Política e Resenha · Filosofia e Política

A banalização do mal e o retorno do fascismo
Como os homens e mulheres de bem, em conjunturas históricas adversas, são levados a apoiarem ideias equivocadas e extremadas. O mal é, de certa forma, tão corriqueiro que acaba por ser incorporado como algo extremamente trivial.
Em meus artigos, sempre busquei trazer os elementos da filosofia para uma abordagem mais próxima da realidade. Como dizia Sartre, o engajamento do filósofo é que traz para perto do seu público as questões filosóficas. Assim, nenhum intelectual poderia esclarecer melhor e ajudar a compreender o fenômeno da ultradireita e seus eleitores quanto Hannah Arendt (1906-1975). Mais que pensadora dedicada ao mundo das ideias, a filósofa alemã de origem judaica testemunhou o mal concreto do nazismo e fez do totalitarismo o objeto de sua investigação em diversas obras. A resolução de Arendt sobre a “banalidade do mal” pode abrir alguma perspectiva no sentido de entendermos como o fantasma do fascismo retorna à política brasileira depois de quase um século desaparecido como força política.
Uma crise que vai além da economia
O fenômeno não se deu apenas pela crise política e econômica, mas devido às crises das instituições públicas, que vão da justiça de um modo geral até o Supremo e a classe política como um todo. O cenário crítico dos últimos anos agiu favoravelmente para o surgimento de elementos do inconsciente que pensávamos estar superados neste novo século. Esta conjuntura não é restrita ao Brasil, mas presente em toda a cultura ocidental, em que são rompidos os pactos sociais e enfraquecido o conceito de nacionalidade. Sem repactuar as classes, o tecido que norteia o projeto de nação é desfeito, só restando, assim, a identidade tribal, o que acontece no Sul do país. Diante disto, podemos afirmar que a desintegração dos valores individuais e republicanos e o fortalecimento de lideranças de ultradireita e de movimentos nacionalistas e separatistas são algumas características do surgimento deste fenômeno.
Uma velha conhecida
A extrema direita é uma velha conhecida. Como podemos perceber, este é o discurso deste agrupamento, que alcançou quase sessenta milhões de votos dos brasileiros, com uma plataforma política contra mulheres, negros e homossexuais, chegando a discursos de conotação marcadamente fascista, como o apoio a torturadores militares e a incitação pública da violência e do ódio. Por essa razão, incentiva a projeção de todo mal, de tudo que é mesquinho e não heroico, sobre Lula e o PT e, ultimamente, sobre o Congresso e o STF, que ele representa como a incorporação de tudo o que é instável e corrupto. Entender o que ele representa é fácil; o difícil mesmo é compreender os que compactuam com suas ideias. Como o discurso autoritário se tornou uma opção viável para a metade dos eleitores em eleições democráticas?
Podemos constatar que as reações xenófobas atingiram um grau de violência nunca visto aqui no Brasil após a proclamação do resultado das eleições. Não sabemos como enfrentar o vento de ódio e irracionalismo que se levantou.
Do totalitarismo à praça pública
O elo entre a sociedade totalitária descrita por Arendt e os nossos tempos não está na presença de campos de concentração ou na perseguição oficial a judeus, mas na degradação da empatia social e na naturalização da violência. A banalização do mal ganha uma nova face e se torna perceptível em praça pública quando discursos de ódio são aplaudidos inofensivamente pelo cidadão comum.
O que Arendt realmente demonstrou
Desta forma, gostaríamos de acrescentar que Arendt não pretendeu absolver o cidadão comum alemão, nem os nazistas, das responsabilidades cometidas em nome do fascismo. Tampouco deu a ele o aspecto monstruoso que tentaram colocar em todos que ajudaram os nazistas a cometerem todo tipo de atrocidades. Demonstrou, contudo, como os homens e mulheres de bem, em conjunturas históricas adversas, são levados a apoiarem ideias equivocadas e extremadas. O mal é, de certa forma, tão corriqueiro que acaba por ser incorporado como algo extremamente trivial.
Tags
Hannah Arendt
Banalidade do Mal
Ultradireita
Fascismo
Totalitarismo
Política Brasileira
Filosofia Política
Padre Carlos
Teólogo, Filósofo e colunista político
Política e Resenha




