
Padre Carlos
Por: Um Articulista da Cultura Conquistense Vitória da Conquista, 4 de novembro de 2025
O calendário, este implacável lembrete da passagem do tempo, marca hoje, 4 de novembro, vinte e quatro anos. Vinte e quatro anos não de um evento, mas de uma ausência. Em 2001, nesta mesma data, Vitória da Conquista perdia, de forma prematura e brutal, Jorge Luiz Melquisedeque da Silva. Mais do que um nome em uma placa de rua ou em uma sala de projeção, a cidade perdia um de seus olhos mais atentos, uma de suas vozes criativas mais inquietas.
Recordar Jorge Melquisedeque é, antes de tudo, um exercício de contextualização histórica. Falar de audiovisual em Vitória da Conquista hoje, com um curso universitário consolidado na UESB, com festivais e produções que circulam o país, parece um caminho natural. Mas não foi. Este caminho foi aberto à força, com ousadia e contra a maré, por pioneiros. Jorge era, talvez, o mais visionário deles.
Numa Conquista dos anos 80 e 90, que ainda buscava sua identidade cultural moderna, Jorge não era apenas um homem com uma câmera; ele era um homem com uma visão. Ele compreendeu, muito antes da popularização da mídia digital, que o “vídeo” não era apenas um registro, mas uma ferramenta de expressão, de denúncia e de construção de memória. Ele foi o nosso “videomaker” original, um ativista cultural que usava a lente para questionar a realidade que o cercava.
Seu legado mais palpável, e que reverbera diariamente pelos corredores da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), é o Programa Janela Indiscreta Cine-Vídeo. Jorge foi um dos idealizadores centrais deste projeto. É fundamental que as novas gerações entendam: o “Janela” não nasceu como um mero cineclube acadêmico. Ele nasceu como um ato de resistência cultural. Foi a semente plantada por Jorge e seus contemporâneos, um espaço para formar público, para debater o cinema que não chegava às salas comerciais e, principalmente, para incentivar a produção local.
A existência da Sala de Projeção Jorge Melquisedeque na UESB é uma homenagem justa, mas é, acima de tudo, um símbolo de sua permanência. É o local físico onde sua missão continua. Cada estudante de cinema que ali senta, cada debate que ali ocorre, é um testamento de que a semente que ele plantou não apenas germinou, mas tornou-se uma árvore robusta. O próprio curso de Cinema e Audiovisual da UESB, hoje uma realidade sólida, assenta-se sobre os alicerces de militância cultural que Jorge ajudou a construir.
A perda de Jorge Melquisedeque, aos 48 anos, não foi apenas a interrupção de uma biografia. Foi uma ruptura. Perdemos o artista em plena ebulição. Perdemos as décadas de filmes que ele não fez, as aulas que ele não deu, as provocações que ele não articulou. O que Jorge faria com a tecnologia de hoje? Que tipo de obras ele estaria criando na era das redes sociais e do streaming? Esta é a lacuna que sua partida nos deixou – a dor do potencial não realizado.
Vitória da Conquista perdeu um cronista visual, um intelectual orgânico que pensava a cidade através das imagens. Ele nos ensinou a olhar para nós mesmos.
Hoje, 24 anos depois, a melhor forma de honrar Jorge Melquisedeque não é apenas com a lembrança saudosa, mas com a ação. Honramos Jorge quando ocupamos os espaços culturais, quando produzimos arte que desafia o status quo, quando defendemos a universidade pública como polo de pensamento crítico e, principalmente, quando assistimos a um filme no “Janela Indiscreta”.
Jorge se foi, mas seu olhar permanece. Ele está impresso na retina de cada novo cineasta conquistense, na tela da sala que leva seu nome e na própria vocação cultural da cidade que ele ajudou a moldar. A ausência de 24 anos dói, mas seu legado é, felizmente, indelével.




