Artigo de Opinião · Bahia · Março de 2026
Por Padre Carlos
Há uma habilidade que o interior da Bahia domina como poucos lugares no Brasil: a arte — nobre, refinada e quase mística — de esperar.
Esperar a chuva.
Esperar o governo.
Esperar a promessa virar obra.
E, sobretudo, esperar que alguém em Brasília se lembre de que existimos.
A BR-116 Sul — esse corredor vital de 502 quilômetros que liga Feira de Santana à divisa com Minas Gerais — não é apenas uma rodovia. É uma ferida aberta. Há mais de uma década, ela sangra em buracos, acidentes e promessas não cumpridas.
Em maio de 2025, encerrou-se uma concessão que só pode ser descrita como traumática. Traumática, sim — como um paciente submetido a um tratamento de choque e abandonado na maca antes da recuperação.
E agora?
Agora nos dizem que o novo edital sairá em novembro de 2026.
Novembro de 2026.
Repita em voz alta: dezoito meses.
Dezoito meses para uma estrada que já esperou dez anos.
Não é um prazo. É um deboche institucionalizado.
Porque novembro de 2026 não é uma data qualquer. É depois das eleições. Depois dos votos contados. Depois dos palanques desmontados. Uma coincidência tão precisa que deixa de ser coincidência e passa a ser método.
Enquanto isso, no lado Norte, a chamada “Rota dos Sertões” avança. Edital publicado. Leilão marcado. Prioridade definida.
Bonita escolha.
E a pergunta que ecoa, sem resposta, é simples:
Quem decidiu que a Bahia do Sul deve ficar na fila?
A resposta não está em documento oficial algum. Está no silêncio. No vazio. Na ausência.
Está na falta de representação efetiva em Brasília.
Porque, no Brasil real, obras não andam por necessidade — andam por pressão. Trechos com bancadas mobilizadas, com deputados que ligam, cobram, aparecem, conseguem. Os outros ficam com discursos, notas e promessas de reuniões que nunca acontecem.
Aliás, a reunião com o ministro.
Sempre ela.
Marcada para “em breve”.
Confirmada para “qualquer dia desses”.
Agendada no calendário invisível da política brasileira.
E seguimos esperando.
Mas é preciso dizer com todas as letras: isso não é descaso acidental.
Descaso acidental acontece uma vez.
O que vemos aqui é descaso estrutural — repetido com a precisão de quem sabe exatamente o que está fazendo.
Dezoito meses para iniciar uma nova licitação em uma rodovia que colapsa há dez anos não é burocracia. É escolha.
E toda escolha tem responsável.
2026 é ano eleitoral.
E, pela primeira vez em muito tempo, talvez a espera precise acabar.
Não com mais paciência.
Mas com memória.
Com cobrança.
Com voto.
Pergunte ao seu candidato:
Qual é o plano para a BR-116 Sul?
Quando acontece a reunião com o ministro?
O que foi feito — não prometido?
Quem não souber responder, não merece representar.
Simples assim.
Porque político esquece promessas.
Mas não esquece derrota.





