Política e Resenha

A MEMÓRIA DE UM HOMEM QUE SONHOU TRANSFORMAR VITÓRIA DA CONQUISTA

MEMÓRIA • HISTÓRIA • POLÍTICA

PEDRAL É ÚNICO

José Pedral Sampaio e a história de um projeto político que marcou Vitória da Conquista

Hoje, 12 de setembro, estamos homenageando aquele que é lembrado como uma das maiores lideranças políticas da história de Vitória da Conquista: José Pedral Sampaio.

Pedral nasceu em 12 de setembro de 1925, na sede de Vitória da Conquista, na antiga Rua Grande, espaço que hoje corresponde à Praça da Matriz, oficialmente conhecida como Praça Tancredo Neves. O parto foi realizado pelo médico Dr. Régis Pacheco.

Régis Pacheco não seria apenas o médico que ajudou Pedral a chegar ao mundo. Tornou-se seu padrinho de batismo e, posteriormente, também seu padrinho político. A história de Pedral começava, portanto, cercada por relações familiares, sociais e políticas que ajudariam a moldar sua trajetória.

AS RAÍZES DE UMA LIDERANÇA

Pedral vinha de dois troncos familiares de grande importância. O nome José era uma homenagem ao avô José Fernando de Oliveira, conhecido como Coronel Gugé, apontado como um dos homens de maior prestígio econômico e político do sudoeste baiano.

Mas a Conquista da infância de Pedral ainda era uma cidade pequena, quase uma cidadezinha tabaroa. Aos 7 anos de idade, deixou Vitória da Conquista para estudar em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo Baiano, cidade que mantinha relações mais próximas com Salvador.

Passou a morar com o avô paterno, Alexandre Sampaio, português, comerciante rico e homem de projeção política naquela região. Foi em Santo Antônio de Jesus que Pedral fez o primário, recebendo uma educação rigorosa para os padrões da época.

Depois, seguiu para Salvador, onde cursou o antigo ginásio e o colegial. Matriculou-se no tradicional Colégio Sofia Costa Pinto e foi ali que começou a construir sua trajetória política, elegendo-se presidente do grêmio estudantil.

Sua participação estudantil não parou ali. Pedral também ocupou a vice-presidência da União Estadual dos Estudantes da Bahia.

O ENGENHEIRO QUE ESCOLHEU CONQUISTA

Concluído o segundo grau, Pedral ingressou na Universidade Federal da Bahia para estudar engenharia. Em 1949, recebeu o diploma de engenheiro civil.

Trabalhou em empresas da construção civil, inclusive em São Paulo. Foi justamente quando estava em São Paulo que recebeu uma bolsa de estudos para especialização nos Estados Unidos.

“Eu vou voltar para Conquista. Vou fazer dessa cidade tabaroa, que na época tinha menos de 40.000 habitantes, uma cidade grande, a maior dessa região.”

A decisão estava tomada. Pedral recusou a bolsa e escolheu voltar para Vitória da Conquista, a cidade que havia deixado aos 7 anos de idade.

Em 1958, candidatou-se a prefeito. Seu sonho era transformar Conquista em uma cidade grande. Para isso, entendia que precisava participar diretamente da política e conquistar as condições para aplicar seus conhecimentos de engenharia no desenvolvimento da cidade.

Pedral perdeu aquela eleição.

Mas não abandonou o projeto. Arregaçou as mangas e continuou na luta política durante quatro anos. Em 1962, foi eleito prefeito de sua querida Vitória da Conquista.

O GOLPE DE 1964 E A CASSAÇÃO

Pedral governou Conquista por aproximadamente dois anos. Então veio a Revolução de 1964.

Acusado de comunismo, teve o mandato cassado e permaneceu afastado da vida política durante duas décadas. Segundo o relato que sustenta esta memória, Pedral nunca foi comunista.

Sua origem familiar estava ligada a famílias tradicionais e economicamente estabelecidas, tanto pelo lado do Coronel Gugé, em Vitória da Conquista, quanto pelo lado da família Sampaio, em Santo Antônio de Jesus.

A política, para Pedral, não parecia ser apenas uma disputa pelo poder. Era o instrumento através do qual pretendia realizar um projeto de cidade.

O RETORNO E O PEDRALISMO

Em 1982, recuperou seus direitos políticos e voltou a disputar os destinos de Vitória da Conquista. Posteriormente, retornou à Prefeitura e, em 1992, governou a cidade pela terceira vez.

Foi nesse período que muitos dos projetos associados à sua visão de cidade puderam ser colocados em prática. Primeiro, segundo e terceiro mandatos passaram a fazer parte de uma mesma narrativa: a tentativa de transformar Vitória da Conquista em uma cidade grande.

É nesse contexto que surge o conceito de pedralismo, entendido como a história política de Pedral, o movimento e o grupo político construídos em torno de sua liderança.

Com o tempo, o termo chegou a ser utilizado para designar uma corrente política própria, associada à influência de José Pedral Sampaio sobre os rumos de Vitória da Conquista.

UMA BIOGRAFIA ESCRITA POR QUEM NÃO O CONHECEU

Existe uma curiosidade especialmente interessante nessa história.

Quando escrevi a biografia de Pedral, eu nunca havia sequer conversado com ele. Não conhecia pessoalmente José Pedral Sampaio.

Ainda assim, escrevi Pedralismo, uma obra dedicada à história política de Pedral e à formação de um movimento que marcou profundamente a vida política de Vitória da Conquista.

Há algo de curioso nisso. A história, algumas vezes, coloca pessoas diante de personagens que elas não conheceram pessoalmente, mas que acabam conhecendo profundamente através de documentos, relatos, acontecimentos e memória.

O livro foi prefaciado pelo cientista da ONU e ex-ministro da Educação, Dr. Dr. Ubirajara Pereira de Brito, que escreveu:

“Esse livro Pedralismo, de autoria do professor Doval Menezes, é até agora a melhor obra de ciência política extraída da história política de Vitória da Conquista.”

PEDRAL, O HOMEM E A MEMÓRIA

Existem fatos na vida que não dependem da nossa vontade. Simplesmente acontecem.

A história está cheia dessas coincidências. A mais completa história do Brasil não foi escrita por um brasileiro, mas por um escritor inglês. A conhecida canção “Por que choras, Argentina?”, associada à memória de Evita Perón, também é lembrada como uma obra cuja autoria não pertence a um argentino.

Nas devidas proporções, existe algo semelhante na história da biografia de Pedral. Um homem que nunca havia conversado com José Pedral Sampaio acabou escrevendo sobre sua trajetória política.

UMA MEMÓRIA POLÍTICA
Pedral não foi apenas um prefeito.
Foi um projeto de cidade.

Hoje, ao recordar José Pedral Sampaio, recordamos também uma determinada maneira de pensar Vitória da Conquista. Recordamos uma época, uma geração, uma visão de desenvolvimento e uma forma de compreender a política como instrumento de transformação urbana.

Pedral faleceu aos 87 anos. Sua trajetória permanece ligada à história política de Vitória da Conquista e ao processo de transformação de uma cidade que ele encontrou pequena e que sonhou ver crescer.

Costuma-se dizer: “Um outro Pedral só daqui a 100 anos.”

Não, minha gente.

Pedral é único. Não vai existir outro Pedral. Jamais existirá outro Pedral.

Daqui a 100 anos serão novos tempos, outra população, novas formas de fazer política e novos métodos de administração. A sociedade muda, a cidade muda, a política muda.

Por isso, Pedral é único.

Pedral é único.

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Durval Lemos de Menezes
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