Fé & Política
A verdade também é um valor cristão
Por Padre Carlos Josaphat — Política e Resenha
Há algo profundamente preocupante no Brasil de nossos dias: a transformação da fé religiosa em instrumento de disputa política. Valores que deveriam aproximar as pessoas, estimular a fraternidade e alimentar a consciência moral estão sendo, muitas vezes, utilizados para alimentar conflitos, produzir indignação e dividir a sociedade. E talvez um dos aspectos mais delicados desse fenômeno seja a facilidade com que determinados acontecimentos são retirados de seu contexto e apresentados como ameaças à própria existência do cristianismo.
O caso dos desenhos bíblicos
O episódio envolvendo a classificação indicativa dos desenhos bíblicos exibidos pela Rede Record é um exemplo bastante ilustrativo dessa realidade.
Em 28 de outubro, o Ministério da Justiça alterou a classificação indicativa do programa Record Kids – Desenhos Bíblicos, passando de Livre para não recomendado para menores de 12 anos. A decisão provocou questionamentos legítimos, especialmente porque se tratava de uma produção infantil baseada em passagens do Antigo e do Novo Testamento. Havia motivos para cobrar explicações do governo, questionar os critérios técnicos utilizados e exigir coerência na aplicação das regras de classificação indicativa.
E foi exatamente isso que aconteceu. No dia 3 de novembro, o próprio Ministério da Justiça reconheceu que a avaliação anterior não havia considerado integralmente os critérios de sua metodologia, especialmente os aspectos culturais e religiosos e as características da animação infantil. A decisão foi revista, e a classificação Livre foi restabelecida.
Esse reconhecimento é importante. Uma administração pública precisa responder por seus atos, corrigir equívocos e prestar contas à sociedade. Não existe problema algum em admitir que uma decisão administrativa foi inadequada. Pelo contrário: reconhecer erros e corrigi-los é uma demonstração de responsabilidade institucional.
Crítica legítima não é perseguição
Entretanto, existe uma diferença enorme entre criticar uma decisão administrativa equivocada e transformar o episódio em uma suposta perseguição do Estado à fé cristã.
A classificação indicativa não significava proibição dos desenhos, tampouco impedia que crianças assistissem às histórias bíblicas. Tratava-se de uma recomendação etária, destinada a orientar pais e responsáveis. Essa distinção não é um detalhe secundário: é justamente o elemento que separa a informação verdadeira de uma narrativa construída para provocar medo e indignação.
O que me preocupa, portanto, não é a defesa dos valores cristãos. Essa defesa é legítima e necessária em uma sociedade democrática. O que merece reflexão é a utilização desses valores como combustível para disputas partidárias, como se qualquer questionamento administrativo envolvendo uma produção religiosa representasse, automaticamente, um ataque à Igreja, à Bíblia ou à liberdade de crença.
A fé cristã não pode ser reduzida a uma bandeira eleitoral. O Evangelho não é propriedade de partidos, governos, movimentos ideológicos ou lideranças políticas. Jesus Cristo não precisa de campanhas de desinformação para que sua mensagem seja defendida.
Há uma contradição particularmente dolorosa quando pessoas que se apresentam como defensoras do cristianismo compartilham informações incompletas ou distorcidas para fortalecer suas posições políticas. Afinal, de que adianta proclamar a defesa da verdade enquanto se contribui para sua manipulação?
A verdade não pode ser seletiva
No Evangelho de João, encontramos uma passagem que deveria orientar nossa reflexão:
“Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”
— João 8,32
A verdade não pode ser seletiva. Não podemos exigir transparência dos adversários e tolerar a desinformação dos aliados. Não podemos condenar a manipulação quando ela parte de um campo político e justificá-la quando favorece nossas convicções. A ética cristã exige coerência, inclusive quando a realidade contraria nossas preferências ideológicas.
Isso também vale para o governo. Uma decisão equivocada do Ministério da Justiça não deve ser escondida, relativizada ou transformada em algo irrelevante apenas porque foi posteriormente corrigida. O episódio merece fiscalização, debate público e avaliação dos critérios utilizados pela administração. Mas reconhecer a correção da decisão também é uma obrigação de quem pretende fazer uma análise honesta dos acontecimentos.
O que está em jogo
Não estou defendendo o governo Lula, tampouco fazendo oposição por princípio. Estou defendendo algo muito mais importante: o direito da sociedade de conhecer os fatos sem que eles sejam sequestrados pelas conveniências da política.
O Brasil precisa recuperar a capacidade de distinguir crítica de acusação, erro administrativo de perseguição religiosa, divergência política de ameaça à liberdade. Uma democracia não se fortalece pela fabricação de inimigos, mas pela responsabilidade de seus cidadãos, pela liberdade de expressão e pelo compromisso com a verdade.
Liberdade religiosa e pensamento crítico
A liberdade religiosa é uma conquista civilizatória. Deve ser protegida para cristãos, judeus, muçulmanos, espíritas, religiões de matriz africana e também para aqueles que não professam religião alguma. O Estado democrático não deve privilegiar uma crença nem perseguir outra. Deve garantir a todos o direito de acreditar, manifestar sua fé e transmitir seus valores, respeitados os direitos fundamentais.
A defesa do cristianismo, portanto, não pode significar a renúncia ao pensamento crítico. Pelo contrário, quanto mais elevados são os valores que professamos, maior deve ser nossa responsabilidade com aquilo que dizemos e compartilhamos.
A Bíblia merece respeito. A liberdade religiosa merece proteção. Os valores da família e da tradição cristã merecem ser debatidos e defendidos. Mas nada disso autoriza transformar um acontecimento administrativo corrigido pelo próprio governo em prova de uma perseguição religiosa que os fatos não demonstram.
Talvez seja hora de lembrar que a maior ameaça à credibilidade de uma causa não venha necessariamente de seus adversários, mas das contradições daqueles que afirmam defendê-la.
A fé não precisa da mentira. O cristianismo não precisa do ódio. E a política não pode exigir que abandonemos nossa consciência em nome de uma bandeira partidária.
A verdade também é um valor cristão. E não podemos abrir mão dela justamente quando acreditamos estar defendendo Deus.
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Padre Carlos — Teólogo, filósofoe colunista político — Política e Resenha





