
Padre Carlos
Vitória da Conquista aprendeu, ao longo dos anos, a conviver com um fenômeno curioso: a água que falta nas torneiras sobra nos discursos políticos. E a barragem do Rio Catolé é, talvez, o maior símbolo dessa contradição.
Anunciada ainda em 2013, no governo de Jaques Wagner, a obra atravessou gestões, promessas e campanhas eleitorais como quem atravessa um deserto — lentamente e sob muito calor político. De lá para cá, já se passaram mais de uma década entre anúncios, licitações, paralisações e retomadas.
A construção em si começou por volta de 2019, com prazo inicial de apenas 33 meses. Era para estar pronta em 2022. Mas a realidade foi outra: a obra foi interrompida, avançou lentamente e chegou a ter pouco mais de 20% executado após quatro anos.
Hoje, em 2026, o governo anuncia que a barragem ultrapassou 50% e promete conclusão apenas para 2027.
Traduzindo para o cidadão comum:
uma obra planejada para menos de 3 anos caminha para quase 8 anos de execução, sem contar o tempo político anterior.
E aqui entra a questão central: não é apenas uma obra. É um retrato.
Enquanto isso, o Partido dos Trabalhadores governa a Bahia desde 2007. Já são quase 20 anos no poder estadual. Tempo mais do que suficiente para resolver de forma estrutural o problema hídrico de uma das maiores cidades do interior nordestino.
E em Vitória da Conquista?
Quantos parlamentares passaram pela Câmara, pela Assembleia Legislativa, pelo Congresso… sempre com discursos inflamados, promessas renovadas e a mesma obra inacabada como pano de fundo?
A pergunta que ecoa é incômoda:
onde estavam essas vozes quando as obras pararam?
Porque é aí que o silêncio se torna ensurdecedor.
Quando a barragem travou, quando o cronograma virou poeira, quando a população voltou a temer o racionamento — poucos falaram. Poucos cobraram. Poucos enfrentaram.
Mas basta a obra ser retomada…
E, de repente, surgem os “pais da criança”.
Fotos, vídeos, visitas técnicas, discursos emocionados. Parlamentares aparecem como se fossem donos da façanha, como se não tivessem sido espectadores silenciosos durante os anos de atraso.
Esse comportamento não é novo. É uma velha prática da política brasileira:
sumir no problema e aparecer na solução — mesmo que a solução ainda nem exista.
O mais grave é que não estamos falando de uma obra qualquer.
Estamos falando de água.
De segurança hídrica.
De dignidade.
Vitória da Conquista já enfrentou racionamento severo entre 2016 e 2017, um dos mais longos da sua história recente.
E mesmo assim, a principal obra estruturante para evitar novas crises segue em ritmo que mais parece um teste de paciência coletiva.
A barragem do Catolé deveria ser um marco.
Mas, até agora, tem sido um símbolo de:
- morosidade administrativa
- descontinuidade política
- oportunismo eleitoral
E, sobretudo, de uma cultura onde a responsabilidade se dilui… e o mérito se disputa.
No fim das contas, a população não quer saber quem vai cortar a fita.
Quer saber quando a água vai chegar com regularidade na torneira.
E essa resposta, até hoje, continua represada.




