Por Padre Carlos
Há políticos que ocupam cargos. Há outros que, por determinado período, acabam se confundindo com o próprio projeto político que representam. Na minha leitura, Guilherme Menezes pertenceu à segunda categoria.
Durante boa parte das duas décadas em que o Partido dos Trabalhadores comandou Vitória da Conquista, entre 1997 e 2016, Guilherme não foi apenas prefeito. Foi uma das principais referências públicas de um modelo político que construiu identidade, militância, método de governo e memória na cidade. Eleito prefeito quatro vezes, também exerceu mandato de deputado estadual e dois mandatos de deputado federal.
É justamente por isso que considero politicamente revelador observar o que acontece toda vez que o PT conquistense atravessa uma fase de dificuldade: o nome de Guilherme volta a aparecer.
Não necessariamente como candidato. Talvez nem seja mais essa a sua função.
“Guilherme passou a exercer algo que, na política, pode ser ainda mais difícil de construir do que um mandato: capital simbólico.”
E capital simbólico não se transfere por decreto partidário.
Pode-se entregar uma legenda, montar uma coligação, reunir deputados, trazer ministros, produzir grandes atos e construir palanques. Mas identidade política é outra coisa. Ela se estabelece quando uma parcela da população passa a associar determinado personagem a uma época, a um projeto ou a uma forma de fazer política.
Foi isso que Guilherme construiu.
Quando uma era política termina
Quando deixou definitivamente a Prefeitura, em dezembro de 2016, encerrou-se não apenas um governo pessoal, mas também uma etapa histórica. Naquele mesmo ano, o PT perdeu a administração municipal depois de vinte anos consecutivos no comando da cidade. Desde então, a legenda tentou retornar ao Paço Municipal, mas não conseguiu recuperar a Prefeitura.
É aqui que começa a parte mais interessante dessa história.
Uma coisa é ter sucessores administrativos. Outra, muito diferente, é produzir sucessores políticos.
O PT de Vitória da Conquista continuou dispondo de quadros experimentados, mandatos parlamentares, estrutura partidária, presença estadual e relações importantes com os governos baiano e federal. O que não conseguiu reproduzir com a mesma facilidade foi uma liderança que sintetizasse, sozinha, o projeto partidário na memória de uma parcela significativa do eleitorado conquistense.
Essa é uma interpretação minha. E considero que os acontecimentos de 2024 ajudam a compreendê-la.
A campanha de 2024 e o peso da memória
No início daquela disputa municipal, uma pesquisa Séculus realizada entre 26 e 28 de março registrou Lúcia Rocha com 24,01% das intenções de voto no cenário estimulado e Waldenor Pereira com 20,69%. Pesquisa é fotografia de momento, não previsão de urna, mas aquele levantamento mostrava a dificuldade inicial enfrentada pelo candidato petista.
Guilherme apareceu posteriormente de maneira ativa na campanha. Participou de atos, esteve na convenção que confirmou Waldenor e Luciana e foi tratado publicamente como um dos apoiadores importantes da chapa. Waldenor também levou ao presidente Lula uma carta assinada por ele e pelos ex-prefeitos Guilherme Menezes e Zé Raimundo, reivindicando a memória das administrações petistas entre 1997 e 2016.
O resultado é conhecido: Waldenor terminou a eleição em segundo lugar, com 52.947 votos, enquanto Lúcia Rocha obteve 22.052 e ficou na terceira colocação. Sheila Lemos venceu a disputa com 116.488 votos.
Não seria correto atribuir a mudança de posição entre as pesquisas iniciais e as urnas exclusivamente à presença de Guilherme. Eleição é produto de inúmeras variáveis: campanha, alianças, estrutura partidária, comunicação, apoios, conjuntura nacional e comportamento do próprio eleitorado.
Mas seria igualmente ingênuo ignorar o simbolismo de sua presença.
E é exatamente aí que está, para mim, a questão central.
Memória ou dificuldade de renovação?
Quando um partido precisa constantemente recorrer à imagem de uma liderança histórica para reconstruir sua narrativa diante do eleitorado, isso pode representar força de memória — mas também pode revelar dificuldade de renovação.
As duas coisas podem existir ao mesmo tempo.
Guilherme é patrimônio político do grupo justamente porque ajudou a construí-lo. O problema começa quando a memória deixa de ser uma das bases do presente e passa a funcionar como principal instrumento de reconexão com ele.
Em setembro de 2026, o ex-prefeito voltou publicamente ao debate eleitoral ao reafirmar apoio ao projeto político de Lula e do governador Jerônimo Rodrigues, mencionando também lideranças como Jaques Wagner e Rui Costa. Ou seja: longe de abandonar completamente a política, Guilherme continua participando, ainda que hoje sua atuação tenha caráter muito mais simbólico e partidário do que aquele protagonismo institucional dos tempos de Prefeitura e Congresso.
“E eu volto à pergunta que considero inevitável: por que Guilherme continua sendo tão necessário?”
Talvez porque alguns líderes deixam sucessores de cargo, mas não deixam sucessores de identidade.
Guilherme tinha uma relação particular com a cidade. Seu jeito discreto, sua formação política, sua presença territorial e o longo período de governo ajudaram a transformar seu nome em referência de uma época. Isso não significa afirmar que aquela época tenha sido unanimidade, nem que sua memória produza automaticamente votos décadas depois. Significa apenas reconhecer uma realidade da política: memória também é poder.
E o PT sabe disso.
Quando o presente aperta, o passado volta ao palanque.
Quem representa o próximo capítulo?
Minha leitura é que essa recorrência deveria ser observada menos como uma simples homenagem e mais como um sintoma político. Se quase dez anos depois da perda da Prefeitura uma das imagens mais mobilizadas para recordar a identidade do projeto continua sendo a de um homem que começou a governar a cidade em 1997, então existe uma pergunta maior esperando resposta.
Quem representa o próximo capítulo?
Porque nenhum projeto político sobrevive indefinidamente apenas da fotografia de seus fundadores.
A memória abre portas, emociona militantes, reorganiza símbolos e ajuda a contar uma história. Mas cada geração política precisa produzir seus próprios personagens, suas próprias causas e sua própria conexão com a sociedade.
Guilherme Menezes talvez seja novamente convocado porque ainda representa algo que o PT conquistense procura reconstruir: vínculo entre liderança, projeto e cidade.
O verdadeiro desafio, portanto, não está em saber quantas vezes o velho companheiro ainda aparecerá numa reunião, num vídeo ou num palanque. Está em compreender por que, depois de tantos anos, ainda é preciso chamá-lo para lembrar ao eleitorado de onde aquele projeto veio.
E essa reflexão ultrapassa Guilherme, o PT e até Vitória da Conquista.
No Sudoeste da Bahia, onde antigas lideranças convivem com novos grupos disputando território, representação e protagonismo, a questão decisiva para qualquer força política é a mesma: herança pode sustentar uma história, mas somente novas lideranças conseguem escrever a continuação dela.
Vitória da Conquista
Guilherme Menezes
PT
Eleições 2026
Sudoeste da Bahia
Artigo de opinião
Padre Carlos
Política, memória, poder e os movimentos que ajudam a explicar os bastidores de Vitória da Conquista e do Sudoeste baiano.




