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Waldir Pires: o centenário de uma figura que fez a diferença

Política e Resenha · Memória e História

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Waldir Pires: o centenário de uma figura que fez a diferença

Relatório histórico e apuração documental — 4 de novembro de 2026

Francisco Waldir Pires de Souza — também grafado como Sousa em registros biográficos, como o CPDOC/FGV — nasceu em Acajutiba, na Bahia, em 21 de outubro de 1926. Em 21 de outubro de 2026, portanto, completaria 100 anos. A data foi marcada por uma missa em ação de graças, às 18h30, na Igreja Nossa Senhora da Graça, em Salvador, organizada pela família. Para 4 de dezembro, a Assembleia Legislativa da Bahia previu uma sessão solene em sua memória, por iniciativa do deputado estadual Angelo Almeida (PT).

Mais do que uma efeméride, o centenário oferece uma oportunidade para reavaliar uma trajetória política que atravessou a democracia de 1946, a crise institucional do governo João Goulart, o golpe de 1964, o exílio, a redemocratização, a Constituição de 1988 e os governos da Nova República. A melhor chave para compreendê-lo é a que aparece no texto-base: a defesa da democracia não foi apenas uma posição eleitoral ou partidária, mas o eixo moral e intelectual de sua vida pública.

Da formação baiana à política nacional

Waldir Pires passou a infância em Amargosa, onde cursou o primário, e fez o ginásio em Nazaré, no Ginásio Clemente Caldas. Depois, concluiu o curso clássico em Salvador e formou-se em Direito pela Faculdade de Direito da Bahia, atual UFBA, em 1949. Durante a vida estudantil, participou da União dos Estudantes da Bahia e liderou o Movimento Antinazista; também se envolveu nas campanhas nacionalistas em defesa da Petrobras.

A formação jurídica, o magistério e a experiência administrativa compuseram a base de sua carreira. Foi secretário de Governo de Luís Régis Pacheco, entre 1951 e 1955, e atuou na organização da administração educacional federal na Bahia. Em 1954, elegeu-se deputado estadual pelo PTB, assumindo em 1955. Na Assembleia Legislativa, tornou-se líder da maioria e participou da aprovação de medidas que criaram ou estruturaram instituições importantes para o desenvolvimento baiano, entre elas o Banco de Desenvolvimento Econômico, a Companhia de Telefones da Bahia, a Comissão de Planejamento Econômico, o Fundo Agroindustrial e a Companhia de Armazéns e Silos.

Em 1958, já filiado ao PSD, foi eleito deputado federal pela Bahia e assumiu o mandato em fevereiro de 1959. No Congresso, integrou as comissões de Constituição e Justiça e de Relações Exteriores, participou da Frente Parlamentar Nacionalista e defendeu a autodeterminação dos povos, o monopólio estatal de riquezas estratégicas e reformas sociais dentro da ordem constitucional. A referência do texto-base a um período “1959-1959” é claramente um erro de transcrição: o mandato federal correspondente foi de 1959 a 1963.

O vínculo com João Goulart e o golpe de 1964

A atuação de Waldir Pires se intensificou durante o governo João Goulart. Em 1962, colaborou com a criação da Universidade de Brasília e lecionou Direito Constitucional. Em maio de 1963, foi nomeado consultor-geral da República. Nessa posição, analisou questões de constitucionalidade relacionadas a projetos centrais do governo Goulart, incluindo a Lei de Remessa de Lucros e Dividendos e medidas ligadas à reforma agrária.

Com a crise de março e abril de 1964, Waldir Pires permaneceu próximo ao núcleo de defesa da legalidade constitucional. Segundo o CPDOC/FGV, participou das reuniões com Goulart e, ao lado de Darcy Ribeiro, ajudou a transmitir a posição de que não haveria renúncia nem suicídio, mas resistência em defesa do poder legal. Após a queda do governo, teve os direitos políticos suspensos pelo Ato Institucional nº 1, em junho de 1964.

O exílio não foi um intervalo vazio. Primeiro no Uruguai e depois na França, Waldir Pires manteve atividade intelectual e acadêmica. Foi professor associado da Faculdade de Direito da Universidade de Dijon e lecionou no Instituto de Altos Estudos da América Latina, da Universidade de Paris. Retornou ao Brasil em 1970 e recuperou gradualmente sua presença na vida pública após a revogação das punições políticas e a anistia.

