Política e Resenha

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Mãe Menininha do Gantois: história, liderança, memória e legado

Política e Resenha · História e Cultura

Por Padre Carlos — Política e Resenha

Introdução

Ao assistir ao documentário Mãe Menininha — Estrela de Gantois, compreendi que estava diante de uma história que merecia ser revisitada com mais profundidade. A trajetória dessa extraordinária ialorixá não se limita à biografia de uma mulher que se tornou referência no Candomblé brasileiro. Ela nos conduz à história de um povo, à resistência de uma cultura, à preservação de uma ancestralidade e à luta contra o preconceito religioso que, durante séculos, tentou silenciar as tradições de matriz africana no Brasil. Mãe Menininha do Gantois foi muito mais que uma liderança religiosa: foi uma guardiã da memória, da identidade e da dignidade de seu povo. Por isso, senti a necessidade de escrever este artigo, não apenas para homenagear sua grandeza, mas para compreender melhor o universo cultural, espiritual e histórico que ela representou e ajudou a manter vivo. Conhecer Mãe Menininha é também reconhecer uma parte fundamental da história da Bahia e da própria formação da identidade brasileira.

Mãe Menininha do Gantois foi o nome religioso de Maria Escolástica da Conceição Nazaré — também grafada Nazareth em algumas fontes —, ialorixá do Ilê Iyá Omi Axé Iyámase, conhecido como Terreiro do Gantois, em Salvador. As fontes consultadas convergem quanto ao período de sua vida, 1894–1986, e quanto à sua liderança do terreiro entre 1922 e 1986, mas divergem em detalhes de nascimento, iniciação, numeração na linhagem sacerdotal e cronologia institucional. Por isso, este relatório diferencia o que é sustentado por documentação histórica ou institucional, o que pertence à memória oral e religiosa do Gantois e o que corresponde a interpretações de pesquisadores, jornalistas ou agentes públicos.

A trajetória de Mãe Menininha não pode ser separada da história mais ampla do candomblé baiano: uma história marcada pela diáspora africana, pela formação de redes entre africanos e seus descendentes, pela repressão policial e jurídica e, mais tarde, pela transformação de terreiros em referências culturais e patrimoniais. Seu reconhecimento público resultou de sua autoridade religiosa, mas também de relações com artistas, escritores, intelectuais, políticos e instituições que contribuíram para deslocar a imagem do candomblé do campo da criminalização para o da cultura e do patrimônio.

Como ler este artigo

Três camadas atravessam a história do Gantois e precisam ser mantidas distintas: o que a documentação histórica ou institucional sustenta; o que pertence à memória oral e religiosa da casa; e o que corresponde a interpretações de pesquisadores, jornalistas ou agentes públicos. Registrar o grau de certeza de cada afirmação não enfraquece a biografia — é o que a torna honesta.

1. O que era e é o Gantois

1.1 Nome, localização e função

O Gantois é uma casa de candomblé situada no bairro da Federação, em Salvador, atualmente na Rua Mãe Menininha do Gantois, nº 23. Seu nome ritual aparece com variantes como Ilê Iyá Omi Axé, Ilê Iyá Omi Àse Iyámase e Ilê Iyá Omi Axé Iyamassê. A Prefeitura de Salvador o apresenta como espaço religioso, cultural e comunitário ligado à preservação de saberes de matriz iorubá. A própria instituição o identifica como Terreiro do Gantois e preserva uma linhagem de ialorixás, objetos, narrativas, práticas e relações de parentesco ritual.

O Gantois não deve ser entendido apenas como um edifício ou como um local de culto. Ele é uma comunidade religiosa organizada em torno de obrigações, iniciações, cargos, relações de parentesco e transmissão de conhecimentos. A etnografia de Clara Flaksman ajuda a compreender essa organização ao mostrar que, no candomblé, o parentesco de sangue se articula ao parentesco de santo: a iniciação, a convivência, as obrigações e a relação com os orixás produzem vínculos que não se reduzem à descendência biológica.

Essa observação é especialmente importante no caso do Gantois, cuja continuidade costuma ser descrita por meio de uma sucessão familiar de mulheres. A sucessão é, de fato, um elemento central da memória institucional da casa, mas a permanência de um terreiro envolve também reconhecimento ritual, formação de iniciados, transmissão musical, manutenção de objetos e assentamentos, administração comunitária e capacidade de negociar sua presença no espaço público.

1.2 Fundação: 1849, “por volta de 1850” e os limites da cronologia

A data de 1849 é a data institucional e tradicional mais difundida para a fundação do Gantois por Maria Júlia da Conceição Nazareth. Ela aparece em páginas da Prefeitura, da Secretaria de Cultura da Bahia e do próprio terreiro. Entretanto, a pesquisa histórica de Lisa Earl Castillo recomenda cautela. Cruzando registros paroquiais, jornais, testamentos, dados genealógicos e etnografia, Castillo não encontrou documento que estabeleça com precisão o dia ou o ano do arrendamento do terreno ou da construção do barracão. Sua formulação mais prudente é a de uma fundação “por volta de 1850”.

