
Por Padre Carlos
A exoneração da presidente interina do Serviço Geológico Brasileiro (SGB), Sabrina Soares de Araújo Góis, após a descoberta de postagens antigas contra Lula e fotos ao lado de Michelle Bolsonaro, expõe mais uma vez o descompasso entre o discurso político e a prática de governar. O caso reacende uma pergunta incômoda: será que ninguém em Brasília está vendo o tamanho do amadorismo que tomou conta da gestão?
O Governo que se Complica com as Próprias Escolhas
A comédia administrativa ganhou novo episódio nesta semana, quando o Conselho de Administração do SGB — órgão vinculado ao Ministério de Minas e Energia — decidiu demitir a presidente interina após poucos dias no cargo. Sabrina Góis havia assumido o posto em 15 de outubro, acumulando, pasmem, três diretorias: Administração, Finanças e Infraestrutura Geocientífica.
O currículo até impressionava, mas o problema era outro: a nova chefe da estatal tinha um histórico digital nada alinhado ao governo que a nomeou. Nas redes, celebrava a prisão de Lula em 2018 e aparecia em fotos sorridentes ao lado de Michelle Bolsonaro. O que parecia ironia virou constrangimento público — e a exoneração foi imediata.
O Fantasma dos “Herdeiros” do Bolsonarismo
O episódio da SGB não é um caso isolado. No primeiro ano da atual gestão, antigos diretores do INSS — nomeados ainda no governo Bolsonaro — permaneceram em cargos estratégicos, conduzindo políticas sensíveis como se nada tivesse mudado.
A pergunta que ecoa nos corredores de Brasília é simples: será que ninguém está vendo isso?
A esquerda, que tanto criticou a herança bolsonarista, parece agora incapaz de afastar seus próprios fantasmas administrativos. O discurso de renovação se perde quando os mesmos rostos e práticas continuam ditando o ritmo da máquina pública.
A Esquerda e sua Velha Inabilidade Política
Se há algo que o episódio revela, é o quanto a esquerda brasileira ainda patina em estratégia política. A direita, com toda a sua rigidez ideológica, jamais aceitaria manter adversários em postos-chave. Já a esquerda insiste em confundir diálogo com ingenuidade — e termina, como sempre, sabotando a si mesma.
Enquanto o governo tropeça na própria leniência, o país assiste, mais uma vez, ao teatro do improviso: nomeações feitas sem critério, cargos estratégicos entregues por conveniência e demissões inevitáveis que soam como “gestão de crise”, quando, na verdade, são puro reflexo de amadorismo político.
Entre o Riso e o Desalento
Sabrina Góis cai, outro interino assume, e o ciclo continua. Brasília segue sendo o palco onde o improviso governa e a coerência é artigo de luxo.
A cada novo escândalo, fica a impressão de que a capital política do país virou um grande reality show, onde o roteiro muda conforme a próxima gafe.
No fim das contas, o velho ditado português volta a ecoar pelos corredores ministeriais: “Agora Inês é morta.”
Mas o mais triste é perceber que, no Brasil, Inês sempre morre — e o amadorismo continua vivo, risonho e impune.




