Política e Resenha

A Vaga de Wagner e a Memória que a Política Precisa Respeitar

 

 

 

(Padre Carlos)

Há quem insista em tratar a política como um espetáculo de temporada curta, onde as relações são descartáveis e a militância se apaga quando as câmeras se acendem. Mas eu não sou espectador desse teatro — eu fui parte. Eu tenho uma caminhada na vida política. Não aprendi sobre o Partido dos Trabalhadores em livros; aprendi caminhando, debatendo, sonhando e lutando com aqueles que acreditavam que a transformação social era mais do que um projeto: era vocação, era missão de vida.

Conheço Jaques Wagner desde o final da década de setenta. Estive presente no CEAS, ainda na fundação do partido. E faço questão de registrar: eu estava em uma reunião da Pastoral Operária quando o padre Confa me apresentou aquele sindicalista aguerrido que acabara de ser eleito presidente da Comissão Provisória do PT. Não existiam cargos, prestígio nem planos de poder — existia causa, existia compromisso, existia sangue nos olhos para enfrentar a desigualdade no Brasil.

Apoiei Wagner em 1986 e 1990. Coordenei a campanha de Zezeu junto com Célio Guimarães, quando política era trabalho de base, panfletagem na madrugada, confiança e reconhecimento mútuo. Por isso sei medir bem o peso da cena que nunca saiu da minha memória: em 2006, na recém-inaugurada Avenida Integração, no comício da vitória, o deputado tentou me apresentar ao governador recém-eleito — “Este é o Padre Carlos!”. Wagner olhou e respondeu: “Quem? Bel?”. Aquele episódio me ensinou que a memória dos palanques é seletiva — mas a história real nunca se apaga.

E é justamente sobre história que quero falar. Se existe alguém dentro do grupo político que tem legitimidade para ocupar a vaga ao Senado em 2026, esse alguém é Wagner. Porque foi ele quem plantou, regou e sustentou esse projeto. Wagner deu os melhores anos da sua vida a essa causa. Suportou derrotas, investiu fé nas horas mais difíceis, assumiu riscos quando muitos fugiram, carregou a Bahia nos ombros quando poucos acreditavam que fosse possível. E quem deu tanto merece reconhecimento. Política também é gratidão — e a gratidão é um valor ético.

Por isso não há contradição em dizer que existe disputa legítima no tabuleiro político — Rui Costa quer a vaga,  de  Angelo Coronel ou de Wagner — Quero aqui afirmar, com clareza e justiça, que a vaga tem dono histórico. Não por vaidade pessoal, não por conveniência partidária, mas porque existe biografia, entrega, densidade política e construção coletiva. Wagner é o nome mais importante do grupo. Ele é o cimento dessa unidade. Retirá-lo desse espaço estratégico seria um erro político grave, capaz de rachar a base e abrir feridas profundas.

Eu não tenho mágoa. O que tenho é memória. E a memória revela o óbvio: quando um projeto político constrói uma trajetória vitoriosa, quem o sustentou merece continuar conduzindo essa trajetória. Reconhecer Wagner não significa sufocar a democracia — significa proteger a coerência histórica.

A Bahia precisa de um debate honesto, livre e maduro sobre 2026. Mas antes do debate, é preciso justiça com a história. E nesse ponto eu sou categórico: Wagner conquistou essa vaga com a vida, com o corpo, com os anos de luta, com a militância que nunca se rendeu.

Se a democracia quer continuar viva, deve respeitar o eleitor — e também respeitar quem dedicou a vida ao povo. Nas eleições de 2026, o povo quer ser protagonista. E o povo reconhece quem esteve lá desde o início.