Política e Resenha

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Quem ensina carrega o país nas costas

Homenagem · Educação · Memória

A homenagem ao Professor Durval Lemos Menezes não enfeita a profissão: lembra o que o Brasil deve a quem a exerce e ainda não pagou.

Há homenagens que enfeitam e homenagens que denunciam. As primeiras cobrem o homenageado de flores e o devolvem, no dia seguinte, à mesma sala lotada, ao mesmo salário, à mesma madrugada de cadernos. As segundas fazem o contrário: usam o nome de uma pessoa para apontar o que o país faz com toda a sua classe. A homenagem ao Professor Durval Lemos Menezes pertence à segunda espécie. Ela reconhece uma vida inteira dedicada ao magistério e, justamente por isso, recusa o romantismo barato que costuma acompanhar o elogio ao professor.

Romantizar é uma forma elegante de não pagar a conta. Quando se diz que ensinar é um sacerdócio, uma vocação, um dom, esquece-se de dizer que dom não paga aluguel e que vocação não substitui hora-atividade. O professor que merece a nossa homenagem é o que sabe disso, e nem por isso desiste de ensinar.

A imagem do Japão

O Japão é um dos países mais avançados do mundo em tecnologia e um dos que mais cultivam a cultura e a disciplina do seu povo. Lá, conta-se, todos se curvam diante do imperador, figura todo-poderosa e profundamente respeitada. Mas há um detalhe que diz mais sobre uma civilização do que qualquer ranking econômico: o imperador só se curva diante de um professor.

Todos se curvam diante do imperador. O imperador só se curva diante de um professor.

A imagem que inspira esta homenagem

Seja a cena literal ou apenas a lenda que um povo conta sobre si mesmo, o recado é o mesmo. Uma nação mostra o que valoriza pela quem ela põe acima de si. No Japão, a reverência ao mestre é um valor. No Brasil, ainda é um discurso de ocasião.

Aqui, o professor não tem escala. Tem cobrança.

Basta olhar para a rotina de quem leciona para entender a distância entre os dois países. No Brasil, o professor não tem escala de trabalho: tem cobrança. Cobrança de resultado, de nota, de aprovação, de comportamento, de reunião, de projeto, de relatório. E é talvez o único trabalhador cuja jornada começa antes de ele chegar ao trabalho e termina depois de ele sair.

O trabalho que ninguém vê

Antes do trabalho. O professor trabalha antes de ir trabalhar, porque ninguém entra em sala sem ter preparado a aula. Preparar é ler, selecionar, planejar, montar atividade, imprimir, improvisar quando falta material.

Durante o trabalho. Em sala, ele é ao mesmo tempo professor, mediador, conselheiro e, muitas vezes, a única presença adulta atenta na vida de um jovem.

Depois do trabalho. Ele trabalha depois do trabalho, porque chega em casa e ainda precisa corrigir as provas e os trabalhos escolares. A mesa da sala vira escritório, e a noite vira expediente que não consta em folha de pagamento alguma.

A própria lei do piso do magistério reconhece que o ensino não cabe inteiro dentro da sala de aula e reserva parte da jornada para atividades extraclasse. Mas reconhecer no papel é uma coisa; garantir na prática, no cotidiano de cada escola e de cada rede, é outra bem diferente. É nessa distância que vive a cobrança sem escala.

O professor como palanque

Há ainda uma outra cobrança, mais sutil e mais injusta. No Brasil, o professor é frequentemente usado para o crescimento de políticos por meio da sua oratória. O homem público que não tem o que dizer empresta a voz de quem sabe dizer. O mestre que domina a palavra, que prende uma plateia, que explica o complexo com simplicidade, vira escada para carreiras alheias. Aplaude-se no comício e esquece-se no orçamento.

Essa má companhia entre a tribuna e a sala de aula não ofende a política, que é atividade nobre quando bem exercida. Ofende a verdade: quem tem na voz do professor o seu melhor discurso deveria ter, na política pública, o seu maior compromisso.

Homenagem sem romantismo

É por tudo isso que a homenagem ao Professor Durval Lemos Menezes tem valor. Ela não pede aplausos de cerimônia. Pede que olhemos para a trajetória de quem passou a vida diante de uma lousa e perguntemos o que o Brasil fez para merecê-la. Honrar um professor de verdade é dar-lhe tempo para planejar, salário para viver, respeito para ensinar e escala para descansar.

Quem conheceu um bom mestre sabe que ele não ensina apenas conteúdos. Ensina a pensar, a duvidar, a perseverar. Muita gente que hoje ocupa gabinetes, consultórios, púlpitos e redações aprendeu as primeiras letras com alguém que corrigiu prova na mesa da cozinha. Esse trabalho é invisível, mas é o alicerce de todo o resto.

No dia em que o Brasil aprender a se curvar diante dos seus professores, não por protocolo, mas por gratidão e por política pública, talvez descubra que não precisava invejar o Japão. Bastava ter feito, com os seus mestres, o que sempre soube que era certo. Até lá, que homenagens como esta, ao Professor Durval Lemos Menezes, sirvam de espelho e de cobrança. O professor já faz a sua parte, todos os dias, antes, durante e depois do expediente.

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Padre Carlos — Teólogo, sacerdote e colunista político — Política e Resenha