O primeiro registro jornalístico localizado por Castillo que menciona uma comunidade religiosa no local é uma matéria de O Alabama, de 4 de janeiro de 1868, sobre “tia Júlia no Moinho”. Outra notícia, de 1871, menciona uma festa do inhame novo. Esses registros comprovam que havia um terreiro associado a Júlia na década de 1860, mas não transformam 1849 em uma data documentalmente definitiva.

A fundadora, Maria Júlia da Conceição, aparece nos registros reunidos por Castillo como africana escravizada em 1839 e liberta em registros posteriores. Seu marido, Francisco Nazareth d’Etra — também grafado D’Eta em algumas fontes —, aparece como africano liberto. Castillo identifica Júlia como nagô/iorubá e Francisco como jeje, chamando atenção para influências jejes nos primeiros tempos da comunidade. Essa reconstrução impede que o Gantois seja descrito como reprodução homogênea de uma única origem africana: trata-se de uma formação diaspórica, urbana e socialmente complexa.

A tradição do terreiro associa Francisco a um assentamento antigo de Ogum e reivindica que a casa teria se formado ainda durante sua vida, antes de sua morte em 1859. Castillo considera essa hipótese plausível, mas não comprovada por um documento que fixe a data. Assim, a formulação mais responsável é: 1849 pertence à narrativa institucional e à memória do Gantois; “por volta de 1850” é uma síntese historiográfica baseada no cruzamento das evidências; e os documentos disponíveis demonstram a existência de uma comunidade de Júlia ao menos em 1868.

1.3 Relação com a Casa Branca e pluralidade de origens

A relação entre o Gantois e o Ilê Axé Iyá Nassô Oká, conhecido como Casa Branca ou Engenho Velho, é um dos pontos mais discutidos da história dos terreiros baianos. Uma narrativa registrada por Edison Carneiro afirma que o Gantois teria surgido de uma cisão ligada a uma disputa sucessória na Casa Branca. Mãe Menininha, porém, contestava essa versão: segundo sua memória, Gantois e Casa Branca seriam ramos de um tronco mais antigo, ligado à Barroquinha, e Maria Júlia seria “irmã de santo, e não filha de santo” de Marcelina Obatossi.

A documentação reunida por Castillo torna problemática uma narrativa linear segundo a qual a fundação do Gantois teria ocorrido apenas depois da morte de Marcelina. Uma notícia de 1868 menciona o terreiro de Júlia, enquanto o testamento de Marcelina indica que ela morreu em 1885. Isso sugere que as relações entre as casas e suas linhagens eram mais antigas e complexas do que uma simples ruptura posterior. A conclusão não é que uma tradição deva ser descartada, mas que ela deve ser apresentada como memória histórica situada, confrontada com jornais, registros paroquiais e outros documentos.

Também é preciso evitar o uso indiferenciado de “nagô”, “iorubá” e “ketu”. Essas categorias podem expressar identidades religiosas, heranças culturais e formas de organização da memória, mas não provam automaticamente a origem territorial direta de todos os fundadores. Para o Gantois, a evidência específica sustenta uma fundadora nagô/iorubá e influências jejes relevantes. A pesquisa sobre a chamada nação ketu mostra, em termos mais amplos, que “ketu” pode designar uma identidade religiosa e histórica heterogênea, não uma genealogia simples de todos os seus membros.

1.4 O Gantois na atualidade

O Gantois permanece simultaneamente como casa religiosa, espaço de memória, comunidade e referência patrimonial. A Prefeitura registra a existência do Centro Comunitário Mãe Carmen, inaugurado em março de 2019, ligado a ações comunitárias da casa. O Memorial Mãe Menininha, estruturado segundo o cadastro institucional em 1992, reúne mais de 500 peças, entre documentos, fotografias, mobiliário, pinturas, indumentárias, joias, porcelanas e objetos rituais. Como o próprio cadastro informa que os dados são de responsabilidade da instituição, esses números devem ser entendidos como informação institucional, não como resultado de inventário independente.

A musealização do espaço também foi analisada por Maria Paula Adinolfi e Mattijs van de Port. Para os autores, o museu não simplesmente retira os objetos do universo religioso: ele rearticula a sacralidade, a memória e o prestígio da casa em uma linguagem patrimonial. Essa formulação ajuda a compreender por que o Gantois pode ser, ao mesmo tempo, lugar de culto e espaço de visitação e preservação, sem que uma dimensão elimine necessariamente a outra.

2. Biografia e liderança de Mãe Menininha

2.1 Nome, nascimento e família

Mãe Menininha nasceu como Maria Escolástica da Conceição Nazaré, nome que também aparece como Maria Escolástica da Conceição Nazareth. A Oxford Research Encyclopedia registra o período 1894–1986. A data de nascimento mais consistente nas fontes jornalísticas e institucionais consultadas é 10 de fevereiro de 1894, em Salvador. A BBC relaciona essa data à comemoração de seus 90 anos, em 10 de fevereiro de 1984. Há, contudo, páginas e efemérides que registram 10 de setembro; como não foi localizada certidão de nascimento aberta, o dia deve ser apresentado com essa ressalva.

A BBC informa que ela era filha única de Maria da Glória e Joaquim Assunção e bisneta de Maria Júlia da Conceição Nazareth, apresentada como fundadora do Gantois. A relação de descendência integra tanto a genealogia familiar quanto a memória institucional do terreiro. Ainda assim, a ausência de registro civil de nascimento e de documentação sucessória aberta recomenda que a filiação seja atribuída às fontes, em vez de tratada como reconstituída independentemente.

Mãe Menininha foi casada com Álvaro MacDowell de Oliveira, advogado que apoiou suas lutas, sem ocupar cargo religioso no terreiro. O casal teve duas filhas, Cleusa e Carmem. Cleusa sucedeu a mãe na condução da casa em um período posterior; Carmem tornou-se Mãe Carmen e dirigiu o Gantois depois da morte de Cleusa.

2.2 Iniciação e formação religiosa

A tradição do Gantois afirma que Mãe Menininha foi iniciada ainda bebê por Pulquéria Maria da Conceição, sua tia-avó e madrinha de batismo. As versões encontradas, porém, variam: algumas falam em seis meses, outras em oito, e divergem quanto ao orixá associado à iniciação, mencionando Oxum ou Obaluaiê. Não foi localizado registro ritual primário aberto capaz de resolver essas diferenças.

Por isso, é seguro afirmar que sua formação religiosa ocorreu no ambiente familiar e comunitário do Gantois. Já a iniciação neonatal e a identificação de um orixá específico devem ser apresentadas como elementos da tradição oral e da memória religiosa do terreiro. A designação “filha de Oxum” aparece com força na recepção pública e na iconografia cultural de Menininha, mas não deve ser convertida, sem fonte ritual primária, em dado documental inequívoco.

O próprio apelido “Menininha” também tem explicações divergentes. A BBC registra que nem a própria ialorixá sabia precisar sua origem. Essa incerteza é instrutiva: nomes religiosos, histórias de iniciação e explicações sobre a vocação sacerdotal podem circular em versões diferentes sem que isso diminua sua importância para a comunidade. O trabalho histórico deve conservar essa pluralidade em vez de escolher uma versão apenas porque se tornou mais popular.

2.3 A posse em 1922 e os 64 anos de liderança

Mãe Menininha assumiu a liderança do Gantois em fevereiro de 1922, aos 28 anos, sucedendo Pulquéria Maria da Conceição. A BBC e o PET-História/USP afirmam que ela permaneceu no posto por 64 anos, até 1986. Algumas referências secundárias especificam 18 de fevereiro de 1922, mas essa precisão não foi confirmada por documento primário aberto. A forma mais segura é, portanto, “em fevereiro de 1922”.

Há divergência sobre sua posição na numeração da linhagem. A BBC a chama de terceira ialorixá do Gantois; a página institucional do terreiro inclui Maria da Glória como terceira e Menininha como quarta. A diferença pode decorrer de critérios distintos: inclusão de ocupantes interinas, distinção entre sucessão formal e exercício efetivo, ou organização genealógica própria da casa. Não é metodologicamente adequado escolher uma contagem como definitiva sem consultar o livro sucessório e os arquivos do Gantois.

Sua liderança coincidiu com décadas de repressão e mudança social. A casa precisava manter a continuidade ritual em um ambiente no qual o candomblé era submetido a licenças, taxas, restrições e operações policiais. A atuação de Menininha combinou autoridade religiosa, cuidado com a comunidade, relações pessoais e capacidade de circular fora do terreiro. Essa combinação contribuiu para que o Gantois se tornasse conhecido nacionalmente, mas não significa que ela tenha, sozinha, encerrado a repressão ou produzido uma mudança legal isolada.

2.4 Trabalho, família e projeção pública

Além de ialorixá, Menininha trabalhou, segundo a biografia oficial do terreiro e entrevistas reunidas pela BBC, como quituteira, costureira, modista e doceira. Esses dados devem ser atribuídos a essas fontes, pois não foram encontrados registros trabalhistas independentes.

Sua imagem pública foi construída por diferentes agentes: a comunidade do Gantois, jornalistas, pesquisadores, artistas, políticos, escritores e instituições culturais. A expressão “maior mãe de santo do Brasil”, recorrente em títulos de imprensa, e fórmulas como “ialorixá das ialorixás” são avaliações hagiográficas, jornalísticas ou comemorativas. Elas ajudam a estudar a recepção de Menininha, mas não são medidas objetivas de sua importância.

Mãe Menininha morreu em Salvador em 13 de agosto de 1986, aos 92 anos. A causa da morte não foi confirmada por certidão ou obituário primário aberto na pesquisa. Por isso, não se deve afirmar “causas naturais”, insuficiência cardíaca, insuficiência renal ou qualquer outra causa específica sem documentação adicional.

3. Contexto histórico do candomblé baiano

3.1 Escravidão, liberdade e redes afro-atlânticas

O Gantois se formou em Salvador em uma sociedade marcada pela escravidão, pela presença de africanos libertos e pela circulação de pessoas, objetos, crenças e práticas no Atlântico. A pesquisa de Castillo mostra Maria Júlia e Francisco Nazareth como pessoas atravessadas por essas condições: ela aparece primeiro como escravizada e depois como liberta; ele, como africano liberto.

A comunidade não foi uma cópia estática de uma África única. A fundadora é identificada como nagô/iorubá, enquanto seu marido era jeje; evidências etnográficas e documentais apontam para influências jejes nos primeiros tempos do Gantois. A formação do terreiro deve ser descrita, portanto, como resultado de redes africanas e afro-brasileiras, alianças familiares, relações de vizinhança e reorganização religiosa em Salvador.

A documentação oitocentista é desigual. Registros paroquiais e jornais podem nomear homens, proprietários, casamentos, batismos e episódios públicos, mas tendem a omitir ou deformar práticas religiosas negras, sobretudo em razão do preconceito e da repressão. As tradições orais preservadas pelo Gantois são indispensáveis para reconstruir nomes, vínculos, assentamentos e relações de santo; porém, como observa Castillo, elas são interpretações mutáveis do passado e precisam ser cruzadas criticamente com a documentação.

3.2 O Código Penal de 1890 e a criminalização indireta

O Código Penal republicano de 1890 não usava a palavra “candomblé” como categoria jurídica. Seus artigos 156 a 158 criminalizavam práticas formuladas como exercício ilegal da medicina, espiritismo, magia, sortilégios e curandeirismo. O artigo 157, por exemplo, punia a prática de espiritismo, magia e sortilégios para fascinar ou subjugar a credulidade pública; o artigo 158 tratava de ministrar ou prescrever substâncias como curandeiro.

A distinção é importante. Não é correto afirmar simplesmente que o Código “proibiu nominalmente o candomblé”. O que ocorreu foi a criação de categorias jurídicas que podiam ser aplicadas a práticas religiosas afro-brasileiras, especialmente quando autoridades policiais e judiciais as enquadravam como superstição, magia ou curandeirismo.

3.3 Repressão policial e desigualdade

Estudos sobre a Bahia das décadas de 1920 a 1940 documentam a articulação entre polícia, imprensa, medicina e psiquiatria na perseguição ao candomblé. Pesquisas sobre 1920–1930 mencionam batidas, apreensões, internações no Hospital Juliano Moreira e a falta frequente de registros formais das ações policiais. Angela Lühning, ao estudar o período de 1920 a 1942, advertiu que é necessário distinguir “mito e realidade” nas narrativas sobre o delegado Pedrito, evitando transformar uma memória popular complexa em relato uniforme de toda a repressão.

Esses estudos oferecem o contexto para entender as escolhas de Mãe Menininha, mas não autorizam projetar automaticamente cada operação policial sobre o Gantois. Uma batida documentada em outro terreiro não prova que o Gantois tenha sido alvo da mesma ação. A história da repressão deve preservar essa diferença entre contexto geral, episódio específico e memória posterior.

3.4 Da vigilância ao patrimônio

Ao longo do século XX, houve uma mudança gradual nas formas de reconhecimento público das religiões afro-brasileiras. O Gantois passou de um ambiente em que práticas religiosas eram submetidas a vigilância e licenciamento para um cenário em que a casa é apresentada como patrimônio cultural, espaço de memória e referência turística. O reconhecimento patrimonial não apaga a repressão anterior nem significa que a intolerância religiosa tenha terminado; ele indica uma mudança no regime institucional de legitimidade.

Há divergência nos materiais consultados sobre o ano exato do tombamento federal do Gantois. A página institucional do terreiro menciona a Portaria nº 683, de 17 de dezembro de 2002; Castillo registra o reconhecimento nacional em 2002; estudo institucional do IPHAN lista o terreiro em 2005. Essas datas podem corresponder a etapas distintas — ato, processo, inscrição ou forma de registro —, mas não devem ser harmonizadas sem consulta ao processo administrativo, ao Livro do Tombo e à publicação oficial.

