
Durante quase um século, parte expressiva do Exército brasileiro e da cultura política de direita celebrou, ano após ano, a chamada “vitória” sobre a Intentona Comunista de 1935. Esse episódio histórico foi utilizado não apenas como registro do passado, mas como instrumento ideológico permanente para alimentar o anticomunismo, moldar consciências, justificar autoritarismos e manter viva uma narrativa de medo. A Intentona tornou-se menos um fato histórico e mais um símbolo político, explorado para sustentar uma cultura conservadora, hierárquica e, muitas vezes, avessa à democracia.
O curioso — e revelador — é que o Brasil, por décadas, comemorou a derrota de uma tentativa de golpe atribuída à esquerda, mas jamais criou uma tradição de celebrar as vitórias da democracia sobre golpes reais, concretos e perigosos vindos da extrema direita. Essa assimetria histórica diz muito sobre quem sempre teve o poder de contar a história oficial e quais interesses ela serviu.
O 8 de janeiro de 2023 rompe esse ciclo. Pela primeira vez, o país tem a chance histórica de ressignificar a memória política nacional e instituir uma data que não celebra quartéis, baionetas ou discursos de ódio, mas a resistência democrática, o Estado de Direito e a soberania popular. O 8 de janeiro precisa entrar para a história como o dia em que a democracia brasileira venceu, de forma clara e inequívoca, uma tentativa de golpe da ultradireita, do autoritarismo e do fascismo contemporâneo.
Diferente da Intentona de 1935, envolta até hoje em controvérsias, exageros narrativos e instrumentalização ideológica, a tentativa de golpe do 8 de janeiro foi transmitida ao vivo, registrada por câmeras, celulares e pelos próprios golpistas. Não houve espaço para versões fantasiosas. O ataque às instituições foi explícito: Congresso Nacional, Supremo Tribunal Federal e Palácio do Planalto foram alvos diretos de uma ação coordenada que buscava destruir símbolos da República e abrir caminho para um regime de exceção.
Celebrar o 8 de janeiro não é dividir o país, como insistem alguns. Pelo contrário: é afirmar um pacto civilizatório mínimo. É dizer, de forma pedagógica e pública, que golpes de Estado, ataques às instituições democráticas e flertes com o fascismo não serão tolerados. É transformar a memória em vacina política contra novas aventuras autoritárias.
Mais do que uma data, o 8 de janeiro deve se tornar um marco cultural, político e educativo. Um dia para lembrar que as “forças ocultas” que sempre mandaram no país — elites autoritárias, setores antidemocráticos, interesses econômicos travestidos de patriotismo — foram derrotadas não por armas, mas pela Constituição, pelas instituições e pela mobilização democrática.
Se durante décadas o Brasil ensinou suas crianças a temer o “fantasma do comunismo”, chegou a hora de ensinar às novas gerações o verdadeiro perigo: o autoritarismo, a extrema direita, o fascismo e a negação da democracia. O 8 de janeiro precisa ser lembrado todos os anos como o dia em que a democracia venceu. Não como retórica, mas como compromisso histórico.
A história, afinal, não é neutra. Ela sempre escolhe um lado. E o lado que o Brasil deve escolher, sem ambiguidade, é o da democracia.
Padre Carlos




