Uma homenagem do Padre Carlos ao autor de Dante Menezes e Família
Esta semana, tive o privilégio de receber uma verdadeira obra-prima da memória conquistense: Dante Menezes e Família, livro no qual o professor Durval Lemos Menezes reconstrói a trajetória de uma família cuja história se entrelaça com a formação cultural de Vitória da Conquista e com as raízes históricas da Bahia.
Recebi o exemplar acompanhado de uma dedicatória que me sensibilizou profundamente:
“Ao inteligente e culto Padre Carlos, uma referência da cultura conquistense, com um fraterno abraço do autor.”
— Dedicatória de Durval Lemos Menezes, 22 de julho de 2026
A generosidade dessas palavras revela muito sobre o homem que as escreveu. Porque a grandeza de um intelectual não se manifesta apenas naquilo que produz, mas também na maneira como reconhece, respeita e valoriza os outros.
Durval Lemos Menezes pertence àquela categoria de homens cuja existência ultrapassa os limites da experiência individual. Sua vida é também uma contribuição à memória coletiva. Professor, pesquisador e escritor, construiu uma trajetória intelectual dedicada à história, à geografia, à sociologia, à antropologia e, sobretudo, à biografia — esse gênero literário que exige do autor não apenas rigor na investigação, mas sensibilidade para compreender as contradições, os afetos, as escolhas e o legado daqueles que vieram antes de nós.
Dez livros publicados testemunham a extensão de seu trabalho e a diversidade de seus interesses. Não se trata apenas de uma produção numerosa, mas de uma disposição intelectual que merece reconhecimento: a de investigar, reunir informações, confrontar lembranças, recuperar personagens e transformar experiências dispersas em conhecimento acessível às novas gerações.
Há, entretanto, algo que torna esta obra particularmente comovente.
Aos 85 anos, enfrentando o peso da idade e as dificuldades de uma enfermidade grave, Durval encontrou forças para escrever aquilo que ele próprio apresenta como talvez sua última “flor do Lácio”, numa referência ao célebre poema de Olavo Bilac. A expressão, por si só, traduz a consciência de quem conhece a força da língua portuguesa e compreende a escrita como uma das formas mais duradouras de permanência humana.
É impossível não se deter nesse gesto
Quando o corpo impõe limites, a inteligência ainda encontra caminhos. Quando o tempo nos recorda a finitude, a memória pode se transformar em obra. E quando a vida parece exigir silêncio, há homens que respondem com a palavra. Durval Lemos Menezes escolheu continuar escrevendo. Escolheu organizar suas lembranças, honrar seus antepassados e deixar às gerações futuras um testemunho de sua passagem pelo mundo.
Esse gesto não é apenas literário. É também uma manifestação de caráter.
Revela um homem perseverante, fiel aos próprios compromissos e consciente de que o conhecimento não deve morrer com quem o acumulou. Sua atitude expressa uma rara combinação de disciplina intelectual, coragem pessoal e responsabilidade histórica. Não é a ausência de fragilidade que define a grandeza humana, mas a capacidade de encontrar sentido e propósito mesmo quando a existência se torna mais difícil.
Um filho que transforma admiração em legado
No centro de Dante Menezes e Família encontra-se a figura de Dante Menezes, apresentado pelo autor como seu grande herói, sua estrela-guia, fonte de luz e energia, porto seguro e maior amigo.
A escolha do personagem central revela uma dimensão essencial da personalidade de Durval: sua capacidade de admirar.
Em uma época na qual a notoriedade frequentemente se confunde com grandeza, e a exposição pública parece valer mais do que a consistência de uma vida, o professor nos oferece uma lição de outra natureza. Ele reconhece no próprio pai uma referência fundamental de sua formação humana. E não se limita a guardar essa admiração no espaço íntimo da família: transforma-a em pesquisa, narrativa e patrimônio cultural.
Há uma diferença profunda entre recordar alguém e dedicar-se a reconstruir sua história. A recordação pertence à intimidade; a biografia exige trabalho, método, investigação e disposição para dar forma pública à memória. Ao escolher esse caminho, Durval converte o amor filial em responsabilidade intelectual.
É justamente aí que sua obra adquire uma dimensão que ultrapassa os limites da genealogia.
