Política e Resenha

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A Última Trincheira da Esperança: O Dia em que o Brasil Fez o Mundo Respirar

Política e Resenha · Análise

Houve um dia em que os olhos do mundo não procuravam o Brasil pelo carnaval, pelas praias ou pelo futebol. Houve um dia em que a humanidade, sufocada por uma onda global de intolerância, olhou para nós em busca de oxigênio. Olhou para nós implorando por um milagre. Quem reconstrói a história daquela eleição histórica sabe que o que estava em jogo nos palanques e nas urnas ultrapassava as nossas fronteiras: era o coração pulsante da geopolítica mundial.

Um continente sitiado

O cenário ao nosso redor era de pura terra arrasada. A América Latina, tantas vezes castigada por ditaduras e profundas feridas sociais, via-se mais uma vez sitiada. Forças de matriz fascista, alimentadas pelo ódio, pelo preconceito e pelo desprezo absoluto às instituições, avançavam como uma mancha de óleo sobre o continente. Do Cone Sul às cordilheiras, o discurso do medo sequestrava corações, criminalizava a justiça social e tentava, a todo custo, calar o amanhã. O autoritarismo não batia mais discretamente à porta; ele a arrombava com a arrogância dos que se julgam donos da verdade única.

Quando Andrés Arauz, ex-candidato à vice-presidência do Equador, caminhando pela Avenida Paulista no primeiro turno. Sob o peso de ver seu próprio país sufocado e estrangulado por esse conservadorismo radical e violento, proferiu palavras que ecoaram como uma prece desesperada de todo um continente em agonia:

“Por favor, vocês têm que ganhar aqui. O Brasil é a trincheira. É a última trincheira.”
Andrés Arauz, ex-candidato à vice-presidência do Equador

A Europa também sangrava

Não era um clamor isolado. Do outro lado do Atlântico, a velha Europa também sangrava sob um ataque coordenado e feroz. O Velho Continente, que outrora jurou “nunca mais” ao horror do fascismo, assistia atônito ao ressurgimento de velhos fantasmas fantasiados de modernidade. Da Itália à Hungria, passando pelo avanço alarmante do extremismo na França, na Alemanha e na península ibérica, as democracias europeias viam suas estruturas mais sólidas serem corroídas por dentro. O nacionalismo xenófobo, a perseguição a minorias e o ataque sistemático à imprensa livre tornaram-se armas diárias. A Europa, acuada e sitiada pelo radicalismo de extrema-direita, olhava para o hemisfério sul em busca de um sinal de que a resistência ainda era possível.

O baque do primeiro turno

E como doeu aquela primeira etapa em solo brasileiro. Quando os resultados do primeiro turno se desenharam na tela, a frustração não foi apenas uma estatística eleitoral; foi uma dor física, um nó na garganta que atravessou oceanos. Da França à Grécia, da Itália à Inglaterra, líderes, intelectuais e cidadãos comuns sentiram o baque. Naquele instante de silêncio aterrador, parecia que a última linha de defesa da dignidade humana no planeta estava prestes a desabar por completo.

Mas o povo brasileiro traz na pele a cicatriz milenar da sobrevivência.

Contra o abuso avassalador do poder econômico, contra um mar de mentiras industrializadas e desinformação, contra o uso descarado, criminoso e vil da máquina pública — contra todas as “sacanagens na meta” —, a maioria escolheu a vida. A vitória que se consolidou não foi apenas partidária; foi um tratado humanitário. Foi o grito sufocado de milhões que decidiram que o ódio não ditaria o nosso destino e que a barbárie não seria o nosso legado.

Uma virada geopolítica

O que aconteceu ali foi uma virada geopolítica sem precedentes. O Brasil provou ao planeta que a engrenagem do autoritarismo não é invencível, por mais rica e armada que ela pareça. Quando a última trincheira resistiu na América Latina, ela não salvou apenas o nosso território; ela devolveu as cores, a força e a fé aos que lutam na escuridão ao redor do mundo. Mostrou à Europa sitiada e ao nosso continente ferido que, mesmo quando tudo parece perdido, a união popular em defesa da liberdade ainda é a força mais revolucionária da Terra. Nós sobrevivemos. E, com isso, permitimos que o mundo voltasse a respirar e a sonhar.

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Padre Carlos — colunista político — Política e Resenha