Política e Resenha

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O PT precisa reconhecer a nova correlação de forças e abrir espaço para Fabrício

Opinião

Por Padre Carlos

Quem conhece os bastidores da política sabe que o poder não se mede apenas pelos cargos ocupados, pelas estruturas administrativas controladas ou pela influência acumulada ao longo dos anos. O verdadeiro poder político se revela na capacidade de mobilizar votos, construir alianças, liderar projetos e demonstrar que continua representando uma parcela significativa da sociedade. É justamente por esse critério que precisamos analisar o atual cenário político de Vitória da Conquista e do Sudoeste baiano. O grupo liderado pelo deputado federal Waldenor Pereira já não parece possuir a mesma musculatura política de quatro anos atrás. A dificuldade de renovar seu mandato nas urnas representa um sinal que não pode ser ignorado por quem pretende compreender os novos movimentos da política regional.

É evidente que uma derrota eleitoral não apaga uma trajetória, não elimina serviços prestados e tampouco autoriza a desconsideração de lideranças históricas. Waldenor Pereira tem sua história e seu espaço político. Entretanto, a democracia impõe uma regra elementar: a representatividade precisa ser permanentemente renovada pelo voto. Nenhum grupo pode reivindicar indefinidamente uma parcela privilegiada do poder público com base apenas na força que possuía no passado. Se a correlação de forças mudou, a distribuição dos espaços políticos também precisa acompanhar essa transformação.

Representação e proporcionalidade

Durante anos, determinado agrupamento político construiu uma posição de influência na estrutura estadual, ocupando espaços estratégicos e exercendo protagonismo na articulação entre Vitória da Conquista, o Sudoeste e outras regiões da Bahia. Essa presença institucional, contudo, precisa guardar correspondência com a força eleitoral e com a capacidade de representação de cada segmento. Quando a sustentação política diminui, torna-se legítimo discutir se a distribuição dos cargos, das funções estratégicas e da influência administrativa continua refletindo a realidade das urnas.

Não se trata de transformar a máquina pública em instrumento de repartição partidária, muito menos de defender que cargos sejam distribuídos como prêmio de consolação eleitoral. O que está em discussão é a legitimidade política das alianças que sustentam um governo e a necessidade de reconhecer os diferentes pesos dos partidos e das lideranças que compõem sua base. A administração pública deve atender ao interesse coletivo, mas a construção de uma coalizão governista exige equilíbrio, reconhecimento mútuo e proporcionalidade na participação política.

É nesse contexto que a perda de mandato de Waldenor Pereira adquire significado que ultrapassa a trajetória individual do parlamentar. Ela abre uma discussão sobre o futuro da representação política de seu grupo e sobre a distribuição do protagonismo regional. Se a força que sustentava determinada hegemonia diminuiu, não há razão para que os demais aliados continuem ocupando uma posição secundária, como se a fotografia política de quatro anos atrás permanecesse intacta.

A política não é uma fotografia. É um movimento permanente de forças, interesses, alianças e expectativas. Quem não percebe as mudanças corre o risco de confundir a estrutura que controla com a força que efetivamente possui.

A disputa pela reorganização da esquerda

É nessa vacância de protagonismo que ganha importância a movimentação do ex-prefeito Guilherme Menezes, ao apresentar o nome de uma vereadora como possível candidata a Prefeita de Vitória da Conquista. A iniciativa demonstra que existe uma disputa em curso pela reorganização das forças políticas de esquerda em Vitória da Conquista. Guilherme, com sua história administrativa e seu capital político, procura participar da construção de uma alternativa para o futuro. O gesto merece ser compreendido como parte de um processo legítimo de articulação e não como uma decisão definitiva sobre quem deverá representar o campo progressista.

O problema é que a política não se faz apenas com a iniciativa de uma liderança, por mais respeitada que ela seja. Existem outros atores, outras trajetórias e outras forças que também reivindicam o direito de participar dessa reorganização. O protagonismo não pode ser definido exclusivamente por quem se movimenta primeiro, mas pela capacidade de reunir apoios, construir consensos e apresentar um projeto que corresponda às necessidades da cidade e da região.

E é justamente aqui que considero necessário colocar uma questão que o PT precisa enfrentar com maturidade política: não seria o momento de abrir espaço para o deputado estadual Fabrício Falcão?

O PCdoB e o princípio da reciprocidade

Fabrício representa uma trajetória política vinculada ao PCdoB, partido que historicamente caminhou ao lado do PT em importantes disputas eleitorais e na construção de projetos comuns. Os comunistas estiveram presentes em momentos decisivos, defenderam alianças, sustentaram candidaturas e contribuíram para a consolidação de um campo político que, apesar das divergências internas, encontrou na unidade um instrumento de resistência e transformação social.

Essa contribuição não pode ser lembrada apenas nos momentos em que interessa à estratégia eleitoral do partido majoritário. A unidade política não pode funcionar como uma via de mão única, na qual um aliado é convocado para apoiar, mobilizar e defender determinado projeto, mas permanece permanentemente impedido de assumir o protagonismo quando chega a sua vez.