Ao escrever sobre Dante Menezes, o professor também nos permite compreender o universo de valores no qual foi formado. A família surge não apenas como uma sequência de gerações, mas como espaço de transmissão de princípios, experiências, referências culturais e compromissos com a educação. O livro torna-se, assim, uma reflexão sobre a importância dos vínculos familiares na construção da identidade de cada pessoa e na formação da própria sociedade.
Essa capacidade de unir o particular ao coletivo é uma das qualidades mais interessantes da escrita biográfica. O autor parte de uma história familiar, mas oferece ao leitor elementos para compreender um tempo, uma cultura e uma comunidade.
A inteligência a serviço da memória
A história dos Menezes remonta a antigas tradições familiares portuguesas e acompanha a presença desse sobrenome no Brasil desde o período colonial, com especial atenção à Bahia e ao Recôncavo Baiano. O livro recupera essa trajetória e a conduz até Vitória da Conquista, onde a presença dos Menezes ganha contornos concretos na história da educação e da cultura local.
Nesse percurso, destaca-se a figura do professor Abdias Menezes, nascido em 1873, na antiga Vila do Cumbe, atual município de Euclides da Cunha. Depois de experiências profissionais em diferentes localidades, Abdias chegou a Vitória da Conquista em 1916 e fundou, na Vila de Iguá, o Colégio Vitória, estabelecimento de ensino com internato.
É nesse encontro entre genealogia e história regional que a pesquisa de Durval revela sua importância. Ao recuperar trajetórias individuais, o autor ajuda a iluminar os caminhos pelos quais professores, famílias e instituições contribuíram para a formação cultural do município.
Uma cidade não é feita somente de edifícios, ruas, mandatos políticos ou acontecimentos oficiais. É feita também de homens e mulheres que ensinaram, educaram, produziram conhecimento, transmitiram valores e ajudaram a estabelecer as bases de uma vida coletiva. Resgatar essas histórias significa reconhecer que o desenvolvimento de uma comunidade é resultado de muitas contribuições, frequentemente esquecidas pela passagem do tempo.
O trabalho de Durval inscreve-se nessa tarefa de preservação. Seu mérito está em compreender que a memória não é um luxo reservado aos especialistas, mas uma necessidade de qualquer sociedade que deseje conhecer a própria trajetória.
O passado, quando investigado com seriedade, deixa de ser uma coleção de curiosidades e passa a oferecer instrumentos para compreender o presente. A pesquisa histórica não serve apenas para satisfazer nossa curiosidade sobre os antepassados; serve também para impedir que a comunidade perca a consciência de suas origens.
Por isso, livros como Dante Menezes e Família merecem ser lidos para além do círculo dos descendentes. Eles pertencem igualmente à história cultural de Vitória da Conquista e ao acervo de experiências que ajudam a explicar a formação da sociedade conquistense.
O caráter de um homem se revela também na maneira de escrever
Há intelectuais que fazem do conhecimento uma forma de distinção pessoal. Outros compreendem que saber é assumir uma responsabilidade diante da sociedade. A trajetória de Durval Lemos Menezes, marcada pela produção de obras dedicadas à recuperação histórica e biográfica, aproxima-se dessa segunda concepção.
Sua dedicação à pesquisa demonstra respeito pelos fatos, pelos personagens e pelas gerações que o antecederam. Sua escrita, ao voltar-se para a história de uma família, revela também a consciência de que os indivíduos não existem isoladamente: cada vida é atravessada por relações, circunstâncias e heranças que merecem ser compreendidas.
Mas é sobretudo a decisão de concluir este trabalho, apesar das adversidades pessoais, que imprime à obra um significado especial. Há nisso uma demonstração de perseverança e fidelidade à própria vocação. O professor continua exercendo aquilo que fez ao longo de sua trajetória: investigar, registrar, interpretar e transmitir conhecimento.
A idade não apagou sua inquietação intelectual. A dificuldade não eliminou sua disposição de escrever. E o reconhecimento da finitude não o impediu de trabalhar para que a memória permanecesse.
Não cabe transformar a enfermidade em romantismo, nem ignorar o peso humano de uma experiência tão difícil. Cabe, sim, reconhecer a dignidade de quem continua encontrando razões para produzir, ensinar e compartilhar aquilo que sabe.