4. Relações sociais, políticas e religiosas

4.1 Abertura social e circulação de visitantes

A notoriedade de Mãe Menininha foi construída em redes concretas de sociabilidade. A BBC registra a presença ou a circulação no Gantois de Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia, Jorge Amado, Gilberto Gil, Carybé e Pelé, além de autoridades políticas. Essas relações ajudaram a projetar a casa no espaço público e contribuíram para que o candomblé fosse associado não apenas à repressão policial, mas também à música, à literatura, à arte e à identidade baiana.

A presença de uma pessoa no terreiro não prova iniciação, adesão doutrinária ou compromisso político sistemático. Expressões jornalísticas como “mãe de santo de” podem ser usadas de modo amplo. É mais seguro dizer que Menininha recebeu, aconselhou ou manteve relações com pessoas de diferentes campos sociais, sem atribuir a todas elas uma mesma posição religiosa.

A abertura a pessoas brancas, católicas e de classes sociais diversas é registrada pelo ISER, que também relata o diálogo de Menininha com bispos sobre o uso de trajes afro-brasileiros em igrejas. Esse trânsito deve ser compreendido como negociação de legitimidade e sobrevivência social, não automaticamente como fusão doutrinária ou prova de uma “dupla pertença” universal.

4.2 Política, patronagem e negociação

Fontes jornalísticas e institucionais situam Menininha em uma rede que incluía políticos de diferentes épocas e posições, entre eles Antônio Carlos Magalhães, João Durval Carneiro e outras autoridades mencionadas pela BBC. A existência dessas relações demonstra acesso transversal a campos políticos rivais, mas não permite concluir que todos fossem aliados programáticos do candomblé ou que houvesse clientelismo em sentido estrito.

A categoria analítica mais prudente é a de patronagem ou reciprocidade informal, desde que qualificada: autoridades podiam buscar conselho, prestígio ou reconhecimento; o terreiro podia buscar proteção, margem de segurança e reconhecimento institucional. Isso não significa que houvesse pagamentos, troca formal de favores ou controle eleitoral pelo Gantois. Tampouco a proximidade com elites protegeu igualmente todos os terreiros da repressão.

O ISER e a BBC atribuem a Menininha papel importante na articulação que teria contribuído para a abolição, em 1976, da exigência de licença e taxas para as casas de candomblé no regime de Jogos, Costumes e Diversões Públicas, durante o governo de Roberto Santos. A monografia de João Vitor Braga Rosa interpreta a trajetória de 1967 a 1986 como combinação de estratégias políticas, mídia, alianças e uso público da imagem de Menininha.

Essa causalidade deve ser formulada com cuidado. As fontes sustentam que Menininha foi apresentada como articuladora e que sua circulação política fazia parte do contexto da mudança; não foi localizado, nos dossiês, o decreto, a ata ou a correspondência que permita demonstrar que uma única pessoa produziu isoladamente a alteração legal. O resultado deve ser entendido como processo político mais amplo, no qual a atuação do Gantois é uma dimensão relevante, não uma causa única comprovada.

4.3 Relação com o catolicismo

A relação de Menininha com o catolicismo é descrita como pragmática e atravessada por tensões. Fontes registram que ela frequentava missas, era devota de Santa Escolástica e se dizia católica. O antropólogo Rodney William Eugênio interpreta esse trânsito como uma estratégia de sobrevivência em ambiente de perseguição. O ISER relata ainda que ela teria dialogado com bispos baianos sobre a possibilidade de mulheres usarem roupas tradicionais de matriz africana em igrejas.

A documentação disponível não informa, com precisão primária, quais bispos autorizaram quais trajes e em que datas. Por isso, é melhor falar em negociação social e religiosa relatada por fontes secundárias do que em acordo institucional plenamente documentado. A relação também não deve ser reduzida à oposição entre “catolicismo verdadeiro” e “candomblé verdadeiro”: para as pessoas envolvidas, práticas, devoções e identificações podiam ocupar espaços sociais distintos.

4.4 Movimento negro e limites da evidência

A defesa pública da dignidade negra, dos saberes afro-brasileiros e da liberdade religiosa aproxima a trajetória de Menininha de pautas posteriormente associadas ao movimento negro. Contudo, não foi localizada documentação suficiente para afirmar filiação formal ao Movimento Negro Unificado ou a outras organizações. É possível falar em convergência política e histórica, mas não em participação orgânica sem fonte específica.

5. Legado cultural

5.1 Música

A representação musical mais documentada é “Oração de Mãe Menininha”, de Dorival Caymmi. A Discografia Brasileira registra a música no LP Caymmi – 1972 e relaciona a composição a numerosas gravações posteriores. A BBC confirma a homenagem de Caymmi em 1972 e menciona regravações por Maria Bethânia e Gal Costa.

