Política e Resenha

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Um presente, um livro e a memória de Vitória da Conquista

Memória Conquistense · Resenha

Sobre Régis Pacheco, 1895–1987: esboços biográficos, de Euclides Abelardo de Souza Dantas, e sobre o que uma obra histórica devolve a uma cidade.

Recebi de meu primo Gedel uma tarefa que considero muito mais do que um simples convite à escrita: falar sobre um livro que ele ganhou de presente, uma obra histórica de valor inestimável para a memória de Vitória da Conquista. Trata-se de Régis Pacheco, 1895–1987: esboços biográficos, de autoria de Euclides Abelardo de Souza Dantas, um dos intelectuais que ajudaram a registrar a história e a identidade cultural de nossa terra.

Ao receber essa incumbência, compreendi que não estava diante apenas de um livro antigo, mas de uma oportunidade de revisitar personagens, acontecimentos e escolhas que contribuíram para construir a história política da Bahia e, particularmente, de Vitória da Conquista. Afinal, há livros que nos oferecem histórias, enquanto outros nos devolvem parte daquilo que somos. A obra de Euclides Dantas pertence a essa segunda categoria.

O presente recebido por Gedel carrega, portanto, um significado que ultrapassa o valor material de um exemplar impresso. É um convite à memória, uma ponte entre gerações e uma oportunidade de reconhecer a importância daqueles que compreenderam que uma cidade não se constrói somente com ruas, edifícios e obras públicas. Ela também se constrói com ideias, palavras, instituições e homens cuja trajetória permanece inscrita na consciência coletiva.

O professor Tidinho e a obra

Euclides Dantas, conhecido como professor Tidinho, foi uma figura de grande importância na vida intelectual conquistense. Nascido em Salvador, em 1888, chegou a Vitória da Conquista em 1909 e aqui desenvolveu uma trajetória marcada pela educação, pelo jornalismo, pela literatura e pela participação na vida cultural da cidade. Professor, poeta, romancista, teatrólogo e biógrafo, pertenceu àquela geração de homens que, mesmo distante dos grandes centros culturais do país, ajudou a criar os alicerces de uma vida intelectual no sertão baiano.

Escrever sobre Régis Pacheco, nesse contexto, significava mais do que registrar a biografia de um médico que ingressara na política. Significava documentar a ascensão de uma liderança que conquistou projeção regional e estadual, sem perder sua ligação com Vitória da Conquista.

A primeira versão dessa obra circulou em 1940, sob o título Perfil Biográfico do Dr. Régis Pacheco. Décadas depois, o trabalho foi recuperado na edição Régis Pacheco, 1895–1987: esboços biográficos, publicada em 1995 pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e pelo Museu Regional, como parte do projeto editorial Memória Conquistense. Essa trajetória editorial demonstra como determinados escritos, mesmo depois de muitos anos, continuam encontrando razões para existir: porque a história de uma sociedade não termina com a morte de seus protagonistas.

Há livros que nos oferecem histórias, enquanto outros nos devolvem parte daquilo que somos.

Carlos Josaphat

E quem foi Régis Pacheco?

Luís Régis Pacheco Pereira foi médico, prefeito de Vitória da Conquista, deputado federal e governador da Bahia entre 1951 e 1955. Formado pela Faculdade de Medicina da Bahia em 1919, chegou a Conquista em 1920, depois de atuar em serviços sanitários relacionados ao combate a doenças como a febre amarela e a varíola. Aqui, construiu uma trajetória profissional e política que o transformaria em uma das figuras mais conhecidas da história regional.

Sua atuação como médico contribuiu para consolidar sua presença na sociedade conquistense. Em uma época na qual o acesso aos serviços de saúde era muito mais limitado do que hoje, o exercício da medicina possuía uma dimensão social especialmente relevante. As referências históricas sobre sua vida destacam a proximidade com a população e a oferta de atendimento gratuito a pessoas que não tinham condições de pagar por uma consulta.

Régis Pacheco ingressou na política municipal e, posteriormente, alcançou o governo estadual. Durante sua passagem pela administração pública, esteve associado a iniciativas de infraestrutura, educação, saúde e desenvolvimento. Entre os marcos de sua trajetória está a criação da Escola Normal de Vitória da Conquista, inaugurada em 1952, instituição que passou a homenagear Euclides Dantas.

Uma ironia bonita

O escritor que registrou a trajetória de Régis Pacheco também acabou tendo seu próprio nome inscrito na história por uma iniciativa do governador que biografara. De um lado, Euclides Dantas ajudou a preservar a memória de um homem público; de outro, Régis Pacheco contribuiu para perpetuar o nome de um intelectual que dedicou parte significativa de sua vida à educação e à cultura de nossa cidade.

São gestos como esse que nos permitem compreender a história para além da sucessão de cargos, datas e mandatos. Eles revelam as relações humanas, os vínculos de amizade, o reconhecimento intelectual e a maneira como os indivíduos participam da construção de uma identidade coletiva.

