
Mozart Tanajura, 90 anos
Por Padre Carlos
No dia 14 de setembro, José Mozart Tanajura teria completado 90 anos. A frase, embora simples, carrega uma ausência imensa. Há aniversários que celebram uma vida; há outros que nos obrigam a medir a dimensão de uma falta. O nonagésimo aniversário de Mozart Tanajura pertence a essa segunda categoria. Porque, quando lembramos o professor, escritor e historiador, não estamos apenas recordando um homem que viveu entre 1936 e 2004. Estamos reencontrando uma voz que ajudou Vitória da Conquista a reconhecer a própria fisionomia.
Mozart nasceu em Livramento de Nossa Senhora, mas foi em Vitória da Conquista que sua vida intelectual encontrou morada, trabalho e sentido. Chegou jovem à cidade como professor estadual, licenciou-se em Letras Vernáculas pela antiga Faculdade de Formação de Professores e passou a ensinar Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Não ensinava apenas regras gramaticais ou nomes de autores. Ensinava a força da palavra. E quem ensina a força da palavra oferece aos seus alunos uma forma de liberdade.
“A cidade, para Mozart, nunca foi apenas um território atravessado por ruas, praças e edifícios. Era uma espécie de livro aberto, escrito por muitas mãos e ameaçado pelo esquecimento.”
Ele caminhava por suas páginas com o cuidado de quem sabe que uma cidade também pode morrer quando perde os vestígios da própria história.
Por isso, dedicou-se a recolher documentos, preservar objetos, conversar com os que guardavam lembranças e registrar aquilo que o tempo, a pressa e a especulação imobiliária insistiam em apagar. Nos antigos casarões, via mais do que paredes envelhecidas. Via a memória de uma comunidade. Na antiga Rua Grande, hoje Praça Tancredo Neves, reconhecia uma Conquista que ainda respirava sob as reformas, demolições e mudanças de nomes.
Sua obra mais conhecida, História de Conquista: crônica de uma cidade, publicada em 1992, nasceu de aproximadamente duas décadas de pesquisas, leituras, anotações e inquietações.
Mozart reuniu ali informações sobre as origens do núcleo urbano, os mitos de fundação, a expansão econômica e as transformações que conduziram a cidade até a modernidade do final do século XX.
O livro se tornou uma referência inevitável para quem deseja conhecer Vitória da Conquista. Não porque contenha a última palavra sobre o passado, mas porque foi uma das vozes decisivas a impedir que esse passado permanecesse disperso. A obra de Mozart foi, antes de tudo, um gesto de cuidado. Ele entendeu que uma cidade sem memória fica vulnerável às versões apressadas, às demolições sem remorso e à indiferença dos que acreditam que o progresso começa sempre pela destruição do que veio antes.
É justo reconhecer, como fazem os estudos acadêmicos, que a memorialística não se confunde integralmente com a historiografia profissional. Memória, mito e fato podem se misturar. Uma narrativa local pode carregar lacunas, escolhas e perspectivas próprias de seu tempo. Mas essa ressalva metodológica não diminui Mozart. Ao contrário: torna mais nítida a grandeza de sua tarefa. Quando a pesquisa acadêmica sobre a região ainda era escassa, ele organizou materiais, abriu caminhos e ofereceu às gerações seguintes um ponto de partida.
A produção de Mozart Tanajura
A obra de Mozart Tanajura ultrapassou o livro mais conhecido. Ele escreveu poesias, crônicas, ensaios literários e peças teatrais. Publicou textos em jornais de Livramento, Vitória da Conquista e Salvador, colaborou com A Tarde, prefaciou mais de quarenta livros e dedicou parte de sua vida a recuperar a produção de outros autores.
A relação abaixo reúne as principais obras publicadas e os manuscritos atribuídos a Mozart Tanajura nas fontes consultadas. Em alguns casos, os textos permaneceram inéditos ou há divergência quanto ao ano de publicação.
| Obra | Ano indicado | Situação e observação |
|---|---|---|
| História de Conquista: crônica de uma cidade | 1992 | Principal obra memorialística sobre Vitória da Conquista. Reúne cerca de duas décadas de pesquisas e percorre a formação da cidade, sua expansão econômica e suas transformações até o final dos anos 1980. |
| História de uma Cidade Contada por Ela Mesma | 2002 | Obra voltada à transmissão da memória conquistense para o público infantil, segundo a pesquisa acadêmica consultada. |
| História de Livramento: a terra e o homem | 2003/2004 | As fontes divergem quanto ao ano. O livro trata da terra natal do autor e amplia sua atuação como memorialista para além de Vitória da Conquista. |
| Memorial da Prefeitura: paço municipal, quartel e cadeia | Concluído em 2004 | Manuscrito sobre o prédio que abriga a sede da Administração Municipal. Houve projeto de publicação pela Prefeitura em 2013, mas não foi localizada confirmação definitiva de seu lançamento. |
| Almanaque de Província, além da História | Inédito | Produzido em colaboração com o poeta Carlos Jehovah. |
| Breve História da Literatura Conquistense | Inédito | Manuscrito dedicado à produção literária de Vitória da Conquista. |
| O Arcaísmo na Zona Rural | Inédito | Manuscrito citado nas fontes locais, relacionado à linguagem e à cultura do espaço rural. |
Também merecem destaque seus poemas “O Homem e a sua Fome”, “O Ouro da Inconfidência”, “Poema do Entardecer” e “Noturno de Vitória da Conquista”. São títulos que revelam uma sensibilidade atenta às contradições da vida, à passagem do tempo e ao vínculo profundo com a terra.
