Política e Resenha · História Local
Uma cidade entre o mundo rural e a modernização
Nos anos 1950 e 1960, Vitória da Conquista vivia uma transição decisiva. O município ainda tinha forte base rural, mas a sede urbana crescia, atraindo comércio, serviços, migrantes e novas formas de lazer. A documentação disponível não descreve uma cidade homogênea: havia um centro relativamente equipado e movimentado, bairros em formação e áreas onde a infraestrutura permanecia precária.
O Censo de 1960 registrou 143.486 habitantes no município, dos quais 53.429 na área urbana e 90.057 na rural. Portanto, quando se fala em “a cidade” naquele momento, é importante distinguir a sede municipal do território conquistense mais amplo. Mesmo com a maioria da população ainda no campo, a urbanização avançava rapidamente. Estudos locais apontam que a população rural era maior nos anos 1950 e que, a partir daí, a zona urbana passou a crescer com intensidade.
A expansão não ocorreu apenas por crescimento espontâneo. A fragmentação de propriedades rurais e a abertura de loteamentos se intensificaram na primeira metade da década de 1950. No lado oeste, correspondente ao futuro Bairro Brasil, Gildásio Cairo comprou em 1951 uma grande área conhecida como antigo mangueiro de Alvino Dias. A abertura e doação de lotes estimulou a construção de centenas de casas, embora também tenha valorizado as terras do proprietário. A cidade começava a se espalhar para além do núcleo central.
A construção da Rio–Bahia, atual BR-116, também foi um fator decisivo para a integração regional e para a expansão urbana. Vitória da Conquista se fortalecia como ponto de circulação de pessoas, mercadorias, caminhões e serviços entre o litoral, o sertão e o sudoeste baiano. O crescimento urbano, entretanto, era desigual: novas áreas surgiam antes de receber infraestrutura completa, enquanto o centro concentrava os equipamentos mais importantes.
Censo de 1960 · Conquista em números
|
143.486 habitantes no município |
53.429 na área urbana |
90.057 na área rural |
A maioria dos conquistenses ainda vivia no campo, mas a sede urbana já crescia em ritmo acelerado.
O centro: ruas, praças e comércio
O coração da vida urbana estava no conjunto formado pela Praça Barão do Rio Branco, Praça Nove de Novembro, Praça da República — depois Jardim das Borboletas —, ruas comerciais e becos próximos. A atual Praça Tancredo Neves ocupa parte de um espaço que antes foi a primeira área comercial da vila. Em 1940, o local foi desmembrado e transformado na Praça da República; na década de 1950, recebeu o nome de Jardim das Borboletas. Fotografias de 1957 mostram o jardim com fonte luminosa e viveiro, um espaço de passeio e contemplação no centro da cidade.
A Praça Barão do Rio Branco, antiga área da chamada Rua Grande, reunia comércio, feiras, festas, quermesses, celebrações religiosas e manifestações políticas. Na década de 1950, o espaço era também um lugar de passagem e encontro. A praça concentrava hotéis, cinemas e empreendimentos comerciais, mantendo uma posição central na vida pública da cidade.
A Praça Nove de Novembro aparece em registros de 1950 e 1960 como outro ponto importante do centro, ligada à Alameda Ramiro Santos. Décadas depois, tornou-se conhecida pela presença de vendedores ambulantes, baianas de acarajé, vendedores de pipoca e pequenos comerciantes. As memórias reunidas por Martha Nogueira mostram que a feira e as praças eram espaços de trabalho cotidiano, alimentação rápida, conversa e circulação de pessoas.
A Praça da Bandeira também tinha uma função popular e comercial. Ali havia feira livre, comércio informal e mercado popular, atividades que se articulavam com a Avenida Lauro de Freitas e com as ruas do entorno. É provável que, para muitos moradores, a experiência diária da cidade fosse menos a de grandes avenidas e mais a de um circuito de praças, ruas de comércio, mercados, igrejas, escolas, pensões e pontos de transporte.
Entre as ruas que aparecem na documentação e nas fotografias de época estão a Rua Francisco Santos, associada a casas comerciais e ao Sindicato dos Comerciários; a Alameda Ramiro Santos; a antiga Rua do Triunfo, conhecida antes como Rua dos Cachorros; e a Praça 9 de Novembro. Os nomes ajudam a reconstituir uma cidade compacta, em que os deslocamentos no centro eram feitos a pé ou em veículos que compartilhavam as mesmas vias do comércio e das feiras.
O que havia no dia a dia
Um levantamento municipal de 1954, citado em pesquisa da UESB, descreve uma cidade que já possuía cinco agências bancárias, mais de mil veículos, cerca de sessenta profissionais liberais, oito centros de assistência médico-social, mais de cem escolas primárias, uma escola normal, dois ginásios, escolas de datilografia e corte e costura, hotéis, pensões, lojas maçônicas, igrejas e associações. O quadro revela uma sede urbana com serviços relativamente diversificados para o interior baiano, mas não significa que todos os moradores tivessem acesso igual a eles.