Admiração e espírito crítico

Entretanto, valorizar a trajetória de Régis Pacheco não significa transformá-lo em personagem intocável. A história exige admiração quando ela é justificada pelos fatos, mas também exige espírito crítico. Todo homem público deve ser compreendido dentro das circunstâncias de seu tempo, das alianças que construiu, das decisões que tomou e dos resultados de sua atuação. A memória histórica não precisa escolher entre o elogio irrestrito e o esquecimento. Pode reconhecer realizações, investigar contradições e procurar compreender a complexidade de uma vida.

É justamente por isso que o livro de Euclides Dantas merece nossa atenção. Uma obra biográfica produzida por alguém que conheceu de perto os círculos sociais e políticos de sua época possui um valor documental especial. Ela nos permite perceber como uma geração enxergava suas lideranças, quais feitos considerava dignos de registro e quais valores desejava transmitir às gerações seguintes.

Naturalmente, uma biografia escrita em 1940 não deve ser confundida com uma pesquisa histórica contemporânea, construída a partir do confronto sistemático entre diferentes arquivos e interpretações. O livro precisa ser lido em seu contexto, cotejado com outros documentos e compreendido também como expressão de uma determinada visão de mundo. Isso não diminui sua importância. Ao contrário, amplia as possibilidades de leitura, porque nos permite investigar tanto a trajetória do biografado quanto a maneira como sua imagem foi construída.

Há uma diferença fundamental entre conhecer um personagem histórico e compreender como uma sociedade escolheu lembrá-lo. No caso de Régis Pacheco, essas duas dimensões se encontram. Temos o médico que chegou a Vitória da Conquista no início da década de 1920, o administrador municipal, o governador da Bahia e o parlamentar que atravessou diferentes momentos da vida política brasileira. Temos também o personagem que permaneceu no imaginário regional como uma referência de autoridade, atuação pública e ligação com o desenvolvimento da cidade.

Preservar para não perder o chão

A preservação dessa memória encontra expressão concreta na Casa Memorial Governador Régis Pacheco, instalada no casarão onde ele viveu, na Praça Tancredo Neves. O espaço ajuda a manter viva a relação entre patrimônio histórico, identidade local e educação das novas gerações. Afinal, preservar um edifício, recuperar um documento ou reeditar um livro são maneiras de impedir que o passado se transforme em uma terra estrangeira para aqueles que vieram depois.

É nesse ponto que o presente recebido por meu primo Gedel ganha uma dimensão ainda maior. Em tempos nos quais a informação circula em velocidade extraordinária, mas frequentemente se perde na superficialidade, receber um livro de história representa uma oportunidade de desacelerar, ler, refletir e reconhecer a importância das raízes. Um livro antigo não é necessariamente um livro ultrapassado. Muitas vezes, é justamente nele que encontramos perguntas que ainda não aprendemos a responder.

Vitória da Conquista precisa continuar valorizando seus escritores, professores, médicos, políticos e demais personagens que participaram da construção de sua história. Precisa preservar seus arquivos, estimular pesquisas, apoiar instituições culturais e aproximar os jovens dos documentos que contam de onde viemos. Uma cidade que não conhece seu passado corre o risco de aceitar como novidade aquilo que já aconteceu e de perder referências indispensáveis para pensar seu futuro.

Por isso, agradeço a Gedel pela oportunidade de refletir sobre essa obra. Seu presente tornou-se também uma provocação intelectual: olhar para nossa história com respeito, mas sem dispensar a investigação; reconhecer os méritos de nossos personagens, mas sem abandonar o rigor; compreender que a memória não pertence apenas aos que viveram os acontecimentos, mas também aos que assumem a responsabilidade de transmiti-los.

Euclides Dantas escreveu sobre Régis Pacheco e, ao fazê-lo, deixou um testemunho que atravessou décadas. Hoje, quando voltamos os olhos para esse livro, não encontramos somente a trajetória de um antigo governador da Bahia. Encontramos também o retrato de uma época, a história de um intelectual comprometido com a cultura regional e uma oportunidade de compreender melhor a formação política e social de Vitória da Conquista.

Talvez seja esse o maior valor de uma obra histórica: ela nos ensina que o passado não está morto, nem pode ser reduzido a uma coleção de nomes e datas. Ele permanece nas instituições que herdamos, nas ruas por onde caminhamos, nos livros que sobrevivem e nas perguntas que fazemos sobre aqueles que nos antecederam.

E, se um presente pode despertar tudo isso, então Gedel recebeu mais do que um livro. Recebeu um fragmento da memória conquistense. E, ao me confiar a tarefa de escrever sobre ele, permitiu que essa memória encontrasse mais uma oportunidade de circular, provocar reflexão e alcançar novos leitores.

Porque uma cidade que preserva sua história preserva também a possibilidade de compreender seu presente e construir conscientemente o seu futuro.

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Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha