A força da gestão regional:
Em uma cidade que concentra demandas de saúde de todo o Sudoeste baiano, a escolha de um secretário não pode ser avaliada apenas pelo currículo técnico. Experiência administrativa, capacidade de articulação e compreensão regional também são instrumentos fundamentais de gestão.
Por Padre Carlos
Na administração pública, há uma confusão recorrente — e muitas vezes conveniente — entre competência técnica e capacidade política. Como se fossem qualidades incompatíveis, como se um gestor experiente não pudesse compreender os desafios técnicos de uma secretaria e como se a boa administração pudesse prescindir de liderança, articulação institucional e capacidade de decisão. Essa falsa oposição precisa ser superada, especialmente quando estamos falando de uma das áreas mais complexas e sensíveis da gestão municipal: a Saúde.
A decisão da prefeita Ana Sheila Lemos de nomear Rodrigo Hagge para comandar a Secretaria Municipal de Saúde de Vitória da Conquista merece ser compreendida a partir dessa perspectiva. Não se trata apenas de preencher uma cadeira no organograma administrativo. Trata-se de escolher uma liderança para enfrentar problemas que ultrapassam os limites de uma secretaria e, em muitos casos, as próprias fronteiras do município.
Vitória da Conquista não é uma cidade qualquer no mapa da Bahia. É um município polo, referência regional em atendimento médico, serviços hospitalares e assistência especializada. Sua rede de saúde recebe diariamente pessoas de diversas cidades do Sudoeste e de regiões vizinhas. Isso significa que administrar a Saúde em Conquista exige muito mais do que conhecer os procedimentos internos de uma secretaria: exige compreender a dimensão regional do problema, dialogar com diferentes governos e construir soluções que envolvam uma rede inteira de municípios.
É nesse cenário que a escolha de Rodrigo Hagge ganha sentido político e administrativo.
Experiência de governo não se aprende em manual
Rodrigo Hagge chega à pasta com uma experiência que não pode ser desprezada: foi prefeito de Itapetinga por dois mandatos consecutivos. São oito anos de responsabilidade direta sobre uma administração municipal, período em que precisou lidar com orçamento, servidores, contratos, planejamento, prestação de contas, pressão política e, sobretudo, com as expectativas concretas da população.
Governar uma prefeitura é administrar problemas simultâneos. É compreender que uma decisão tomada no gabinete repercute na vida das pessoas, que o orçamento é limitado e que a máquina pública precisa funcionar mesmo quando os interesses políticos entram em conflito.
Essa vivência não transforma automaticamente alguém em especialista em saúde pública. Seria um erro afirmar isso. Mas oferece uma experiência administrativa valiosa para quem assume o comando de uma pasta que exige capacidade de liderança, negociação, planejamento e responsabilidade sobre recursos públicos.
A Saúde precisa de conhecimento técnico, naturalmente. Mas também precisa de alguém que consiga transformar diagnósticos em decisões, decisões em prioridades e prioridades em resultados. Um secretário não substitui médicos, enfermeiros, gestores hospitalares ou especialistas. Sua função é garantir que a estrutura administrativa tenha direção, condições de trabalho e capacidade de responder às necessidades da população.
É justamente aí que a experiência de um ex-prefeito pode fazer diferença.
Vitória da Conquista precisa pensar além de suas fronteiras
Existe uma característica da Saúde conquistense que não pode ser ignorada: a dimensão regional de sua responsabilidade.
Quando um município concentra serviços de média e alta complexidade, recebe uma demanda que não nasce exclusivamente dentro de seu território. Pacientes chegam de outras cidades, procuram atendimento especializado, utilizam estruturas hospitalares e pressionam uma rede que precisa funcionar de maneira integrada.
Esse é um dos grandes desafios do SUS: fazer com que a responsabilidade pelo atendimento seja compartilhada, sem que os municípios polos acabem absorvendo, sozinhos, o peso de uma demanda regional.
A experiência de Rodrigo Hagge à frente da Prefeitura de Itapetinga pode contribuir para essa compreensão. Por ter governado outro município importante do Sudoeste, conhece, pela experiência administrativa, as dificuldades enfrentadas pelas prefeituras do interior e a dependência que muitas delas possuem em relação aos centros regionais de atendimento.
Essa vivência pode facilitar o diálogo com gestores municipais, fortalecer a articulação regional e ajudar a construir uma agenda comum para enfrentar gargalos históricos.
A questão não é simplesmente trazer alguém de fora. É incorporar à administração uma experiência que pode ajudar Conquista a dialogar melhor com a região da qual se tornou referência.
Uma cidade polo não pode administrar sua saúde como se estivesse isolada. Precisa compreender que sua força também depende da capacidade de organizar relações institucionais com os municípios que utilizam sua rede.
Articulação política também salva vidas
Há uma realidade que os discursos excessivamente burocráticos costumam esconder: saúde pública custa dinheiro. E custa muito dinheiro.
Manter unidades funcionando, ampliar equipes, garantir medicamentos, melhorar estruturas, contratar serviços, fortalecer a atenção básica e ampliar o acesso a exames e procedimentos exige recursos permanentes. O orçamento municipal, por maior que seja o esforço da administração, não consegue responder sozinho a todas essas necessidades.
Por isso, uma secretaria de Saúde precisa ter capacidade de articulação com os governos estadual e federal. Precisa dialogar com parlamentares, apresentar projetos, defender prioridades e buscar investimentos.
É nesse ponto que a trajetória política e administrativa de Rodrigo Hagge pode representar um diferencial. Sua experiência como ex-prefeito e sua formação jurídica podem contribuir para o diálogo institucional e para a construção de caminhos que permitam ampliar a capacidade de investimento do município.
Articulação política não significa distribuição de favores, muito menos submissão partidária. Quando exercida com responsabilidade republicana, é um instrumento legítimo de gestão pública.
Conseguir recursos para ampliar serviços de saúde não é uma vitória de um partido sobre outro. É uma conquista da população.
Quem administra uma cidade polo precisa saber conversar com Salvador, Brasília e os demais municípios da região. A Saúde não pode ser refém de disputas eleitorais, ressentimentos partidários ou vaidades pessoais.
Atenção básica: o começo de uma rede que precisa funcionar
Outro aspecto importante da orientação apresentada pela prefeita é o fortalecimento da atenção básica.
É nos postos de saúde, nas equipes de Saúde da Família, no acompanhamento das gestantes, no controle das doenças crônicas, na vacinação e na prevenção que começa uma parte decisiva do funcionamento do sistema público.
Quando a atenção primária não consegue responder às necessidades da população, problemas que poderiam ser identificados e tratados precocemente acabam chegando às unidades de urgência e aos hospitais. O resultado é conhecido: filas, sobrecarga, demora e sofrimento.
Fortalecer a atenção básica significa aproximar o serviço público das pessoas e organizar melhor o caminho que cada paciente percorre dentro do SUS.
Não se trata de diminuir a importância dos hospitais. Trata-se de evitar que eles sejam obrigados a resolver problemas que poderiam ter recebido acompanhamento adequado muito antes.
Para isso, a nova gestão precisará estabelecer metas, acompanhar indicadores, avaliar a distribuição das equipes, identificar regiões mais vulneráveis e garantir que o atendimento básico tenha condições reais de funcionar.
É uma tarefa que exige liderança administrativa, planejamento técnico e capacidade de execução.
Liderança política e competência técnica precisam caminhar juntas
Talvez um dos aspectos mais importantes da escolha de Rodrigo Hagge esteja na possibilidade de combinar liderança política no comando da secretaria com continuidade e fortalecimento da estrutura técnica responsável pela execução dos serviços.
Essa distinção é fundamental.
O secretário precisa estabelecer prioridades, conduzir negociações, responder politicamente pelas decisões e garantir que a pasta esteja alinhada ao projeto de governo. A equipe técnica, por sua vez, precisa assegurar que as políticas sejam executadas com conhecimento especializado, planejamento, eficiência e respeito às normas do SUS.