O trabalho urbano estava ligado ao comércio, aos transportes, à construção, aos serviços públicos, às escolas, às casas de saúde e às atividades de alimentação. O campo continuava fundamental: a cidade recebia produtos, trabalhadores e negociantes da zona rural e dos municípios vizinhos. A feira era um dos pontos em que essas duas dimensões se encontravam.
As memórias de Dona Dió do Acarajé ajudam a enxergar o cotidiano de trabalhadores pobres que quase não aparecem nas fotografias oficiais. Antes de se tornar conhecida pelo acarajé, ela vendia café nas ruas e festas, buscava água no Poço Escuro para vender na feira, lavava roupa para um hotel e trabalhava em restaurante no Marçal. Nos anos 1960, passou a vender acarajé na Praça Nove de Novembro, enquanto seu marido vendia pipoca e quebra-queixo.
O abastecimento de água ainda dependia fortemente do Poço Escuro. Até meados dos anos 1970, vendedores de água enchiam carotes na nascente do Rio Verruga e transportavam a água para venda na cidade; quem não podia pagar precisava buscá-la pessoalmente. Esse dado é importante porque impede uma imagem excessivamente idealizada dos anos 1950 e 1960: a cidade tinha bancos, cinemas, rádios e escolas, mas também enfrentava dificuldades básicas de abastecimento e infraestrutura.
A cidade tinha bancos, cinemas, rádios e escolas, mas também enfrentava dificuldades básicas de abastecimento e infraestrutura.
A imprensa local registrava e, ao mesmo tempo, disputava a interpretação da vida pública. O semanário O Combate, dirigido entre 1955 e 1958 por Orlando Leite e Nilton Gonçalves, funcionava como espaço de articulação cultural e política. Depois do golpe de 1964, o jornal foi perseguido e fechou, enquanto seu diretor e o poeta Camillo de Jesus Lima foram presos. Assim, o cotidiano também era atravessado pela política nacional, pelo poder das famílias locais e pela repressão da ditadura.
O rádio: a cidade reunida em torno da voz
A Rádio Clube de Conquista foi inaugurada em 17 de dezembro de 1952 e funcionou durante muitos anos no prédio Casal Julião, na Praça Barão do Rio Branco. A emissora se tornou um dos principais veículos de informação e entretenimento do município. Na década de 1960, moradores chegavam a fazer fila para acompanhar a programação.
Em 1º de maio de 1953, foi inaugurada a Rádio Regional, iniciativa de Antenor Dantas Pina e propriedade de Gildásio Cairo. Ela funcionava no Edifício Gonçalves e ajudou a formar o que as memórias locais chamam de “época de ouro do rádio”. Os programas reuniam informação, música, poesia, serestas, calouros, esporte e participação dos ouvintes. Entre os formatos lembrados estão Valores da Terra, Carrossel de Alegria, A Cidade em Revista, Inspiração, Alma do Sertão, Alegria dos Bairros e Programa Saber.
O rádio fazia a ponte entre casa, praça e comércio. Divulgava notícias, festas, concursos de vitrines, concursos de reis e rainhas do rádio e programas de auditório. A presença de poetas, músicos e jovens artistas indica que a modernização cultural não dependia apenas da televisão — que ainda não tinha a presença doméstica que teria mais tarde —, mas de emissoras, cinemas, jornais e apresentações ao vivo.
Cinemas e cultura de rua
O cinema era uma das principais formas de lazer coletivo. A história das salas conquistenses começou antes do período estudado, mas foi nos anos 1950 e 1960 que o circuito ganhou importância. O Cine Glória, com capacidade superior a 879 pessoas, e o Cine Eldorado, localizado no Bairro Brasil, aparecem como empreendimentos importantes dos anos 1950. O Eldorado era um cinema de bairro, sinal de que o entretenimento começava a acompanhar a expansão da cidade para o lado oeste.
Nos anos 1960, o prédio que já havia abrigado o Cine-Teatro Castro Alves, o Cine Vitória e o Cine Israel/Cine Lux recebeu o Cine Ritz e, em 1968, o Cine Riviera, reformado a partir da estrutura do antigo Cine-Teatro Conquista. Também em 1968 surgiu o Cine Madrigal, que se tornaria uma das salas mais modernas e marcantes da cidade na década seguinte.
As memórias de espectadores dão a dimensão social do cinema. Havia filas extensas, sessões repetidas e filmes capazes de mobilizar públicos muito variados. Os relatos citam Mazzaropi, Zé Trindade, filmes de faroeste e sessões especiais de Semana Santa. A fila podia se estender por grande parte do quarteirão, e algumas pessoas esperavam uma sessão inteira para conseguir entrar.
O cinema, portanto, não era apenas consumo de filmes. Era encontro entre jovens, famílias, trabalhadores, estudantes e grupos de diferentes classes sociais. A ida à sessão organizava parte da noite: vestir-se para sair, encontrar conhecidos, passar por uma praça, comer alguma coisa e voltar para casa depois do filme.