Há uma divergência entre 1972 e 1973 em fontes de divulgação. A formulação mais precisa é distinguir os referentes: 1972 corresponde ao LP original de Caymmi; 1973 é associado, em fonte de divulgação, ao show ou LP Phono 73, em que a música teria sido interpretada por Gal Costa e Maria Bethânia.

A letra apresenta o Gantois como lugar de beleza, consolo, doçura e devoção a Oxum. Essa imagem foi decisiva para o imaginário público de Menininha, mas também transformou uma liderança religiosa concreta em símbolo cultural. O resultado é ambivalente: a canção amplia a visibilidade do candomblé, mas pode suavizar ou ocultar a história de repressão, trabalho comunitário e disputa por reconhecimento.

A BBC também associa a Caetano Veloso a composição “Bahia, Minha Preta”, de 1993, conhecida na voz de Gal Costa, com referências a Menininha. Trata-se de mais um exemplo de como a ialorixá passou a ocupar o repertório de representação da Bahia.

5.2 Carnaval, literatura e imprensa

Em 1976, a Mocidade Independente de Padre Miguel apresentou o enredo “Mãe Menininha do Gantois”. A BBC menciona a homenagem, Arlindo Rodrigues e as vozes de Elza Soares e Ney Vianna; registros carnavalescos distinguem o carnavalesco e autor do enredo dos compositores musicais. Não se deve atribuir todo o samba-enredo a Arlindo Rodrigues sem separar essas funções.

Em 2017, a Vai-Vai homenageou Menininha com o enredo “No Xirê do Anhembi, a Oxum mais bonita surgiu – Menininha, Mãe da Bahia – Ialorixá do Brasil”. A repetição dessas homenagens mostra que sua imagem foi incorporada a repertórios nacionais de cultura popular, muito além do espaço baiano.

Jorge Amado foi central para a construção literária de Menininha como emblema da identidade baiana. A BBC reproduz formulações de Bahia de Todos-os-Santos nas quais o escritor a chama de “ialorixá de todo o povo da Bahia” e afirma que ela estaria acima de divergências religiosas e sociais. Essas frases são representações literárias, não medições sociológicas. Elas devem ser estudadas como parte do processo de canonização cultural de Menininha.

“Ialorixá de todo o povo da Bahia.”
Jorge Amado, em Bahia de Todos-os-Santos, conforme reproduzido pela BBC — uma representação literária, não uma medição sociológica.

5.3 Memória, patrimônio e turismo

O Memorial Mãe Menininha preserva objetos e documentos e participa da construção pública da memória do Gantois. O cadastro do Ibram descreve mais de 500 peças e define o Memorial como testemunho das trajetórias religiosas e sociais associadas à casa. A preservação, entretanto, não elimina a necessidade de discutir procedência, critérios de inventário, acesso e relação entre objetos musealizados e objetos sagrados.

A Prefeitura de Salvador informou que a Galeria Mercado, inaugurada em 2024, homenageia Mãe Menininha ao lado de Camafeu de Oxóssi e Mãe Senhora, integrando memória afro-brasileira, identidade soteropolitana e turismo cultural. A mesma notícia quantifica visitantes de um conjunto de equipamentos culturais da cidade; não se deve transformar esse número em estatística de visitação do Memorial ou do Gantois isoladamente.

A patrimonialização é, portanto, uma forma de reconhecimento e também de enquadramento. Ela protege, divulga e torna acessível, mas pode selecionar imagens, simplificar conflitos e privilegiar a figura excepcional da ialorixá. O legado de Menininha deve incluir tanto a imagem pública quanto as práticas menos visíveis: transmissão ritual, educação, música, relações comunitárias e manutenção da autonomia religiosa.

