Política e Resenha

ARTIGO – A Beleza Que Esquecemos de Ver

 

(Padre Carlos)

Diz a velha lenda que um homem desejava vender o seu sítio. Procurou o poeta Olavo Bilac, pedindo-lhe que redigisse um anúncio. Bilac, com sua sensibilidade rara, escreveu: “Vende-se encantadora propriedade, onde no extenso arvoredo cantam os pássaros ao amanhecer. É cortada por cristalinas águas de um ribeirão, e a casa nela existente é banhada pelo sol nascente e oferece as sombras tranquilas das tardes nas varandas.”

Dias depois, o homem encontrou o poeta e confessou: “Depois que li o anúncio, percebi a maravilha que eu tinha. Desisti de vender.”

Essa breve parábola traz uma sabedoria profunda: muitas vezes, só reconhecemos o valor daquilo que temos quando alguém nos faz enxergar com outros olhos. Assim é a vida — o bem mais precioso que possuímos, e que tantas vezes deixamos escapar entre os dedos por descuido, pressa ou ingratidão.

Vivemos reclamando das dificuldades, dos dias cinzentos, das pedras no caminho, esquecendo que até o chão pedregoso é um convite a fortalecer os passos. O poeta via beleza onde o outro via apenas rotina. E talvez seja essa a grande diferença entre existir e viver: o olhar.

Quem aprende a olhar com gratidão descobre que a vida, mesmo com suas dores, é um presente diário. É o sol que volta todas as manhãs, a brisa que refresca, o sorriso inesperado, o canto do pássaro que não precisa de plateia. Tudo isso é vida se revelando em pequenas doses de eternidade.

Deus, o Senhor da vida, nos concede o dom de viver não como um fardo, mas como uma oportunidade de aprender, crescer e amar. Por isso, antes de “vender o sítio”, olhemos ao redor — pode ser que o que buscamos com tanta ânsia já esteja em nossas mãos.

A vida é encantadora propriedade. Só precisamos aprender a descrevê-la com o coração de um poeta.