Política e Resenha

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MANTER O BRASIL EM ESTADO DE LEVANTE ELEITORAL

Filosofia Política

(sete breves teses de Filosofia Política)

José Alcimar de Oliveira*

Porque a multidão livre conduz-se mais pela esperança que pelo medo, ao passo que uma multidão subjugada conduz-se mais pelo medo que pela esperança: aquela procura cultivar a vida, esta procura somente evitar a morte.— Benedictus de Spinoza, 1632-1677

Tese 01

Segundo reza cartilha da Filosofia Política Popular, é nos becos, ruas e praças que o povo, unido e sem medo, pode desfazer as trapaças da classe dominante. Nem sempre as formulações acadêmicas, e, pior ainda, as academicistas, conseguem captar a fala e o sentimento das ruas. Às vezes, um exercício intelectual dessa ordem somente pode ser captado por uma percepção olfativa acurada, como aquela do mundo canino, sobretudo naqueles mamíferos não humanos chamados de caramelos, não propriamente naqueles de raça, com coleiras de ouro, que habitam o conforto burguês dos condomínios. Sim, evidentemente existem exceções nos dois lados: caramelos submetidos ao comodismo da vida burguesa e cães de raça ao lado de gente com visão crítica e posição de classe contra a infame desigualdade social. Mas a regra é que o mundo acadêmico, sobretudo o doutoral e o pós-doutoral, é por demais assepsiado e refratário ao mundo dos pobres, e costuma torcer o nariz para esse tipo de intuição canina e humana, que para Spinoza representa um nível superior de racionalidade.

Tese 02

O exemplo para mim mais paradigmático dessa percepção canina nos foi passado por Graciliano Ramos por meio da cadela Baleia, imortalizada no romance Vidas Secas. Baleia de Vidas Secas é o ser vivo mais humanizado dentre os personagens criados pela engenhosidade romanesca de Graciliano Ramos. Embora ele se declarasse ateu e não professasse religião nenhuma, considerava a Bíblia uma obra fundamental da literatura e, seguramente, por ser um brasileiro radicalmente humano e sensível à miséria do povo sertanejo, seria recebido com festa e vinho para uma longa conversa com Jesus de Nazaré num possível encontro em Caná da Galileia. Apreciador moderado do bonum vinum, quando preso pela ditadura Vargas, em 1936, há 90 anos, o Velho Graça confidenciou que sentia falta de um bom copo de vinho. Poucos escritores brasileiros souberam captar a vida do povo dos pobres do Brasil com a sensibilidade literária de Graciliano Ramos – sem fazer concessões a derramamentos emotivos e falsos.

Tese 03

Inicio essas breves teses com essa digressão sobre Graciliano Ramos porque caberia a ele, se vivo estivesse e em Manaus, e não a mim, escrever com sua conhecida maestria literária e substantiva redação, o que ocorreu ontem, 11 de outubro de 2026, nas ruas do centro de Manaus e da maioria das cidades brasileiras. O Brasil que foi às ruas nesse domingo, 11 de outubro de 2026, juntamente com Manaus, que também é Brasil, acompanhou o levante vermelho que ocupou as ruas de todo o país. Foi bonito demais de ver. Até pareceu que faltou rua para tanta gente em Manaus. Foi a maior multidão, feita de povo sem medo, que tomou o centro de Manaus nesses últimos anos. No mínimo entre 70 e 100 mil pessoas. No vermelho da luta em defesa da soberania do Brasil, da vida do povo e do verde da Amazônia, não havia lugar para o amarelo-fralda do entreguismo e do patriotismo de país estranho. Por que o vermelho assusta tanto? Por que tanto ódio ao vermelho? Nos quase 200 países, 150 têm a cor vermelha em suas bandeiras. No Brasil, cujo nome remete à cor vermelha do paubrasilia echinata, mais de dez estados têm o vermelho em suas bandeiras. A Paraíba é paradigmática. O (EU) NEGO faz de sua bandeira em vermelho e preto a mais politizada do Estado Brasileiro.

