Política e Resenha

ARTIGO – A Banalidade do Mal: Quando a barbárie veste terno e gravata

 

(Padre Carlos)

A filósofa Hannah Arendt cunhou a expressão “banalidade do mal” ao analisar o julgamento de Adolf Eichmann, um dos arquitetos do Holocausto. Arendt não via Eichmann como um monstro demoníaco, mas como um homem comum, medíocre, burocrático, que seguiu ordens e convenções sociais sem pensar nas consequências morais de seus atos. A banalidade do mal, portanto, não é a fúria assassina de um psicopata, mas a frieza racional de quem decide que a morte de inocentes é um dano colateral justificável.

O mundo ficou estarrecido com as declarações de Michal Waldiger, deputada do Partido Sionista Religioso, que afirmou, sem hesitação, que até crianças deveriam ser mortas em Gaza, pois “não há outra maneira”. Suas palavras, proferidas em plena tribuna do Knesset, não foram fruto de um acesso de raiva, mas de uma convicção ideológica. E é isso que as torna ainda mais assustadoras. A turma do Hitler é café pequeno diante de quem normaliza o extermínio infantil com argumentos de conveniência política.

A violência, quando travestida de patriotismo, ganha aplausos. A desumanização do outro, quando abençoada por bandeiras e discursos religiosos, torna-se estratégia de Estado. E a morte, quando serve a um projeto expansionista, deixa de ser tragédia para se tornar estatística.

As palavras de Waldiger não são apenas chocantes – são criminosas. E nos obrigam a questionar até onde vai o silêncio cúmplice da comunidade internacional. Quando um representante eleito defende abertamente o assassinato de crianças e continua em seu cargo, sem sanções, sem investigações, sem sequer um pedido de desculpas, algo está apodrecido nas estruturas do poder.

Este tipo de discurso não é apenas moralmente repugnante – ele configura uma ruptura ética profunda. Ele naturaliza a barbárie. E, ao fazer isso, legitima um novo tipo de genocídio, onde a vítima não é mais humana, mas reduzida a um “obstáculo” que precisa ser eliminado.

Israel tem o direito à sua segurança, assim como o povo palestino tem o direito à sua existência. Mas quando o discurso da segurança se transforma em licença para matar, inclusive crianças, o que está em jogo já não é mais a geopolítica, mas a própria civilização.

A história cobrará caro por esse silêncio. Porque o mal não precisa de monstros para triunfar. Basta que pessoas normais, respeitáveis, bem-vestidas e eleitas democraticamente, decidam que matar crianças é uma opção viável. E que o resto do mundo ache isso apenas uma “opinião polêmica”.