Cronologia de uma vida dedicada à memória
| Ano / período | Marco |
|---|---|
| 1936 | Nascimento de José Mozart Tanajura, em Livramento de Nossa Senhora. |
| Vida profissional | Estabelece sua trajetória intelectual em Vitória da Conquista, atuando como professor estadual e formando-se em Letras Vernáculas pela antiga Faculdade de Formação de Professores. |
| 1977–1982 | Atua como Coordenador de Atividades Culturais da Secretaria Municipal de Educação e Cultura. |
| Cerca de duas décadas | Desenvolve pesquisas, leituras e levantamentos que dariam origem à sua principal obra sobre Vitória da Conquista. |
| 1992 | Publicação de História de Conquista: crônica de uma cidade. |
| 2002 | Publicação de História de uma Cidade Contada por Ela Mesma. |
| 2003/2004 | Período indicado pelas fontes para História de Livramento: a terra e o homem. |
| 2004 | Conclusão do manuscrito Memorial da Prefeitura: paço municipal, quartel e cadeia. |
| 24 de maio de 2004 | Morte de Mozart Tanajura. Vitória da Conquista declara luto oficial por três dias. |
| 2013 | É citado um projeto municipal de publicação do manuscrito sobre o Paço Municipal, sem confirmação definitiva de lançamento nas fontes consultadas. |
| 14 de setembro de 2026 | Data em que Mozart Tanajura teria completado 90 anos. |
Muito além dos livros
Todo grande intelectual de uma cidade cumpre uma tarefa que ultrapassa os livros. Mozart Tanajura foi professor, mas também foi uma espécie de guardião civil da lembrança conquistense. Foi escritor, poeta, cronista, ensaísta e pesquisador. Organizou, em sete volumes, a obra de Camillo de Jesus Lima, num gesto de generosidade intelectual que revela muito sobre o homem: Mozart não queria apenas ser lembrado; queria que outros escritores não fossem esquecidos.
Foi um dos fundadores da Academia Conquistense de Letras e da Casa da Cultura. Colaborou com o Museu Regional. Participou da administração pública como Coordenador de Atividades Culturais da Secretaria Municipal de Educação e Cultura entre 1977 e 1982. Em cada uma dessas frentes, trabalhou para que a cultura deixasse de ser uma atividade periférica e passasse a ser reconhecida como parte essencial da vida pública.
Sua morte, em 24 de maio de 2004, foi sentida como uma perda coletiva. Vitória da Conquista declarou luto oficial por três dias.
A Câmara Municipal o homenageou anos depois, reconhecendo-o como patrimônio da região e defendendo a preservação de sua memória literária. Uma escola municipal no bairro Vila América leva seu nome. Não se trata de uma homenagem meramente decorativa. Há uma coerência profunda em ver o nome de um professor inscrito na fachada de uma escola. É como se a cidade dissesse às novas gerações que educar e lembrar são duas formas de construir o futuro.
Uma memória que precisa continuar viva
Mas uma placa não basta. Uma cidade não honra verdadeiramente seus intelectuais apenas quando dá seus nomes a ruas, escolas ou salas. Honra-os quando mantém seus livros acessíveis, quando publica seus manuscritos, quando preserva seus arquivos, quando estimula os jovens a lerem suas obras e quando compreende que a cultura local não é um adorno para cerimônias oficiais. É uma das bases da cidadania.
A permanência de manuscritos importantes em situação incerta é mais do que um problema editorial. É um sinal de como ainda tratamos nossa memória. Há cidades que compreendem seus arquivos como tesouros públicos. Outras deixam que livros, fotografias, cartas e documentos desapareçam em gavetas, mudanças de sede e acervos sem inventário. Vitória da Conquista precisa escolher de que lado deseja estar.
“No aniversário de 90 anos que Mozart não pôde celebrar, a melhor homenagem não é transformar sua lembrança em discurso passageiro. É fazer com que sua obra volte a circular.”
É promover uma edição crítica de História de Conquista. É localizar, catalogar e digitalizar seus manuscritos. É reunir sua produção jornalística e literária. É aproximar seu nome das escolas, das universidades, das bibliotecas e dos leitores. É permitir que o professor que ensinou a cidade a olhar para trás continue ensinando os jovens a olhar adiante.
Mozart Tanajura compreendeu uma verdade que muitas vezes esquecemos: nenhuma cidade é feita apenas de avenidas, edifícios e estatísticas. Uma cidade é feita também das histórias que decide guardar. Quando um povo perde os nomes de seus escritores, os livros de seus memorialistas e os vestígios de seus antigos moradores, não perde apenas o passado. Perde instrumentos para compreender o presente.
Por isso, lembrar Mozart Tanajura em seus 90 anos é lembrar Vitória da Conquista em sua própria consciência. É reconhecer que a cidade não começou ontem, que sua identidade não cabe em slogans e que o futuro não precisa ser construído contra a memória. Ao contrário: o futuro mais digno é aquele que sabe de onde veio.
Mozart partiu em 2004, mas não terminou de morrer. Continua vivo nos livros que escreveu, nos casarões que tentou proteger, nos autores que ajudou a resgatar, nos alunos que um dia ouviram sua voz e na cidade que ainda consulta suas páginas para entender a si mesma.
No dia 14 de setembro, quando ele teria completado 90 anos, Vitória da Conquista deveria fazer mais do que recordar um aniversário. Deveria renovar um compromisso. O compromisso de não deixar que Mozart Tanajura, o professor que transformou memória em responsabilidade, seja reduzido a um nome numa placa.
Ele merece permanecer como aquilo que realmente foi: uma das consciências literárias e históricas de Vitória da Conquista.
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Artigo: Padre Carlos



