Análise · Eleições 2026 · Segundo turno
Por Wilton Cunha
Uma eleição presidencial não se compreende apenas pela fotografia de uma pesquisa. É preciso observar o filme inteiro: a evolução das intenções de voto, a distância entre os candidatos, a movimentação dos eleitores, a capacidade de mobilização das campanhas e, sobretudo, a maneira como os diferentes institutos captam as mudanças de comportamento do eleitorado. É nessa perspectiva que precisamos analisar a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2026.
“É preciso observar o filme inteiro” — e não apenas a fotografia de uma pesquisa.
Wilton Cunha
1. O primeiro turno: o ponto de partida
O primeiro dado que merece atenção é a diferença entre os candidatos no primeiro turno. Flávio Bolsonaro terminou a primeira etapa da eleição com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 45,16%. A vantagem foi de aproximadamente 2,23 milhões de votos. Era uma distância politicamente relevante, mas não suficiente para eliminar a disputa. O segundo turno abriu uma nova etapa, com mudanças nas estratégias eleitorais e a necessidade de conquistar os eleitores que ainda não haviam definido sua posição.
Gráfico 1
Votos válidos no 1º turno (%)
Flávio Bolsonaro
Lula
Escala de 0 a 60%, com base zero. Dados citados no artigo.
| 1,87 p.p. Diferença entre os candidatos (47,03 − 45,16) |
~2,23 mi Vantagem em votos de Flávio |
2º turno Nova etapa, novas estratégias |
2. As pesquisas de meados de outubro
Os levantamentos divulgados em meados de outubro mostram uma disputa bastante apertada. O PoderData apontou empate nos votos válidos, com 50% para cada candidato. O Datafolha registrou 51% para Flávio e 49% para Lula, enquanto a Quaest encontrou 51% a 49% nos votos válidos, também dentro da margem de erro. Esses números não demonstram uma ultrapassagem consolidada, mas revelam que a diferença medida pelas pesquisas está dentro de uma faixa estreita. (Fontes: UOL e Folha de S.Paulo, levantamentos de outubro de 2026.)
Gráfico 2
Votos válidos no 2º turno, por instituto (%)
PoderData
| Flávio 50% | Lula 50% |
Datafolha
| Flávio 51% | Lula 49% |
Quaest
| Flávio 51% | Lula 49% |
Barras de 100% (votos válidos). Fontes citadas no artigo: UOL e Folha de S.Paulo, outubro de 2026.
Gráfico 3
Vantagem de Flávio sobre Lula nos votos válidos (pontos percentuais)
PoderData
0 p.p. — empate
Datafolha
Quaest
Escala de 0 a 4 p.p. Diferença calculada a partir dos números citados no artigo; todas dentro da faixa estreita descrita pelo autor.
3. Não basta a fotografia: é preciso ver o filme
É justamente aqui que entra uma questão importante: a evolução dos números ao longo do tempo. Em uma disputa tão equilibrada, não basta olhar para quem aparece numericamente à frente. Precisamos verificar se a diferença está aumentando, diminuindo ou permanecendo estável. Uma sequência consistente de levantamentos pode revelar movimentos que uma pesquisa isolada não consegue mostrar.
Na análise que venho acompanhando, chama a atenção a redução da distância observada em determinados institutos, especialmente quando comparamos seus levantamentos anteriores com os números mais recentes. O Futura, o Vox Brasil, o GPP e o Veritá merecem acompanhamento individual, desde que respeitemos as diferenças de metodologia, amostragem e período de coleta.
Há, entretanto, uma distinção fundamental: não podemos concluir que um instituto favorece deliberadamente determinado candidato apenas pela leitura de seus resultados. O caminho mais rigoroso é examinar o histórico de cada pesquisa, comparar os números dentro de uma mesma metodologia e verificar se as mudanças se repetem em levantamentos sucessivos.
