje já é maior do que o de 2025, e o de amanhã será maior ainda. A pergunta é simples e inadiável: a gestão está acompanhando essa curva ou apenas correndo atrás dela?
Fiscalizar também é governar
| “Nosso mandato integra a base de apoio, o que nos dá a responsabilidade não só de governar, mas de fiscalizar com seriedade e buscar sempre o aprimoramento da gestão. Precisamos fazer um balanço transparente sobre os investimentos realizados, a eficiência dos contratos e a aplicação dos recursos públicos na destinação dos resíduos.” Ivan Cordeiro, vereador |
A frase do vereador contém uma lição que a nossa política costuma esquecer. Pertencer à base de apoio de um governo não é sinônimo de aplaudir em silêncio. Quem apoia de verdade é quem quer o acerto, e quem quer o acerto precisa olhar contratos, números e resultados com o rigor de quem não tem nada a esconder e tudo a melhorar. A fiscalização feita por aliado não enfraquece a gestão: fortalece-a, porque corrige o rumo antes que o erro vire crise.
Há ainda um mérito que precisa ser reconhecido. Ao convidar a Secretaria Municipal de Ordem Pública, o Ministério Público do Estado, o Ministério Público Federal, a empresa Torre, responsável pela limpeza urbana, e especialistas em meio ambiente e gestão ambiental, a audiência reúne na mesma mesa quem executa, quem fiscaliza e quem entende do assunto. Transparência não se declara em discurso. Pratica-se com todos os atores sentados diante da sociedade, respondendo perguntas.
O lixo que se esconde no mato
Existe um segundo problema, menos visível que o caminhão de coleta e mais revelador do nosso comportamento coletivo: o descarte irregular. Apenas nos primeiros cem dias de 2025, o município recolheu mais de 5.500 toneladas de resíduos de construção civil jogados em lugares indevidos, o que dá algo próximo de 55 toneladas por dia. São entulhos largados em terrenos baldios, em calçadas, em áreas públicas e até em regiões de preservação.
Cada tonelada dessas é, ao mesmo tempo, um custo para o contribuinte e um retrato da falta de consciência de quem descarta. Há aqui uma responsabilidade partilhada. O poder público precisa fiscalizar de forma permanente, oferecer alternativas acessíveis de descarte e punir o reincidente. E nós, cidadãos, precisamos abandonar a velha ideia de que a rua é extensão do quintal e de que o problema acaba quando o entulho sai da nossa porta.
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O que a audiência precisa responder 1. Quanto custa, por tonelada, o serviço de coleta e destinação, e como esse valor evoluiu nos últimos anos? 2. O contrato com a empresa responsável pela limpeza urbana tem metas, indicadores e fiscalização efetiva? 3. Por quanto tempo o aterro, em operação desde 2009, ainda comporta o crescimento de 5% ao ano? 4. Que percentual do lixo hoje passa pela coleta seletiva, e qual é a meta para os próximos anos? 5. Quanto do orçamento chega, de fato, aos catadores e às cooperativas? |
Os catadores e a casa comum
A audiência também deve tratar das diretrizes do Plano Plurianual 2026-2029: ampliação da coleta seletiva, valorização dos catadores e das cooperativas, novos pontos de descarte ecológico, compostagem e logística reversa. Escrever isso no papel é fácil. Difícil é transformar o texto em rotina, em recurso, em equipamento e em renda digna.
Os catadores merecem destaque porque realizam, quase sempre na invisibilidade, um serviço ambiental que beneficia a cidade inteira. Reduzem o volume enviado ao aterro, devolvem material à cadeia produtiva e sustentam famílias com o próprio trabalho. Valorizá-los não é caridade: é política pública inteligente, que une justiça social e responsabilidade ecológica. Como lembra a tradição cristã do cuidado com a criação, a Terra é a nossa casa comum, e ninguém é dono de uma casa que suja sem pensar em quem vai limpar.
Uma convocação à cidade
Audiências públicas só cumprem o seu papel quando o público comparece. De nada adiantará a mesa qualificada, se as cadeiras reservadas à sociedade ficarem vazias. Associações de bairro, entidades, estudantes, professores, catadores, comerciantes e cidadãos comuns precisam ocupar aquele espaço, fazer perguntas incômodas e cobrar respostas objetivas.
No dia 24 de novembro, Conquista terá a chance de transformar números frios em decisões concretas e de provar que a transparência não é apenas uma palavra bonita em entrevista. Que a audiência não termine em ata arquivada, mas em compromissos com prazo, responsável e meta. Porque uma cidade que sabe o que faz com o seu lixo é uma cidade que sabe o que faz com o seu futuro.
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Vitória da Conquista Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha |





