Política e Resenha

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LULA, A DIALÉTICA DO INDIVÍDUO SOCIAL, A FORÇA DA MULTIDÃO LIVRE E O DESVIO DO ABISMO

POLÍTICA E RESENHA · ARTIGO

Porque a multidão livre conduz-se mais pela esperança que pelo medo, ao passo que uma multidão subjugada conduz-se mais pelo medo que pela esperança: aquela procura cultivar a vida, esta procura somente evitar a morte.
— Baruch Spinoza

A epígrafe deste artigo, que fui buscar naquele que considero o maior filósofo do século XVII, Baruch Spinoza (1632-1677), manifesta de forma inteira e elevada o processo eleitoral de 2026 no Brasil, com seu desenlace nesse domingo, 25 de outubro, dia Nacional da Juventude e dia da Democracia. A força do tempo oportuno (kairos), do agir qualitativo, rompeu a couraça do tempo cotidiano (chronos), da repetição sisífica e da opressão. O tempo do medo cedeu ao tempo da esperança. A tristeza e o ódio cederam lugar à alegria e à beleza das manifestações agápicas. Pode haver algo mais spinozista do que isso? Tecida e movida pelos bons afetos da alegria e do bom ânimo (entusiasmo) da juventude, a multidão ocupou as ruas do Brasil e atualizou a força política e subversiva do pensamento de Spinoza. Em Manaus, em seus becos, ruas e praças, espaço-tempo de desfazimento de trapaças, pareceu que faltou rua para abrigar a verdade que se fez multidão.

Não tenho filiação partidária, não sou petista nem lulista. Caminho com a esquerda classista, aquela imune ao escrúpulo de se definir como esquerda. Minha Terra-Mãe é a Filosofia, da cepa do Materialismo Histórico e Dialético, categorizada por Sartre como a “Filosofia insuperável de nosso tempo”. Por minha heterodoxia teológica, penso acreditar mais em Deus do que propriamente Ele em mim. Não naquele Deus que, juntamente com Pátria e Família, compõem um vazio e tanático tripé ideológico vociferado em púlpitos e palanques de venal matriz religiosa e política e a legitimar baixezas inconfessas. Menos ainda, por força de minhas frequentes visitas aos santos que frequentam o altar de minha profana devoção filosófica e teológica, posso crer naquela entidade a que o ateísmo humanista e marxista de Saramago denomina de “fator Deus”. Falar de Deus no cristianismo sem o crivo evangélico do Nazareno, ou deformando sua Boa Nova, é blasfemo e merecedor de condenação, inclusive a de Nietzsche, que proclamava que o único cristão que conheceu morreu na cruz.

Biografias e biografias

Nada do que disse no parágrafo antecedente me impede de reconhecer, e sem incidir em culto ou agravo ad hominem, que há biografias e biografias. Daqui a 50 anos, em 2076, que biografia caberá ao inominável que governou esse país entre 2019 e 2022 e, desde a prisão em que se encontra, ungiu neste 2026 o seu rebento como candidato às eleições presidenciais desse outubro? A figuras desse nível está reservado o lixo da história, que também inclui os que partem sem deixar memória. E quanto a Lula, como será visto no Brasil e no mundo daqui a 50 anos? Segundo Nietzsche, ver semelhança em tudo é sinal de miopia. De perto e ao longe nenhum animal político é igual. Lula é o único brasileiro a se eleger presidente quatro vezes pelo voto direto. Se há um animal político (no sentido aristotélico) capaz de sintetizar a força, a beleza e as contradições do povo brasileiro, esse animal chama-se Lula, Lula da Silva. Lula é o Brasil da Silva, o Brasil do Povo, aquele Brasil desconhecido e desdenhado pela boçalidade, pelo preconceito e pela abjeta arrogância da classe dominante do Brasil Faria Lima.