É essa combinação de cultura, persistência e compromisso que torna Durval Lemos Menezes uma figura merecedora da consideração pública. Seu legado não se mede apenas pelo número de livros publicados, mas pela contribuição que oferece à preservação da história regional e pelo exemplo de dedicação intelectual que deixa aos leitores.
A honra de receber uma dedicatória
Confesso que a dedicatória que recebi me tocou de maneira particular. Ser lembrado com palavras tão generosas por um professor e escritor que dedicou tantos anos à investigação da história conquistense é motivo de sincera gratidão.
Recebo, porém, essa homenagem com a humildade de quem sabe que a cultura não é propriedade de ninguém. Ela se constrói no encontro entre pessoas, na circulação das ideias, na preservação das lembranças e no reconhecimento mútuo daqueles que, por caminhos diferentes, dedicam parte de sua existência ao conhecimento.
As palavras de Durval são também um convite à responsabilidade. Ser reconhecido como alguém comprometido com a cultura de Vitória da Conquista significa compreender que esse patrimônio precisa ser cuidado, ampliado e transmitido. A cultura não sobrevive apenas nos livros que escrevemos, mas também na disposição de ler, divulgar, preservar e valorizar o trabalho dos outros.
Por isso, ao receber Dante Menezes e Família, não recebi apenas um exemplar dedicado. Recebi o testemunho de uma vida intelectual, o resultado de uma pesquisa realizada com persistência e uma declaração de amor à história familiar.
Recebi, sobretudo, a oportunidade de conhecer mais profundamente um homem que fez da escrita um instrumento de permanência.
Um legado para Vitória da Conquista
O professor Durval Lemos Menezes oferece, com esta obra, uma contribuição que merece encontrar leitores entre os familiares, os pesquisadores, os professores, os estudantes e todos aqueles que se interessam pela formação histórica e cultural de Vitória da Conquista.
Seu livro recorda que nenhuma cidade se compreende inteiramente sem conhecer as pessoas que ajudaram a construí-la. Cada família guarda fragmentos de uma história maior. Cabe à pesquisa responsável reunir esses fragmentos, estabelecer relações e produzir narrativas capazes de atravessar as gerações.
É por isso que a preservação da memória constitui também um ato de respeito à comunidade. Quando registramos a trajetória de um educador, recuperamos parte da história do ensino. Quando reconstruímos a caminhada de uma família, identificamos relações que ajudam a explicar a formação social de uma região. Quando reconhecemos o trabalho de um escritor, afirmamos que a produção intelectual tem lugar indispensável na vida pública.
Durval Lemos Menezes compreendeu essa responsabilidade e fez dela uma parte importante de sua trajetória.
Sua obra merece respeito não por uma idealização de seu autor, mas pelo trabalho que representa, pela memória que preserva e pelo testemunho humano que carrega. Sua perseverança diante das adversidades, sua dedicação à pesquisa e sua capacidade de transformar admiração familiar em registro histórico compõem a imagem de um intelectual que compreende a escrita como serviço à memória.
Ao concluir esta homenagem, volto à dedicatória que recebi e à figura do professor que, mesmo aos 85 anos, continua dialogando com o passado e escrevendo para o futuro.
Há homens que deixam lembranças. Outros deixam ensinamentos. Alguns conseguem reunir as duas coisas e acrescentar-lhes uma obra que continuará falando quando sua voz já não puder fazê-lo.
Durval Lemos Menezes pertence a essa tradição de homens que compreendem a cultura como herança e responsabilidade. Sua trajetória ensina que o conhecimento exige perseverança, que a memória precisa de trabalho e que o amor, quando encontra a disciplina da inteligência, pode produzir algo que ultrapassa a experiência individual.
Dante Menezes e Família é, portanto, mais do que uma biografia familiar. É um gesto de gratidão, um documento de memória e uma contribuição à história cultural de Vitória da Conquista.
Ao professor Durval Lemos Menezes, minha admiração, meu respeito e minha gratidão. Que sua obra encontre o reconhecimento dos leitores e que as novas gerações saibam descobrir, em suas páginas, não apenas a história dos Menezes, mas também a trajetória de um homem que dedicou parte essencial de sua vida à tarefa de impedir que o passado se perdesse no silêncio.
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