Coluna Cultural
Por Padre Carlos
“É, um texto como esse só escreve quem tem sentimento, caráter e amor no coração. Eu não consegui entender até hoje por que a palavra saudade só existe no vocabulário brasileiro. Não sei, não sei…”
— Professor Durval Lemos Menezes
Há palavras que parecem morar dentro de uma cultura. Não porque pertençam exclusivamente a ela, mas porque, com o passar dos séculos, tornam-se tão carregadas de memória, literatura, música e emoção que acabam confundindo-se com a própria identidade de um povo.
Saudade é uma dessas palavras.
Durante muito tempo, nós, falantes do português, fomos ensinados — e gostamos de acreditar — que saudade era uma espécie de patrimônio sentimental exclusivo dos portugueses e brasileiros. Uma palavra que nenhuma outra língua seria capaz de traduzir completamente e, mais ainda, um sentimento que somente nós saberíamos experimentar em toda a sua profundidade.
É uma bela história.
Mas talvez seja apenas isso: uma bela história.
O que dizem as outras línguas
Uma reportagem da Deutsche Welle, assinada por Fábio Corrêa, recupera uma questão linguística fascinante ao mostrar que existem palavras semelhantes em diferentes idiomas. O romeno possui dor; o galês, hiraeth; o turco, hasret. O alemão dispõe de termos como Heimweh, Fernweh e Sehnsucht. No inglês, encontramos longing e to miss.
Nenhuma dessas palavras é exatamente “saudade”. Mas talvez esse seja precisamente o ponto.
Uma língua não precisa possuir uma palavra idêntica para possuir o sentimento que ela expressa.
A linguagem não é uma prisão onde cada emoção precisa caber perfeitamente em uma palavra. Ela é, antes, uma tentativa humana de transformar experiência em significado.
E talvez aqui esteja a verdadeira grandeza da saudade brasileira.
O mito que explica quem somos
Fernando Pessoa ajudou a eternizar o mito quando escreveu:
“Saudades, só portugueses conseguem senti-las bem. Porque têm essa palavra para dizer que as têm.”
É uma frase bonita, literariamente poderosa e linguisticamente questionável.
Mas nem tudo que é mito precisa ser destruído.
Há mitos que explicam quem somos.
A questão não é descobrir se somente o português possui a saudade. Evidentemente, não possui. A questão mais interessante é entender por que nós fizemos da saudade uma experiência tão profundamente ligada à nossa identidade cultural.
E aí a conversa muda completamente.
Uma palavra que virou cultura
A saudade atravessa a literatura portuguesa, passa por Camões, chega a Fernando Pessoa e desembarca no Brasil com uma força extraordinária. Está na música popular, na poesia, nas cartas antigas, nas fotografias amareladas, nas despedidas de aeroporto, nas casas dos avós que já não existem, nas cidades que abandonamos e nas pessoas que a vida levou.
No Brasil, saudade tem endereço.
Tem cheiro.
Tem música.
Tem rosto.
Quem nunca sentiu saudade de uma casa onde morou? De um pai ou de uma mãe? De um amigo que desapareceu da nossa vida? De uma infância que não volta? De uma cidade que mudou? De uma pessoa que morreu?
E talvez seja exatamente aí que a palavra se torna maior do que o dicionário.
Porque saudade não é simplesmente sentir falta.
Ela possui uma dimensão temporal.
É o passado invadindo o presente.
É a memória recusando-se a morrer.
É uma ausência que continua produzindo presença.
Por isso, quando João Gilberto canta “Chega de Saudade”, a palavra já não é apenas uma definição linguística. Ela se transforma em música. Quando Vinicius de Moraes e Tom Jobim colocam a saudade dentro da bossa nova, ela ganha ritmo. Quando Almeida Júnior pinta sua “Saudade”, ela ganha rosto, silêncio e paisagem.
É assim que uma palavra se transforma em cultura.
E talvez seja justamente isso que os linguistas nos ajudam a compreender: não precisamos acreditar que a saudade seja uma exclusividade do português para reconhecer que ela ocupa um lugar extraordinário na cultura de língua portuguesa.
Existe uma diferença enorme entre dizer “somente nós sentimos isso” e afirmar “nós aprendemos a dar a isso um significado especial”.
A primeira afirmação é um mito linguístico.
A segunda é uma realidade cultural.
O que realmente nos pertence
Talvez devêssemos abandonar a necessidade infantil de possuir sentimentos exclusivos. Afinal, amor, medo, solidão, esperança, tristeza e desejo existem em praticamente todas as culturas humanas. O que muda é a maneira como cada povo nomeia, organiza e conta essas experiências.
A língua revela muito sobre uma sociedade.
Mas também revela que somos muito mais parecidos do que imaginamos.
Um romeno sente a sua dor. Um galês conhece a hiraeth. Um alemão pode experimentar a Sehnsucht. Um brasileiro sente saudade.
Mudam as palavras.
O coração humano continua sendo reconhecível.
E há uma ironia bonita nisso tudo: justamente quando descobrimos que a saudade não é exclusivamente nossa, podemos compreender melhor aquilo que realmente nos pertence.
Não é a palavra.
É a história que fizemos com ela.
Talvez a verdadeira singularidade da saudade portuguesa e brasileira esteja menos naquilo que ela significa e mais na importância que decidimos atribuir a ela.
Nós transformamos a ausência em poesia.
Transformamos a distância em música.
Transformamos a lembrança em literatura.
Transformamos a perda em memória.
E transformamos uma palavra em identidade.
Por isso, não tenho nenhum interesse em matar o mito da saudade.
Prefiro compreendê-lo.
Fernando Pessoa dizia que “o mito é um nada que é tudo”. E talvez seja exatamente isso.
A saudade não é uma propriedade exclusiva da língua portuguesa.
Mas é uma das palavras que melhor contam uma parte da nossa história.
E, no fim das contas, talvez seja essa a sua verdadeira beleza: a saudade não pertence a um idioma; pertence à experiência humana. Mas nós, brasileiros, aprendemos a pronunciá-la de um jeito que o mundo reconhece.
E isso já é uma espécie de eternidade.
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