Esse percurso explica por que a memória de Waldir Pires está tão associada à democracia. Ele não foi apenas um político que voltou ao cenário eleitoral quando o regime autoritário começou a se desfazer. Foi alguém diretamente atingido pela ruptura institucional de 1964 e que transformou essa experiência em compromisso permanente com as liberdades públicas, o voto, o pluralismo e a igualdade social.

O governador e a renúncia de 1989

Depois de disputar a política baiana em diferentes momentos, Waldir Pires foi eleito governador da Bahia em 1986, assumindo em 15 de março de 1987. A fonte institucional da Assembleia Legislativa registra o período do mandato como 1987-1991, com a observação decisiva de que ele renunciou em maio de 1989 para candidatar-se a vice-presidente na chapa de Ulysses Guimarães.

É importante distinguir eleição e exercício do cargo. Algumas páginas resumidas o identificam como governador “1986/87”, porque a eleição ocorreu em 1986; o mandato governamental, entretanto, começou em 1987. Também há divergência em fontes partidárias sobre o ano da renúncia, mas o perfil oficial da ALBA e a documentação histórica convergem em maio de 1989.

A renúncia teve alto custo político. Waldir Pires deixou um governo estadual para integrar a chapa presidencial do PMDB na eleição de 1989. A candidatura foi derrotada, mas o episódio revela uma característica de sua trajetória: ele se orientava por projetos nacionais e por convicções democráticas, ainda que essas escolhas produzissem perdas pessoais ou eleitorais. A biografia de Emiliano José trata essa fase como parte da “longa caminhada” de resistência democrática, das Diretas Já à reorganização partidária.

Em síntese

Uma vida pública organizada em torno de uma convicção: a democracia como projeto permanente.

1926 — nasce em Acajutiba (BA)  ·  1949 — forma-se em Direito  ·  1963 — consultor-geral da República  ·  1964 — direitos políticos suspensos  ·  1970 — retorna do exílio  ·  1987 — assume o governo da Bahia  ·  1989 — renuncia para disputar a vice-presidência  ·  2003–2006 — Controladoria-Geral da União  ·  2006–2007 — Ministério da Defesa  ·  2013–2016 — vereador de Salvador  ·  2018 — morre em Salvador, aos 91 anos.

Retorno ao Congresso e os três ministérios

Waldir Pires voltou à Câmara dos Deputados pelo PDT, no início dos anos 1990, e depois pelo PT, entre 1999 e 2003. Assim, a afirmação de que foi deputado federal “três vezes” pode ser entendida como referência a três períodos legislativos: 1959-1963, 1991-1995 e 1999-2003. No mandato iniciado em 1991, exerceu a segunda vice-presidência da Mesa Diretora da Câmara.

Também é correta, com uma ressalva de nomenclatura, a afirmação de que foi ministro de Estado três vezes. Ocupou o Ministério da Previdência e Assistência Social no governo José Sarney, de 1985 a 1986; chefiou a Controladoria-Geral da União — então denominada Corregedoria-Geral da União em parte do período — de 2003 a março de 2006; e foi ministro da Defesa de 2006 a 2007, no governo Luiz Inácio Lula da Silva.

A passagem pela CGU é especialmente significativa para o legado institucional de Waldir Pires. O Partido dos Trabalhadores atribuiu a ele papel central na implantação de mecanismos modernos de controle e transparência dos gastos públicos. Como a fonte é partidária, essa avaliação deve ser lida como uma apreciação política; o fato verificável é que ele comandou o órgão entre 2003 e 2006.

No Ministério da Defesa, enfrentou a crise da aviação civil e do controle do tráfego aéreo, conhecida como “apagão aéreo”. Deixou o cargo em junho de 2007. O documentário da TV Câmara de 2014 também registra sua memória sobre o golpe de 1964 e sobre os riscos de fragmentação territorial discutidos no contexto da crise, mostrando que sua interpretação do passado continuava ligada à soberania nacional e à legalidade democrática.

A última etapa: vereador de Salvador

Em 2012, Waldir Pires foi eleito vereador de Salvador pelo PT, para a legislatura 2013-2016. A Câmara Municipal registra que ele recebeu cerca de 13,8 mil votos. O cargo encerrou, de modo simbólico, um percurso que havia começado na Assembleia Legislativa da Bahia e passara pela Câmara dos Deputados, pelo governo estadual e por ministérios da República.