4. O mercado de apostas não é pesquisa
O mercado de apostas também entrou nessa discussão. Quando as cotações de um candidato diminuem, isso geralmente significa que os apostadores ou o mercado atribuem maior valor à possibilidade de seu sucesso. Mas há uma diferença importante entre cotação de apostas, intenção de voto e probabilidade eleitoral. As cotações variam conforme o volume de apostas, a liquidez, as margens da plataforma e as informações disponíveis naquele momento. Portanto, não podem ser tratadas como uma pesquisa eleitoral nem como confirmação antecipada de resultado.
Gráfico 4 · Três coisas que não se confundem
| Cotação de apostas Varia conforme volume de apostas, liquidez, margens da plataforma e informações do momento. |
Intenção de voto Medida pelas pesquisas, com metodologia, amostra, período de coleta e margem de erro. |
Probabilidade eleitoral Estimativa de desfecho; não é confirmação antecipada de resultado. |
5. O ambiente da comunicação política
Outro elemento que merece atenção é o ambiente da comunicação política. Quando comentaristas de diferentes correntes ideológicas passam a reconhecer uma mudança na dinâmica da disputa, esse movimento pode indicar que o debate público está se reorganizando. Ainda assim, opiniões de jornalistas, analistas e influenciadores precisam ser confrontadas com dados verificáveis. A repercussão de uma narrativa não é necessariamente a comprovação de sua veracidade.
6. Duas campanhas, dois desafios
A campanha de Lula tem buscado mobilizar seu eleitorado em torno de políticas sociais, direitos dos trabalhadores e medidas econômicas de interesse popular. Entre os temas que ganharam espaço está a discussão sobre a escala de trabalho 6×1. Flávio Bolsonaro, por sua vez, mantém o discurso de mudança política e explora as críticas à gestão federal. São estratégias diferentes, dirigidas a segmentos eleitorais que nem sempre respondem da mesma maneira aos acontecimentos da campanha.
Gráfico 5
Estratégias e desafios na reta final
| Lula | Flávio Bolsonaro | |
| Discurso | Políticas sociais, direitos dos trabalhadores, medidas econômicas de interesse popular; debate sobre a escala 6×1. | Discurso de mudança política e críticas à gestão federal. |
| Desafio | Ampliar o eleitorado para além da base tradicional, reduzir resistências e converter mobilização em votos. | Preservar a vantagem do primeiro turno e impedir que a aproximação se torne tendência ampla. |
O desafio de Lula é ampliar sua capacidade de conquistar eleitores para além de sua base tradicional, reduzir resistências e transformar a mobilização política em votos efetivos. O desafio de Flávio é preservar a vantagem obtida no primeiro turno e impedir que a aproximação registrada por determinados levantamentos se transforme em uma tendência mais ampla.
7. Margem de erro: o filtro necessário
É importante lembrar que uma mudança de dois pontos percentuais pode chamar a atenção, mas precisa ser interpretada à luz da margem de erro e do intervalo entre as entrevistas. Se dois levantamentos apresentam diferenças pequenas, não podemos afirmar automaticamente que houve uma migração real de votos. Para isso, é necessário observar a sequência dos resultados e a consistência das informações.
8. A reta final e a conclusão
A reta final exige, portanto, menos torcida e mais método. A análise política responsável não consiste em escolher os números que confirmam nossas expectativas, mas em reunir os indicadores disponíveis, confrontá-los e reconhecer aquilo que ainda não sabemos.
A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro permanece aberta nos levantamentos divulgados até meados de outubro. A diferença estreita encontrada por vários institutos demonstra que o segundo turno está sendo disputado em condições de grande competitividade. O comportamento dos eleitores indecisos, a participação nas urnas, a transferência de votos e os acontecimentos dos últimos dias serão elementos importantes para compreender o desfecho.
Minha conclusão é que precisamos continuar acompanhando as pesquisas com atenção redobrada. Mais importante do que comemorar um número isolado é identificar se existe uma tendência consistente, confirmada por diferentes levantamentos e metodologias. Na política, a diferença entre uma impressão momentânea e uma análise séria está justamente na capacidade de distinguir fatos, hipóteses e expectativas.
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Wilton Cunha
Artigo publicado em Política e Resenha