Se o PCdoB sempre esteve disposto a sustentar um projeto compartilhado com o PT, é razoável defender que o partido receba, agora, o reconhecimento político correspondente à sua trajetória e à sua capacidade de representação. A reciprocidade não é um favor. É um princípio de convivência entre forças que pretendem construir um projeto coletivo.

Não estou afirmando que Fabrício deva ser escolhido automaticamente, nem que sua eventual candidatura dispense o debate interno. Uma candidatura precisa demonstrar viabilidade eleitoral, capacidade de articulação e condições de representar um conjunto amplo de forças políticas. Mas considero que seu nome deve ser colocado na mesa em condições reais de disputar o protagonismo, sem que a tradição de hegemonia petista funcione como obstáculo antecipado.

A Federação Brasil da Esperança

A criação da Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, estabeleceu um novo ambiente de atuação conjunta para essas forças. A federação não elimina as identidades partidárias, mas exige que seus integrantes aprendam a compartilhar decisões, responsabilidades e oportunidades. Se a unidade vale para enfrentar adversários e disputar eleições, também precisa valer na hora de definir quem ocupará os espaços de liderança.

É verdade que o PT possui dimensão eleitoral, história e capilaridade que lhe conferem peso próprio. Reconhecer isso não significa aceitar que toda candidatura majoritária deva nascer necessariamente dentro de suas fileiras. Uma federação que funciona apenas como instrumento de apoio às decisões de um único partido corre o risco de desperdiçar justamente aquilo que deveria fortalecê-la: a diversidade de suas lideranças e a capacidade de construir consensos.

Vitória da Conquista precisa discutir seu futuro político para além das disputas pessoais e das estruturas partidárias consolidadas. A cidade tem importância estratégica no Sudoeste baiano e exerce influência sobre municípios de diferentes regiões. Por isso, a definição de suas lideranças não pode ser tratada como assunto restrito a um pequeno círculo de dirigentes. É preciso avaliar quem tem condições de representar a cidade, dialogar com a população, articular investimentos e construir uma agenda regional consistente.

A eventual candidatura de Fabrício Falcão poderia representar uma oportunidade para renovar os métodos de articulação da esquerda regional, ampliar a participação dos aliados e demonstrar que a federação não é apenas uma formalidade eleitoral. Seria também uma oportunidade para o PT reafirmar que a construção coletiva está acima da preservação automática de posições de comando.

Naturalmente, o debate não deve se transformar em uma disputa de ressentimentos nem em uma tentativa de apagar a contribuição de lideranças históricas. O objetivo precisa ser outro: reconhecer que a política mudou, que a correlação de forças se alterou e que nenhuma hegemonia pode sobreviver indefinidamente sem diálogo, renovação e capacidade de incorporar novos protagonistas.

A questão central não é retirar de alguém o direito de apresentar uma candidatura. Guilherme Menezes tem legitimidade para defender os nomes que considera adequados, assim como outras lideranças têm o direito de apresentar suas alternativas. A questão é saber se haverá disposição para que todos os integrantes da federação participem efetivamente da decisão, sem hierarquias estabelecidas de antemão.

Liderar não é monopolizar

O PT precisa compreender que liderar não significa monopolizar. Liderar significa reconhecer a força dos aliados, compartilhar responsabilidades e construir uma unidade que não dependa da submissão dos demais partidos. A hegemonia que não sabe se renovar termina produzindo isolamento; a liderança que sabe compartilhar o poder constrói alianças mais duradouras.

Se a musculatura política de determinados grupos diminuiu, como indicam os resultados eleitorais recentes, chegou a hora de rever os critérios de distribuição do protagonismo regional. Se o PCdoB foi parceiro leal em momentos decisivos, chegou a hora de discutir a reciprocidade. E se a Federação Brasil da Esperança pretende ser mais do que uma aliança eleitoral, precisa demonstrar que seus integrantes têm voz real na construção do futuro.

Defender o nome de Fabrício Falcão não é uma declaração de guerra ao PT, nem uma desconsideração à história de Waldenor Pereira ou de Guilherme Menezes. É defender a abertura de um debate necessário sobre renovação, equilíbrio e democracia interna. É reconhecer que a política não pode permanecer prisioneira de uma correlação de forças que já não existe nos mesmos termos.

A pergunta que precisa ser feita

No fim das contas, a pergunta que precisa ser feita é simples: se o PCdoB sempre esteve disposto a caminhar junto, por que não discutir seriamente a possibilidade de o PT caminhar, agora, um pouco mais atrás para que seu aliado também possa liderar?

A resposta a essa pergunta dirá muito sobre a maturidade política da esquerda em Vitória da Conquista. Porque a verdadeira unidade não se constrói quando todos seguem uma única liderança, mas quando diferentes forças reconhecem que o projeto coletivo é maior do que os interesses de cada partido.

E talvez tenha chegado exatamente esse momento: o momento em que o PT precisa compreender que a força de uma aliança não está na capacidade de um partido conservar para si todos os espaços de protagonismo, mas na disposição de reconhecer que seus aliados também têm história, votos, projetos e o direito legítimo de liderar.

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Padre Carlos

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