Uma coisa não substitui a outra.
Seria um equívoco imaginar que apenas um currículo técnico garante uma boa gestão. Também seria equivocado supor que experiência política, por si só, resolve os problemas da Saúde. O desafio está justamente em fazer essas duas dimensões trabalharem juntas.
A população não está interessada em disputas abstratas sobre o perfil ideal de secretário. Quer atendimento digno, médicos disponíveis, medicamentos, exames, consultas, unidades funcionando e respostas quando procura o poder público.
No fim das contas, é pelos resultados que a gestão será julgada.
Sheila Lemos escolheu assumir a responsabilidade
A prerrogativa de escolher os integrantes de sua equipe faz parte da responsabilidade política de quem foi eleito para governar. A prefeita Sheila Lemos recebeu dos eleitores a missão de conduzir a administração municipal e precisa ter condições de organizar sua equipe para executar as prioridades que considera necessárias.
Isso não significa que suas escolhas estejam acima do debate público. Pelo contrário: toda nomeação importante deve ser discutida, questionada e acompanhada pela sociedade. Mas a crítica precisa ser feita com argumentos, e não a partir da ideia de que somente determinado perfil profissional teria legitimidade para ocupar uma secretaria.
A escolha de Rodrigo Hagge deve ser avaliada pela experiência que ele traz, pela capacidade de articulação que poderá demonstrar e, principalmente, pelos resultados que conseguir entregar.
A prefeita não está apenas escolhendo um secretário. Está colocando uma liderança diante de uma das maiores responsabilidades de sua administração. E, ao fazer isso, assume também a responsabilidade de cobrar desempenho, estabelecer metas e exigir respostas.
Não há cheque em branco. Há uma oportunidade e uma obrigação de trabalhar.
O julgamento definitivo será feito pela população
É evidente que a nomeação, por si só, não resolve os problemas da Saúde de Vitória da Conquista. Nenhum secretário chega com uma fórmula mágica, e seria irresponsável alimentar essa expectativa. Existem gargalos estruturais, limitações orçamentárias, demandas reprimidas e dificuldades que exigem planejamento, continuidade e diálogo institucional.
Mas é igualmente equivocado desqualificar antecipadamente uma escolha que reúne experiência de gestão municipal, conhecimento da realidade regional e potencial de articulação política.
Rodrigo Hagge terá de demonstrar, na prática, que está à altura da responsabilidade. Precisará ouvir os profissionais, dialogar com os municípios, aproximar-se das comunidades, fortalecer a atenção básica e buscar recursos para ampliar a capacidade de atendimento.
A prefeita Sheila Lemos, por sua vez, terá de oferecer as condições políticas e administrativas necessárias para que a secretaria trabalhe e cobrar resultados compatíveis com a dimensão do desafio.
A Saúde não precisa de disputas de vaidade. Precisa de gestão, planejamento, recursos e compromisso com a vida.
A escolha de Rodrigo Hagge é acertada porque parte de uma compreensão que muitas vezes escapa aos críticos de gabinete: administrar uma cidade polo exige mais do que conhecimento setorial. Exige capacidade de governar, construir pontes e articular soluções.
A técnica é indispensável, mas precisa de liderança para sair do papel. A política é necessária, mas precisa estar a serviço da população. E, quando essas duas forças caminham na mesma direção, quem ganha não é o secretário, nem a prefeita, nem um grupo partidário. Quem ganha é o cidadão que espera por atendimento.
No fim, a melhor resposta às dúvidas sobre essa nomeação não virá dos discursos de defesa ou das críticas antecipadas. Virá das unidades de saúde, das filas que diminuírem, dos serviços que melhorarem e das pessoas que conseguirem atendimento com dignidade.
É ali, e não nos bastidores da disputa política, que Rodrigo Hagge terá de provar que a escolha foi acertada.
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Padre Carlos — Teólogo, Filósofo e Colunista Político — Política e Resenha