Tese 04

Há muita gente que baba e se deixa iludir diante da cobertura isentíssima das corporações mediáticas burguesas sobre as manifestações do povo, notadamente as divulgadas pela redegolpe. Em São Paulo, uma manifestação com mais de um milhão de pessoas na Paulista foi chamada apenas de um ato de campanha pelo cansástico dominical. Uma cobertura vergonhosa! O Brasil de todos os quadrantes ontem, 11 de outubro de 2026, foi às ruas para gritar 13. Aqui no centro de Manaus a manifestação popular se iniciou no espaço político feito de três templos icônicos: o templo do povo (o atual Largo de São Sebastião), o templo da fé (a bela igreja de São Sebastião) e o templo da cultura (o majestoso Teatro Amazonas). Tudo isso sob o sol da bela e maltratada cidade de Manaus. A extrema direita esquece que Manaus ainda tem no vermelho de seu sangue a força ancestral de sua alma indígena. Manaus é igualmente citadina e mítica. E aqui, recorro ao grande José Carlos Mariátegui ao escrever que “não é a civilização, não é o alfabeto do branco, o que levanta a alma do índio. É o mito, é a ideia da revolução socialista. A esperança indígena é absolutamente revolucionária”.

Tese 05

Confesso que aos 70 anos nunca vi, nos últimos dez anos, tamanha multidão vestida com o vermelho da luta em Manaus. Sei que nada disso sairá nas corporações mediáticas golpistas. Para dizer de forma mais direta: no Partido da Imprensa Golpista (PIG). Para o PIG a mentira é sempre editada com técnica e extrema convicção. Já a verdade, só a muito custo consegue emitir algum sinal de vida. Sei que a eleição não está ganha e a luta do 13 contra o 22 é desigual. Mas o Brasil que vota no 13 vai continuar em estado de levante eleitoral até 25 de outubro de 2026. O que é certo é que, não importa o resultado das urnas, haverá luta e resistência antes e depois de 25 de outubro de 2026, porque para existir é preciso resistir. Como nos mostrou a epígrafe spinozista dessas sete breves teses, o povo abandonou o medo, levantou-se e passou a se conduzir pela esperança que nasce da ação. Ao deixar para trás o medo que leva à morte, decidiu abrir saídas que conduzem à vida e à alegria de viver.

Em destaque

Para existir é preciso resistir.

Tese 06

A eleição presidencial desse outubro de 2026, no Brasil, assume um caráter geopolítico, estratégico e global, que extrapola quaisquer limites de uma disputa local. Para muito além da grandiloquência etnocêntica hegeliana, que no século XIX via a Alemanha como o verdadeiro palco da história universal, no século XXI, nesse outubro de 2026, é o Brasil, com suas reservas de recursos naturais estratégicos, que se converte no principal teatro de guerra da fase mais belicista e voraz do predatório e insaciável modo de produção capitalista. Mesmo que decidida por uma pequena diferença de votos, essa eleição, a depender do resultado, vai determinar que lugar o Brasil vai ocupar na ordem global sob o comando da política unilateralista do Império do Norte. Necessário é dizer que nosso país é grande e diverso, não cabe no quintal de ninguém, e não pode abdicar do projeto de construção de sua soberania como um Estado solidário, internacionalista e inclusivo, a que chamamos de Brasil-nação.

Tese 07

Mesmo as forças liberais, de direita, estão em perigo se vencer o candidato da extrema direita. Os sinais do primeiro turno estão aí: o crescimento da extrema direita ocorreu mais no espaço político ocupado pela direita e pelo centro do que no campo da esquerda. A sobrevivência da direita, da tradição liberal que ainda preserva alguns valores iluministas e laicos, a despeito de mais formais que substantivos, tem mais garantia de vida com a eleição de Lula do que com a vitória do candidato da extrema direita. E o Brasil? Que futuro se lhe apresenta? Sucumbirá à condição de maior Protetorado Estadunidense do Atlântico Sul. Não é demais lembrar que a Venezuela está aqui ao nosso lado. Nessa fase, a mais bélica do Império do Norte, que já avassalou toda a Europa, restam Brasil e México como os dois únicos países das Américas que ainda resistem ao entreguismo. Luta perdida é a que não se luta. E a força está na luta coletiva.

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* José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, onde cursou e obteve o mestrado em Educação (1998) e o doutorado em Sociedade e Cultura (2011). É também teólogo heterodoxo e sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical e filho do cruzamento metafórico dos rios Solimões (em Manacapuru – AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana – CE). Desde Manaus, AM, em outubro de 2026.

José Alcimar de Oliveira — Política e Resenha