Política e Resenha

A Casa da Amizade — Tijolos, Silêncios e Eternidades

 

 

Recebi de uma irmã gerada no espírito um trecho de um poema de Capiba e Hermínio Bello de Carvalho, desses que carregam a sabedoria mansa de quem compreende o coração humano:

“Amigo que é amigo quando quer estar presente
Faz-se quase transparente sem deixar-se perceber
Amigo é pra ficar, se chegar, se achegar,
Se abraçar, se beijar, se louvar, bendizer
Amigo a gente acolhe, recolhe e agasalha
E oferece lugar pra dormir e comer.”

Esses versos são uma lição sobre o valor do afeto discreto — aquele que não precisa anunciar-se, porque simplesmente é. O verdadeiro amigo não invade o espaço do outro; ele o habita em silêncio. Sua presença é como o ar: não se vê, mas é impossível viver sem.

E foi nesse instante, ouvindo o eco das palavras do poeta, que me veio à memória a voz inconfundível de Zélia Duncan, interpretando um outro hino à amizade:

“Amigo é feito casa que se faz aos poucos
e com paciência pra durar pra sempre.
Mas é preciso ter muito tijolo e terra,
preparar reboco, construir tramelas…”

A imagem da amizade como uma casa é de uma beleza simples e profunda. Amigo é morada — e morada não se ergue da noite para o dia. É feita de tempo, confiança, erros, perdões e silêncios. Cada gesto de cuidado é um tijolo; cada palavra dita com verdade é um alicerce.

Mas o poema nos lembra também da fragilidade dessa construção. É preciso “reboco” para esconder as imperfeições, “tramelas” para proteger o que é íntimo. A amizade exige manutenção. Exige o trabalho delicado de quem entende que as paredes do afeto também podem trincar, e que só o amor paciente as reconstrói.

Zélia Duncan canta com ternura, mas também com firmeza, quando diz que “há que usar a sapiência de um João-de-barro”. O João-de-barro, pequeno arquiteto da natureza, constrói com arte e persistência. Faz e refaz sua casa quantas vezes for preciso. Assim deve ser a amizade: uma obra sempre inacabada, feita de recomeços.

E o verso final é um lembrete poderoso:

“Há que o alicerce seja muito resistente,
que às chuvas e aos ventos possa então a proteger.”

Na vida, as tempestades são inevitáveis — mas é nelas que descobrimos quem realmente fica. O amigo verdadeiro é o teto que não desaba, o abrigo que não cobra, a mão que não solta.

Talvez, no fundo, seja isso o que os poetas tentam nos dizer: que amizade é uma forma de fé. Uma fé construída não com palavras bonitas, mas com tijolos de presença.

E, como toda boa casa, uma amizade verdadeira carrega o cheiro do café, o calor do abraço e a certeza de que, por mais longa que seja a estrada, há sempre um lugar para voltar.

Porque, afinal, amigo é casa — e casa é onde o coração repousa sem precisar explicar-se.