Por Padre Carlos
Houve um tempo em que a Copa do Mundo era decidida pela bola.
Hoje, parece que basta um telefone.
O futebol, aquele esporte que ensinava crianças a acreditar que as regras eram iguais para todos, resolveu modernizar seus princípios. Agora existe um novo VAR: o Very American Request.
Dizem que o cartão vermelho é uma das decisões mais severas do futebol. Ou melhor… era. Porque, aparentemente, dependendo de quem resolve ligar para Zurique, até o vermelho desbota.
A polêmica envolvendo a suspensão da punição aplicada ao atacante norte-americano Folarin Balogun produziu uma cena digna de Hollywood: Donald Trump confirmou que telefonou para Gianni Infantino. O presidente da FIFA reconheceu a ligação, embora afirme que ela não influenciou a decisão. Convenhamos: acreditar que tudo isso foi apenas uma coincidência exige uma fé maior do que acreditar que juiz nunca erra. Afinal, coincidências tão convenientes costumam aparecer mais em roteiros de cinema do que em campeonatos esportivos.
Gianni Infantino parece ter descoberto uma nova modalidade esportiva.
Não administra futebol.
Administra relações públicas.
Onde antes existia o regulamento, agora existe o networking.
Onde antes havia tribunal esportivo, agora parece existir uma central de atendimento VIP.
A FIFA já foi acusada de quase tudo ao longo de sua história. Escândalos de corrupção derrubaram presidentes, prenderam dirigentes e transformaram uma entidade esportiva em personagem frequente das páginas policiais. Juraram que tudo mudaria.
Mudou.
Antes a suspeita era sobre dinheiro.
Agora a conversa é sobre influência.
É uma evolução… ou uma criatividade administrativa.
Infantino consegue um feito raro: fazer Joseph Blatter parecer quase um dirigente de museu.
Enquanto posa para fotografias ao lado de chefes de Estado, distribui sorrisos diplomáticos e coleciona encontros com líderes dos mais variados regimes, a imagem da FIFA vai perdendo aquilo que nenhuma campanha de marketing consegue recuperar: confiança.
A Copa de 2034 entregue à Arábia Saudita continua sendo apresentada como uma vitória institucional. Os críticos enxergam outra coisa: uma entidade cada vez mais confortável em fechar os olhos para questões que antes dizia combater.
No cenário internacional, a régua da FIFA parece feita de elástico.
Ela estica.
Encolhe.
Adapta-se.
Depende do país.
Depende da conveniência.
Depende, ao que parece, do momento político.
O regulamento continua existindo.
Só não se sabe para quem.
Talvez o próximo passo seja substituir os árbitros por assessores diplomáticos.
Os cartões poderiam vir acompanhados de consulta ao protocolo internacional.
O sorteio dos grupos poderia acontecer depois de uma rodada de telefonemas.
E quem sabe o troféu já não venha com espaço reservado para selfies entre dirigentes e chefes de governo?
O mais triste é que quem perde nunca é apenas um jogador.
Perde o torcedor.
Perde o esporte.
Perde a ideia romântica de que, dentro de campo, todos entram em igualdade de condições.
O futebol sobreviveu a guerras, ditaduras, crises econômicas e pandemias.
Mas talvez esteja encontrando um adversário muito mais perigoso.
A arrogância dos cartolas que acreditam que a instituição existe para servi-los — e não para servir ao futebol.
Se continuar assim, a próxima Copa do Mundo poderá manter o gramado impecável, os estádios lotados e a audiência bilionária.
Só faltará um detalhe.
Credibilidade.