O homo socialis e a Universidade da Miséria

No período contemporâneo quantas e quantos, por via eleitoral e sobreviventes da miséria produzida pelo capital assassino, tal é a história de Lula, chegaram à presidência de uma nação apenas com escolaridade fundamental? Lula sucedeu a Fernando Henrique Cardoso, FHC, o típico homo academicus, cuja sigla nominal o iconoclasta Millôr dizia ser superlativo de PhD. Contraditoriamente, o homo academicus – precocemente aposentado como docente da USP e de festejado e inegável reconhecimento intelectual – não criou uma única Universidade Pública no Brasil e, pior, nos seus oito anos como Presidente maltratou como pôde o nosso já maltratado ensino superior público. Diferente de FHC, o homo academicus por excelência, foi Lula, o típico homo socialis e homo populi, quem mais construiu universidades e democratizou o ensino superior no Brasil.

Quem viveu aqueles tempos e não nega a história, sabe disso. E Lula? Feito preso político em 2018 pela mesma trama golpista arquitetada pelo andar de cima, que arrancou a presidente Dilma do poder em 2016, e nunca soube o que é o sofrimento de um exílio em Paris, foi esse indivíduo, cujo único diploma é o de torneiro mecânico, quem olhou para a educação a partir do lugar social dos excluídos do acesso à escolaridade. Em Lula, o olhar social sobre a educação antecedeu as belas e refinadas teses sobre a miséria educacional de um país que adentrou o século XX sem nenhuma universidade construída. Sem que conhecesse Gramsci, Lula intuiu por convicção e história de vida que ao povo trabalhador é um dever escapar aos grilhões da ignorância.

Antes de sua tardia e precária alfabetização formal, Lula já havia se doutorado na Universidade da Miséria do Nordeste (Unimino), em meio aos “esfarrapados do mundo”, a quem Paulo Freire dedica sua Pedagogia (classista) do oprimido. Cabe perguntar: como estaria o Brasil, neste 2026, diante dos ataques do Império, se o inominável tivesse sido reeleito em 2022? Em lugar da formal, porque ainda não materializada, República Federativa do Brasil, estaríamos de fato sob o destino político de não ser mais do que um Protetorado Ianque do Atlântico Sul. Ou uma vassala Teocracia Miliciana sob capa de República. O lado pior do Brasil, suas estruturas mais impulsivas e repulsivas, sua personalidade autoritária, sua psicologia escravagista, sua misoginia, suas expressões mais preconceituosas, racistas e pervertidas, tudo já teria, sem contenção, se desinibido de vez.

Tirar o Brasil do inferno

Lula, é preciso reconhecer, com suas contradições, inclusive as da impossível conciliação de classe de seu governo (do atual e dos anteriores), salvou o Brasil em 2022 e mais uma vez neste 2026. Se nele votei, não foi para chegar ao paraíso, mas para tirar o Brasil do inferno. No Brasil as provas materiais da existência do inferno dispensam especulações teológicas, mesmo as mais bem sistematizadas pela tradição tomista. Diz o velho Hegel que a verdade é o todo. E do ponto de vista da razão histórica, da madeira torta de que é feito o ser humano (Kant), a verdade do todo de uma vida jamais estará isenta de contradições. Lula se fez e se construiu desde as mais cruas e adversas contradições sociais, sobretudo a contradição da degradada desigualdade social de sua origem de classe. Lula vem de berço mal nascido. Nada, estrutura social nenhuma, conspirou a seu favor. Lula, como reverso da meritocracia, nasceu marcado para morrer. Mas sobreviveu a secas e cercas.

A dialética do indivíduo social

Lula é um paradigma do que significa o papel do indivíduo na história (Plekhanov), do indivíduo coletivo, social, que escapou às cadeias do individualismo burguês e fez o trânsito, desde o cotidiano da vida e da luta, da origem de classe inconsciente de si para a consciência da posição de classe no antagonismo desigual entre burguesia e classe trabalhadora. Dotado de uma forma superior de racionalidade, por Spinoza chamada de inteligência intuitiva, Lula soube conjugar com sabedoria três forças cognitivas raramente mobilizadas por um só indivíduo, numa unidade dialética a potencializar sua inegável habilidade política:

TRÊS FORÇAS COGNITIVAS, UMA UNIDADE DIALÉTICA
1) experiência de vida;
2) leitura de mundo;
3) intuição intelectual.