6. Cronologia

Data/período Evento ou processo Grau de segurança e fonte
1839 e anos seguintes Maria Júlia aparece em registros paroquiais como africana escravizada e posteriormente liberta; Francisco Nazareth d’Etra aparece como africano liberto. Documentação reunida e interpretada por Castillo.
1849 Data institucional/tradicional da fundação do Gantois por Maria Júlia da Conceição Nazareth. Narrativa institucional; não é data documentalmente definitiva.
Por volta de 1850 Formulação historiográfica cautelosa para a formação da comunidade, a partir do cruzamento de documentos e etnografia. Interpretação de Castillo.
Antes de 1859 Tradições do Gantois reivindicam a existência da casa ainda durante a vida de Francisco Nazareth, falecido em 1859. Tradição oral considerada plausível, mas não comprovada por documento de datação exata.
4 de janeiro de 1868 O Alabama noticia o terreiro de “tia Júlia no Moinho”. Registro jornalístico oitocentista localizado por Castillo.
Novembro de 1871 Notícia sobre festa do inhame novo ligada ao terreiro. Registro jornalístico citado por Castillo.
1885 Morte de Marcelina da Silva, segundo testamento localizado após a morte de Mãe Menininha. Documento usado por Castillo para revisar a cronologia da relação com a Casa Branca.
1890 Código Penal republicano enquadra espiritismo, magia, sortilégios e curandeirismo em dispositivos usados na repressão a práticas religiosas afro-brasileiras. Texto legal.
10 de fevereiro de 1894 Data de nascimento mais consistente de Maria Escolástica da Conceição Nazaré, em Salvador. Convergência jornalística; falta certidão aberta. Há variante de 10 de setembro.
Décadas de 1920–1940 Intensificação documentada de perseguições policiais, médicas e jornalísticas ao candomblé baiano. Contexto histórico geral; não atribuir cada operação ao Gantois.
Fevereiro de 1922 Mãe Menininha assume a liderança do Gantois aos 28 anos, sucedendo Pulquéria. Convergência de BBC e PET-História/USP; o dia 18 não foi confirmado.
1972 Dorival Caymmi lança “Oração de Mãe Menininha” no LP Caymmi – 1972. Discografia Brasileira e BBC.
1973 Data associada por fonte de divulgação ao show/LP Phono 73, não necessariamente ao lançamento original da canção. Distinção cronológica necessária.
1976 A legislação de licença e taxas aplicada às casas de candomblé é apresentada por fontes como abolida no governo Roberto Santos; Menininha é atribuída como articuladora em narrativas jornalísticas e institucionais. Fato institucional alegado pelas fontes; causalidade individual não demonstrada por documento primário no dossiê.
1984 Celebração dos 90 anos de Mãe Menininha em 10 de fevereiro, segundo a BBC. Registro jornalístico.
13 de agosto de 1986 Morte de Mãe Menininha em Salvador, aos 92 anos. Data e local convergentes; causa não confirmada.
1989–1998 Período atribuído por reportagem do g1 à liderança de Cleusa; as fontes distinguem falecimento, designação e assunção efetiva. Cronologia jornalística com lacunas.
1992 Estruturação do Memorial Mãe Menininha segundo cadastro institucional. Informação de cadastro; requer consulta ao inventário e aos arquivos.
1998–2002 Transição entre a liderança de Cleusa e a assunção de Carmen, conforme diferentes cronologias. Datas institucionais e jornalísticas não inteiramente coincidentes.
2002/2005 Marcos divergentes para o tombamento ou registro patrimonial federal do Gantois. Divergência documental não resolvida.
Março de 2019 Inauguração do Centro Comunitário Mãe Carmen. Registro da Prefeitura.
26 de dezembro de 2025 Morte de Mãe Carmen aos 98 anos. Registro jornalístico do g1.
Após dezembro de 2025 Continuidade institucional do axé é mencionada, mas não foi localizada nomeação verificável de nova ialorixá. Sucessão em aberto nas fontes consultadas.

7. Controvérsias, divergências e limites das fontes

7.1 O problema das fontes

A documentação sobre o Gantois é formada por camadas diferentes: registros paroquiais, jornais, legislação, atas e documentos patrimoniais; biografias jornalísticas; estudos acadêmicos; páginas do próprio terreiro; cadastros institucionais; entrevistas e tradições orais. Nenhuma dessas camadas, isoladamente, oferece uma biografia completa.

Documentos oficiais podem registrar imóveis, tombamentos ou atos legais, mas não necessariamente descrevem a experiência religiosa da comunidade. Jornais podem revelar circulação pública e conflitos, mas reproduzem preconceitos e interesses editoriais. Biografias baseadas em depoimentos preservam memórias valiosas, mas não equivalem automaticamente a comprovação independente. A tradição oral conserva dimensões que os documentos escritos omitiram, embora também se modifique ao longo do tempo.

7.2 Divergências biográficas

As principais divergências sobre Mãe Menininha são:

  • Grafia do nome: Nazaré e Nazareth são variantes encontradas nas fontes; não indicam pessoas diferentes.
  • Data de nascimento: 10 de fevereiro de 1894 é mais consistente, mas 10 de setembro também aparece; falta certidão aberta.
  • Iniciação: versões de seis e oito meses e divergências sobre Oxum ou Obaluaiê; trata-se de tradição religiosa não confirmada por registro ritual primário aberto.
  • Posição na linhagem: terceira ou quarta ialorixá, conforme o critério de contagem e a fonte.
  • Posse: fevereiro de 1922 é convergente; 18 de fevereiro é uma precisão secundária não confirmada.
  • Causa da morte: não deve ser afirmada sem certidão ou obituário primário.

Essas divergências não tornam a biografia impossível. Elas mostram que a história precisa registrar o grau de certeza de cada afirmação.

7.3 Fundação e sucessão do Gantois

A data de 1849 deve ser identificada como data institucional e tradicional. A pesquisa de Castillo sustenta “por volta de 1850” e encontra documentação de um terreiro de Júlia em 1868. A relação com a Casa Branca não pode ser reduzida a uma cisão simples, porque a memória de Mãe Menininha e os documentos oitocentistas apontam para uma cronologia mais antiga e complexa.

