Política e Resenha

Alea Jacta Est na Bahia: Ângelo Coronel Cruza o Rubicão ao se Filia ao União Brasil

 

 

Autor: Padre Carlos

A política baiana acaba de assistir a um daqueles movimentos que, embora ainda não oficializados, já produzem efeitos reais no tabuleiro do poder. A informação divulgada pelo Política ao Vivo de que o senador Ângelo Coronel decidiu se filiar ao União Brasil, legenda comandada por ACM Neto, encerra dias de tensão, especulação e disputas silenciosas que vinham corroendo o interior do PSD e redesenhando, nos bastidores, o cenário das eleições na Bahia.

A tentativa frustrada de levar o PSD para a oposição expôs mais do que uma divergência partidária: revelou o esgotamento de um arranjo político que já não comportava as ambições individuais nem as contradições estratégicas do grupo. Sob a presidência do senador Otto Alencar, o PSD buscou preservar sua posição de aliado do governo estadual, mantendo pontes com o PT e com o governador Jerônimo Rodrigues. Coronel, porém, passou a operar em outra frequência, testando os limites dessa convivência e forçando uma ruptura que acabou se mostrando inevitável.

Antes de optar pelo União Brasil, Coronel tentou a filiação ao Republicanos, mas esbarrou em um ponto decisivo da política contemporânea: o comando estadual da sigla. Sem garantir o controle partidário, a mudança perderia sentido estratégico. Na política baiana, não basta trocar de legenda; é preciso chegar com poder real, capilaridade e espaço para construir projeto. Ao não obter essas garantias, o Republicanos deixou de ser opção viável.

A escolha pelo União Brasil é tudo, menos casual. Trata-se da legenda que abriga ACM Neto, principal líder da oposição e figura central nas alianças políticas que se articulam contra o grupo governista. Ao migrar para o União, Coronel não apenas muda de partido; ele muda de campo, de discurso e de horizonte eleitoral. O gesto ganha ainda mais peso com a sinalização de que seus filhos, Diego Coronel e Ângelo Filho, devem seguir o mesmo caminho partidário, consolidando um movimento familiar e político de médio e longo prazo.

Esse deslocamento tem impacto direto nos bastidores do poder. Ele enfraquece o discurso de unidade do campo governista, tensiona a relação histórica entre PT e PSD e fortalece a oposição com um senador experiente, conhecedor das engrenagens do Estado e com trânsito consolidado no interior. Para ACM Neto, é um reforço estratégico; para Jerônimo Rodrigues, um sinal de alerta. A política baiana entra, assim, em uma nova fase, marcada menos por declarações públicas e mais por movimentos silenciosos, calculados e irreversíveis.

Ainda que Coronel não tenha anunciado oficialmente sua filiação, o fato político já está consumado. Na política, como se sabe, o que conta não é apenas o anúncio, mas a direção do movimento. E a direção escolhida pelo senador indica que o ciclo de ambiguidade terminou. A travessia foi feita. Resta agora saber como o governo reagirá a essa mudança de margem e quais outras peças do tabuleiro seguirão o mesmo caminho.

A Bahia volta a provar que, por aqui, as grandes viradas raramente acontecem em palanques. Elas se constroem no silêncio, nas negociações discretas e nas decisões tomadas longe das câmeras. Quando vêm a público, já não são surpresa — são apenas a confirmação de que o jogo, mais uma vez, avançou.