Lula se faz compreender pelo povo porque substitui conceitos abstratos e analíticos por imagens concretas e perceptivas. Sabe como ninguém, sem resvalar para a fulanização do real, extrair de cada situação particular a chave que abre à mente para acessar o universal que amarra a visão de conjunto. Lula é o típico platônico reverso. Se apanha o abstrato pelas garras do concreto é porque vê no concreto o que Marx identificava como síntese de uma rede de determinações. E todo esse caminho cognitivo não foi construído por outra mediação de escolaridade que não a da vida. A verdadeira Academia do aprendizado de Lula em nada é comensurável à proposta de formação apresentada por Platão em sua Politeia, exclusivamente destinada aos ditos cidadãos bem nascidos. Nascido à margem da cidadania, tornou-se cidadão do mundo desde o mundo dos debaixo.

A Academia do aprendizado de Lula foi a da Escola dos Retirantes da Miséria, bem descrita no romance Vidas Secas do irredento Velho Graça. Há algum tempo tomei conhecimento, pelas redes digitais, de uma comparação feita por Benjamin Teixeira de Aguiar Machado entre D. Pedro II e Lula, numa palestra de 2022, segundo a qual Lula teria “alma de rei” e seria uma “reencarnação de D. Pedro II”. É inegável e reconhecida a inteligência de D. Pedro II, seguramente o mais intelectual entre todos os governantes brasileiros, mas com uma diferença: enquanto D. Pedro II nasceu vitorioso, com o mundo a seu favor, Lula, por sua origem de classe, já nasceu perdedor e desamparado pelo mundo. Lula se fez indivíduo social contra a sociedade de classes. D. Pedro II teve a sociedade de classes a seu favor e pouco fez contra a infame desigualdade social da qual Lula é o nosso mais ilustre sobrevivente.

A figura de Lula está entre as mais representativas e emblemáticas para a compreensão da dialética do indivíduo social. Lula é o modelo materializado em pessoa das contradições que vertebram a sociedade brasileira. Nenhum governante na história de nossa proclamada e nunca consolidada República resume e encarna de forma tão viva o ser social do povo brasileiro. Lula é uma metamorfose política que escapa a toda previsibilidade acadêmica e pretensão cartesiana de definição clara e distinta do exercício do poder. Sua linguagem, movida a metáforas, carrega a força ontológica da sabedoria popular. Nenhum governante conseguiu, como Lula, manter sintonia ontológica tão afinada com o modo de ser e pensar do povo brasileiro.

O desvio do abismo

À esquerda, ao centro e à direita, Lula tem consciência e sabe como poucos lidar com as contradições de que se reveste seu desempenho político, num país em que a burguesia lesa-nação naturaliza a desigualdade, vampiriza o povo, criminaliza direitos sociais e conspira contra a soberania nacional. Se a esquerda classista (e nela me incluo) não vê nele seu candidato ideal, tampouco tem sido capaz de construir alternativa melhor. De quem é a culpa, se de culpa fosse a questão? Na falta do melhor, segui com Lula nessas eleições de 2026, único candidato com densidade eleitoral para desviar o Brasil do rumo do abismo posto à nossa frente. Nesse abismo estaria o Brasil se, ainda que por uma margem pequena de votos, a extrema direita golpista, entreguista e vassala, tivesse vencido essas eleições presidenciais de outubro. Como escreve Nietzsche: “Se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha dentro de você”. Mais do que nos desviar da rota do abismo, devo reconhecer que a vitória de Lula, em sinergia com o povo livre e sem medo, adquire o estatuto geopolítico do mais estratégico e necessário movimento político para colocar o Brasil na rota da soberania. Companheiro e querido Lula, obrigado por existir e nos ensinar a resistir.

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José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, onde cursou e obteve o mestrado em Educação (1998) e o doutorado em Sociedade e Cultura (2011). É também teólogo heterodoxo e sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical e filho do cruzamento metafórico dos rios Solimões (em Manacapuru – AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana – CE). Desde Manaus, AM, em outubro de 2026.
Artigo publicado em Política e Resenha