A vida noturna: bailes, boates e a Rua do Maga-Sapo
A noite conquistense era socialmente dividida. Havia o lazer considerado respeitável — cinemas, festas, clubes, bailes de carnaval, programas de auditório e encontros nas praças — e havia a zona de prostituição, associada à antiga Rua do Maga-Sapo e a suas casas noturnas. A pesquisa de Angelita Cunha da Silva Sousa, intitulada A Rua do Maga-Sapo – Cotidiano e representações da prostituição em Vitória da Conquista (1950–1971), é a principal referência acadêmica localizada para esse tema.
Em 1957, entre os espaços frequentados pelas chamadas “mulheres de vida livre” estavam o bar Gato Preto, na Praça 9 de Novembro, e as boates Amambaí e Casa Blanca, na Rua do Triunfo, antiga Rua dos Cachorros. A Casa Blanca teria sido inaugurada em 1957. O bar Gato Preto, comprado pelos irmãos Cairo em 1951, foi reformado e reinaugurado como Confeitaria Aracy, passando a atrair a elite local.
Os bailes fechados de carnaval promovidos pelas boates da própria zona de prostituição mostram que a vida noturna não se limitava à prostituição em sentido estrito. Havia música, dança, roupas, códigos de comportamento e circulação de homens de diferentes posições sociais. Ao mesmo tempo, as fontes refletem a linguagem moralizante da época, que classificava mulheres entre “de família” e “de vida livre”. Essa classificação deve ser lida criticamente: ela expressa o olhar social sobre as mulheres, não uma descrição neutra de suas vidas.
A zona noturna também era uma parte integrada, embora estigmatizada, da economia urbana. Hotéis, restaurantes, bares, vendedores ambulantes, músicos, carregadores e trabalhadores noturnos participavam desse circuito. As memórias de Dona Dió mostram, por exemplo, o trabalho de vender café e lanches em clubes e festas até a madrugada.
Síntese: como imaginar a cidade
Uma noite típica podia começar no comércio e na feira, passar por uma praça, por uma visita à igreja ou por uma atividade de rádio, continuar em um cinema ou baile e terminar em um bar, pensão ou casa noturna. Para trabalhadores pobres, a mesma cidade era feita de carregar mercadorias, vender água, café, acarajé, pipoca ou doces. Para estudantes e jovens de classe média, era feita de escola, rádio, cinema, clubes e namoro. Para fazendeiros, comerciantes e políticos, o centro reunia negócios, jornais, bancos e relações de poder.
Vitória da Conquista dos anos 1950 e 1960 não era ainda a cidade espalhada e verticalizada de hoje. Era uma cidade de praças, ruas comerciais, becos, casas térreas, cinemas de rua, rádios locais e deslocamentos concentrados no centro. Mas já estava deixando de ser apenas uma povoação voltada para o campo. A expansão para o Bairro Brasil, a circulação da BR-116, o crescimento dos serviços, a multiplicação dos cinemas e a força do rádio indicam uma modernização rápida, marcada por desigualdades.
A melhor imagem histórica é, portanto, a de uma cidade em camadas: o jardim e a fonte luminosa ao lado da feira; o banco e o vendedor de água; o cinema e a precariedade do abastecimento; a boate e o baile de carnaval; o jornal que discutia política e o golpe que o fez fechar. O cotidiano conquistense era feito justamente dessa convivência entre tradição, trabalho duro, lazer coletivo, crescimento urbano e conflito social.
Referências
[1] Martha Maria Brito Nogueira, Mulher negra e empoderamento: trajetória e memórias de Dona Dió do Acarajé na cidade de Vitória da Conquista
[2] Marília Faria Chaves, O processo de monopolização e valorização do solo urbano em Vitória da Conquista-BA
[3] Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista, Praças de Vitória da Conquista guardam a memória dos 185 anos da cidade
[4] Fotos de Vitória da Conquista – 1900s/1980s, registros de 1957 e transcrição de pesquisa sobre a Rua do Maga-Sapo
[5] Martha Maria Brito Nogueira, pesquisa de história oral e memória sobre Dona Dió, praças, trabalho e abastecimento
[6] Fábio Sena e Isabela Sena, O cotidiano de Vitória da Conquista nas páginas dos jornais
[7] Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista, Prefeitura reconhece os 65 anos de atuação da Rádio Clube na cidade
[8] Luís Fernandes/Blog do Anderson, A Era do Rádio de Vitória da Conquista
[9] Filipe Brito Gama, Os cinemas de Vitória da Conquista e o mercado exibidor brasileiro
[10] Cristina Leilane Azevedo Fernandes, Cinefilia em Vitória da Conquista: memórias de uma prática cinematográfica
[11] IBGE, população total, urbana e rural por município, dados do Censo de 1960
[12] IBGE, municípios com população superior a 50.000 habitantes em 1º de setembro de 1960
Vitória da Conquista
História Local
Sudoeste Baiano
Décadas de 1950 e 1960
Rádio e Cinema
Memória Urbana
Padre Carlos — colunista político — Política e Resenha





