Crônica • Memória • Vitória da Conquista
Por Padre Carlos— Política e Resenha
Existem cidades onde nascemos, cidades por onde passamos e cidades que, sem pedir licença, entram em nossa vida e passam a morar dentro de nós. Vitória da Conquista pertence a esta última categoria. Não foi aqui que nasci, nem foi nestas ruas que dei meus primeiros passos, mas foi nesta terra que encontrei um lugar para chamar de meu. Há mais de trinta anos, Conquista me acolheu, e, desde então, uma parte da minha história se confunde com a história desta cidade.
Nasci em uma família miguelense, cresci em Salvador, carrego comigo as lembranças da infância, os cheiros, os sons e as paisagens da minha terra de origem. Mas a vida tem dessas delicadezas: às vezes, o coração escolhe uma cidade diferente daquela que nos viu nascer. E foi assim que me tornei conquistense. Não apenas por morar aqui, mas por criar raízes, construir amizades, compartilhar sonhos, acompanhar suas transformações e aprender a reconhecer, em cada esquina, um pedaço da minha própria existência.
A cidade que me acolheu
Tenho orgulho de dizer que sou conquistense. E esse sentimento ganhou uma dimensão ainda mais especial quando recebi o reconhecimento de minha cidadania por iniciativa do vereador Álvaro Píton. Guardo esse gesto com carinho, sobretudo porque ele ultrapassou as fronteiras das diferenças políticas. Afinal, há reconhecimentos que não pertencem aos partidos, mas à generosidade humana. E o amor por uma cidade não pode ser propriedade de nenhuma ideologia.
Vitória da Conquista tem uma personalidade que não se encontra facilmente em outros lugares. É uma cidade de contrastes e encantamentos, de clima peculiar, de povo trabalhador, de tradição sertaneja e de uma elegância que se manifesta até nas pequenas delicadezas do cotidiano. Tem a força de quem conhece as dificuldades da vida e a sensibilidade de quem ainda sabe sorrir, receber e acolher.
“O amor por uma cidade não pode ser propriedade de nenhuma ideologia.”
— Padre Carlos Josaphat
Talvez seja verdade que, quanto mais nos afastamos do litoral, mais conservamos determinadas tradições e valores. Mas, se há algo que considero precioso em Conquista, é justamente essa capacidade de preservar aquilo que o tempo moderno tantas vezes tenta destruir: o respeito, a palavra empenhada, a convivência, a memória e o sentimento de pertencimento.
A saudade da Praça das Borboletas
E como não recordar a antiga Praça das Borboletas? Há lugares que não são apenas espaços públicos: são pedaços da nossa memória afetiva. Lembro-me daquele encanto, das flores cuidadas com carinho, da beleza que parecia pedir silêncio e contemplação. As pessoas admiravam os jardins sem sentir necessidade de arrancar uma flor para levar para casa. Havia ali uma espécie de pacto silencioso entre a cidade e seus habitantes: a beleza pertencia a todos e, por isso mesmo, precisava ser respeitada.
O que é uma cidade
Hoje, quando olho para trás, percebo que não sinto saudade apenas de uma praça. Sinto saudade de um jeito de viver, de uma relação mais delicada com as coisas, de uma cidade que se reconhecia também nos pequenos gestos de sua gente. Porque uma cidade não é feita somente de avenidas, edifícios, praças e monumentos. Uma cidade é feita de lembranças, de encontros, de rostos conhecidos e de histórias que atravessam gerações.
Memória, fé e gente
Da região do Colégio do Padre Palmeira ao Poço Fundo, dos antigos caminhos às avenidas que anunciam a modernidade, Vitória da Conquista foi sendo construída pelas mãos e pela inteligência de homens e mulheres que deixaram suas marcas. Professora Heleusa Câmara, Mozart Tanajura e tantos outros personagens ajudaram a construir não apenas uma cidade, mas uma identidade cultural, intelectual e humana que merece ser preservada.
Há também uma dimensão espiritual que atravessa nossa história. Nossa Senhora das Vitórias, padroeira que dá nome à cidade, faz parte da memória e da devoção de seu povo. E lá do alto da Serra do Periperi, o Cristo Operário parece contemplar a cidade, estendendo simbolicamente seus braços sobre aqueles que aqui vivem, trabalham, sofrem, lutam e sonham. São imagens que ultrapassam a dimensão religiosa e se incorporam à paisagem afetiva de Conquista.
É impossível falar desta cidade sem falar de sua gente. Gente que trabalha, que empreende, que estuda, que luta por uma vida melhor. Gente que chega de outras regiões e encontra aqui uma oportunidade de recomeçar. Gente que nasceu nestas terras e carrega, com orgulho, a identidade conquistense. É nessa mistura de origens, experiências e histórias que reside uma das maiores riquezas de Vitória da Conquista.
Amar também é cobrar
Sei que a cidade tem problemas. Nenhuma declaração de amor precisa ser cega para ser verdadeira. Existem desafios urbanos, desigualdades, demandas sociais e questões que exigem responsabilidade dos governantes e participação da sociedade. Amar Conquista também significa desejar que ela seja mais justa, mais humana, mais bonita e mais acolhedora. Significa cobrar, criticar, defender o patrimônio público e não permitir que a indiferença destrua aquilo que tantas gerações ajudaram a construir.
Mas hoje não quero falar de disputas políticas, de governos ou de adversários. Hoje quero falar de sentimentos. Quero simplesmente declarar meu amor por esta terra que me recebeu e me permitiu construir uma história.
O chão onde o coração se fez conquistense
Talvez um dia eu me afaste destas ruas, destas praças e deste céu de inverno que tantas vezes anuncia o frio característico de Conquista. Talvez o tempo transforme novamente sua paisagem, derrube antigas construções e faça desaparecer lugares que hoje guardo na memória. Mas há uma coisa que ele jamais poderá apagar: o sentimento de pertencimento que esta cidade despertou em mim.
Porque, no fim das contas, nossa verdadeira cidade não é apenas aquela que aparece no documento de nascimento. É aquela que aprendemos a amar, aquela onde deixamos nossas marcas, onde construímos amizades, onde enterramos saudades e alimentamos esperanças.
Vitória da Conquista, você não foi o meu primeiro endereço, mas se tornou uma das moradas mais bonitas da minha existência.
E se alguém me perguntar de onde sou, responderei com a tranquilidade de quem encontrou seu lugar no mundo: nasci em outro chão, cresci em outra paisagem, mas meu coração também é conquistense.
Viva Vitória da Conquista! Minha cidade, minha história, meu amor.
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Padre Carlos — Teólogo, Filósofo e colunista político — Política e Resenha





