Política e Resenha

A Tríplice Realidade de Conquista: Lula Vence, ACM Lidera e a Cidade Aprova a Si Mesma

 

 

 

 

A mais recente rodada de pesquisas de intenção de voto em Vitória da Conquista revela um quadro político-eleitoral de clivagens e particularidades que desafiam narrativas simplistas. Se por um lado a cidade se reafirma como um bastião de apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por outro, mostra uma clara preferência pelo opositor ACM Neto para o governo estadual. O elemento unificador, contudo, reside na percepção majoritária de que, independentemente dos líderes, a vida na própria cidade e no local de moradia melhorou.

O levantamento mais recente, realizado pela Conexão Pesquisas em Vitória da Conquista, de 10 a 13 de outubro, aponta que a prefeita Sheila Lemos (União) mantém uma alta aprovação e avaliação positiva de sua gestão, resultado que segue a tendência já verificada em julho por pesquisas da Séculus (publicada pelo Bahia Notícias, de Salvador) e do Instituto Gasparetto Pesquisas e Estatísticas (GPE). A pesquisa da Conexão ouviu 1.136 pessoas nas sedes e nos 11 distritos rurais do município, apresentando uma margem de erro de 2,9 pontos percentuais para mais ou para menos, com um intervalo de confiança de 95%.

 

O Voto Presidencial: A Consolidação do Lulismo Conquistense

 

Os dados para a corrida presidencial são inquestionáveis: Lula (PT) lidera em todos os cenários, tanto na pesquisa espontânea quanto nas estimuladas.

Na modalidade espontânea, o atual presidente atinge 36,88%, quase o dobro do segundo colocado, Tarcísio de Freitas (15,49%). Este apoio não é apenas um reflexo da força do PT no Nordeste, mas sim a consolidação de um eleitorado fiel que, ao ser estimulado, faz a intenção de voto em Lula saltar para a casa dos 41,99% (Cenários 1 e 2) e 41,81% (Cenário 3).

A oposição, por sua vez, ensaia o futuro com diferentes nomes. Tarcísio de Freitas (21,13% no Cenário 1) mostra-se o mais competitivo na disputa indireta pela herança bolsonarista, superando Eduardo Bolsonaro (18,57% no Cenário 2) e Michelle Bolsonaro (18,84% no Cenário 3). A disparidade entre Tarcísio e os demais ‘Bolsonaros’ sugere que, em Conquista, o eleitor de direita busca um nome que combine a ideologia com a capacidade de gestão, ainda que isso signifique escolher um outsider político da Bahia.

 

A Contradição Estadual: O Bipolarismo do Voto

 

A grande anomalia política de Conquista reside no contraste entre o apoio maciço a Lula (PT) e a preferência pelo seu principal opositor, ACM Neto (UNIÃO), na corrida pelo governo da Bahia.

Na disputa para governador, ACM Neto lidera com 41,11% no cenário estimulado, abrindo uma distância considerável para o atual governador Jerônimo Rodrigues (PT), que marca 33,45%.

Esta é a essência do “voto bicéfalo” (ou bipolar) conquistense. O eleitorado local parece capaz de compartimentar suas escolhas: vota no projeto nacional do PT por uma série de razões históricas e de distribuição de renda, mas avalia a gestão estadual e o nome de ACM Neto com lentes diferentes, talvez focando em sua imagem de gestor já consolidada na capital. O fato de Neto também liderar na espontânea (21,21% contra 19,54% de Jerônimo) indica que seu nome possui um reconhecimento de marca mais forte na cidade, mesmo com a máquina estadual a favor do petista.

 

O Otimismo da Cidade: A Aprovação da Vida Local

 

Talvez o dado mais revelador da pesquisa não seja a disputa eleitoral, mas a autoavaliação da cidade pelos seus moradores. Perguntados sobre a melhora da vida local, os conquistenses demonstram um notável otimismo.

  • A esmagadora maioria, 68,49%, acredita que Conquista melhorou nos últimos cinco anos.
  • Quando a pergunta se torna mais pessoal, se o local onde mora melhorou, o índice de satisfação ainda é altíssimo: 60,92% disseram que sim.

Este é o termômetro que a classe política deve observar. A alta percepção de melhora, somada aos baixíssimos índices de piora (6,34% e 6,6%), cria um ambiente de estabilidade e aprovação da gestão municipal, que, como vimos na análise anterior, também ostenta índices positivos.

 

Conclusão: O Voto Pragmático e Compartimentado

 

Vitória da Conquista não vota em bloco ideológico. A cidade exibe um eleitorado pragmático e compartimentado.

  1. Voto Presidencial: Forte apelo ideológico e social, alinhado ao histórico do PT.
  2. Voto Estadual: Preferência pela força da oposição (ACM Neto), talvez por uma busca por alternância ou reconhecimento de gestão.
  3. Voto Local: Forte aprovação da vida urbana, dando oxigênio à gestão municipal, que é do mesmo grupo político de ACM Neto (UNIÃO).

O grande articulador da política em Conquista, no final das contas, é o próprio eleitor, que escolhe seus líderes de forma independente, sem medo da contradição, e demonstra estar satisfeito com o ritmo de progresso da sua cidade. Este cenário complexo é um convite à reflexão: a política municipal, a estadual e a federal são avaliadas em esferas distintas, e o que realmente importa é a percepção da vida que se leva no dia a dia.