Sua vereança não deve ser lida como uma diminuição de sua importância, mas como uma volta à escala municipal e à cidade onde estudou, trabalhou e construiu parte decisiva de sua identidade política. O texto-base observa que ele permanecia próximo do povo e participava da Lavagem do Bonfim, sendo reconhecido e abraçado por admiradores. Esse aspecto pertence sobretudo à memória oral e afetiva de Salvador; ele complementa, mas não substitui, os registros documentais sobre sua carreira.

O último grande ato público confirmado pelas fontes consultadas foi sua participação, em 14 de junho de 2018, no lançamento do primeiro volume da biografia escrita por Emiliano José, no Palácio Rio Branco. A Associação Bahiana de Imprensa noticiou o evento no dia anterior e informou que a obra resultava de quase seis anos de pesquisa e entrevistas. O primeiro volume cobre a infância, a formação, os primeiros mandatos, a atuação no governo Goulart, o golpe de 1964, o exílio e o retorno ao Brasil.

Waldir Pires morreu em Salvador em 22 de junho de 2018, aos 91 anos, após ser internado com pneumonia e sofrer uma parada cardiorrespiratória. A Fundação Perseu Abramo registrou que ele havia participado do lançamento do livro oito dias antes; a Agência Brasil confirmou a internação, a parada cardiorrespiratória e a data da morte.

A biografia de Emiliano José e a memória do personagem

A obra de Emiliano José é importante porque procura organizar a vida de Waldir Pires em dois movimentos. O primeiro volume acompanha a formação e a primeira fase política até o retorno ao Brasil. O segundo, lançado em 2019, cobre a reconstrução democrática, a candidatura ao Senado em 1982, a campanha das Diretas, a vitória para o governo baiano, a renúncia de 1989, os retornos ao Congresso, a passagem pelos governos Sarney e Lula e o mandato de vereador em Salvador.

A interpretação de Emiliano José — Waldir como um “democrata inamovível” e como alguém que vinculava democracia e combate à desigualdade — deve ser atribuída ao biógrafo, não apresentada como uma conclusão neutra da historiografia. Ainda assim, ela encontra amplo apoio na documentação da carreira: a participação no movimento estudantil, a defesa da legalidade em 1961 e 1964, o exílio, a oposição ao autoritarismo e o retorno à política partidária após a anistia formam uma sequência coerente.

“A democracia jamais foi realizada no mundo. Ela é uma utopia a ser buscada sempre.”

Depoimento atribuído a Emiliano José, biógrafo — Tribuna da Bahia

A frase reproduzida no texto-base funciona como síntese da memória que seus amigos preservam dele. A formulação aparece na matéria da Tribuna da Bahia como depoimento atribuído a Emiliano José e não foi localizada, nesta apuração, em uma transcrição primária assinada pelo próprio Waldir. Deve, portanto, ser mantida como testemunho memorialístico, com a devida atribuição.

O que o centenário recoloca em debate

O centenário não transforma Waldir Pires em personagem sem contradições. Sua decisão de renunciar ao governo para disputar a vice-presidência foi controversa; seus governos e alianças podem ser avaliados de maneiras diferentes; e suas posições sobre os grandes conflitos nacionais pertencem a uma geração política marcada por nacionalismo, desenvolvimentismo, reformas sociais e disputas intensas sobre o papel do Estado.

O que permanece mais sólido é a continuidade entre suas ideias e seus atos principais. Ele fez política em defesa da legalidade constitucional antes de 1964, sofreu a punição do regime, voltou ao país quando a abertura permitiu, participou da reconstrução democrática, assumiu funções de controle e transparência no Estado e terminou a vida pública como vereador. Essa sequência ajuda a entender por que as homenagens o descrevem como símbolo de decência, dignidade e coerência.

A importância histórica de Waldir Pires está, assim, menos na quantidade de cargos que ocupou do que na relação entre esses cargos e uma concepção de vida pública. Para ele, a democracia não se reduzia ao procedimento eleitoral. Envolvia liberdade, soberania, igualdade, instituições e respeito ao adversário. É nesse sentido que o centenário pode ser lido: não como celebração acrítica de uma carreira, mas como reabertura de uma pergunta atual sobre o tipo de político que uma democracia precisa formar e preservar.

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Padre Carlos — Colunista político — Política e Resenha