A sucessão posterior também contém intervalos e inconsistências. O g1 lista Maria Júlia, Pulchéria/Pulquéria, Menininha, Cleusa e Carmen, mas os anos atribuídos às lideranças podem refletir diferenças entre morte, designação e início efetivo do comando. Depois da morte de Mãe Carmen, as fontes consultadas não permitem afirmar quem foi formalmente nomeada sucessora.

7.4 Patrimônio e tombamento

Há divergência entre 2002 e 2005 quanto ao tombamento federal ou ao marco patrimonial do Gantois. A hipótese mais prudente é que diferentes fontes estejam se referindo a etapas ou formas distintas de registro. Sem consultar o processo administrativo, a portaria publicada, o Livro do Tombo e eventuais retificações, não se deve escolher uma única data como definitiva.

Também é preciso separar patrimônio material, patrimônio imaterial e acervo museológico. O tombamento costuma proteger imóvel e poligonal, mas não necessariamente todos os objetos, documentos, fotografias, móveis e elementos integrados. O Memorial pode preservar mais do que o bem tombado, mas essa preservação depende de inventário, procedência, acesso e políticas institucionais.

7.5 Hagiografia e excepcionalização

Termos como “maior mãe de santo”, “ialorixá de todo o povo da Bahia” e “linhagem nobre” pertencem à recepção pública, à literatura, ao jornalismo ou à homenagem institucional. Eles são fontes para estudar a construção de uma memória, mas não devem ser tratados como medidas objetivas de autoridade.

A excepcionalização de Menininha teve efeitos contraditórios. Por um lado, sua figura ajudou a tornar o candomblé visível e a abrir espaços de negociação. Por outro, pode personalizar uma história coletiva e fazer parecer que a proteção alcançada pelo Gantois se estendia igualmente a todos os terreiros. O relatório deve conservar a pessoa e a comunidade juntas: Menininha foi uma liderança extraordinária, mas sua trajetória dependia de uma casa, de uma linhagem, de redes e de uma história coletiva afro-brasileira.

8. Conclusão

Mãe Menininha do Gantois foi uma liderança religiosa central na história pública do candomblé brasileiro. Maria Escolástica da Conceição Nazaré dirigiu o Gantois de fevereiro de 1922 até sua morte em 1986, consolidando uma autoridade que se apoiava na linhagem do terreiro, no parentesco familiar e ritual, na experiência religiosa e em uma ampla capacidade de circulação social.

O Gantois, por sua vez, não nasceu como instituição isolada nem pode ser explicado por uma genealogia simples. Sua formação ocorreu em Salvador, em meio à escravidão, à liberdade africana, às redes nagô/iorubá e jeje, à circulação atlântica e às relações com outras casas. A data de 1849 permanece como marco institucional, enquanto a pesquisa histórica aponta para uma formação por volta de 1850 e documenta a existência de um terreiro de Júlia em 1868. A relação com a Casa Branca é historicamente significativa, mas não deve ser reduzida a uma cisão única e plenamente comprovada.

A trajetória de Menininha também revela uma forma de resistência negociada. Ela se deu em um ambiente de criminalização indireta, batidas policiais, estigmatização médica e restrições administrativas. A ialorixá circulou por redes políticas, artísticas, literárias e religiosas, dialogou com autoridades e participou de uma transformação na imagem pública do candomblé. As fontes atribuem a ela papel importante na mudança de 1976, mas a evidência reunida não autoriza transformar essa mudança em obra individual isolada.

Seu legado cultural foi ampliado por canções, livros, desfiles, reportagens, memoriais e políticas patrimoniais. “Oração de Mãe Menininha”, de Dorival Caymmi, e a representação de Jorge Amado são exemplos de como a liderança do Gantois passou a simbolizar a Bahia. Essa memória é poderosa, mas deve ser lida criticamente: ela pode ampliar o reconhecimento e, ao mesmo tempo, folclorizar, suavizar conflitos ou substituir uma história coletiva pela imagem de uma personalidade excepcional.

A melhor síntese é, portanto, dupla. Mãe Menininha foi uma ialorixá de enorme projeção pública, cuja atuação contribuiu para a visibilidade e a legitimidade cultural do candomblé. Mas sua importância só pode ser compreendida dentro da história do Gantois, das mulheres que transmitiram sua linhagem, das comunidades afro-baianas que enfrentaram a repressão e dos processos sociais que transformaram um terreiro perseguido em lugar de culto, memória, educação e patrimônio.

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Mãe Menininha
Gantois
Candomblé
Bahia
Liberdade religiosa
Memória e patrimônio
Cultura afro-brasileira

Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha