
Padre Carlos
Existe um limite invisível entre a indignação popular e a cara-de-pau institucional. E parece que Brasília resolveu testar, dia após dia, qual é a espessura desse limite. Agora, no telejornal, entre um intervalo e outro, somos “informados” com solenidade que a Câmara decidiu bloquear o salário de Alexandre Ramagem. Que gesto nobre. Que austeridade. Que zelo com o dinheiro público. É quase comovente.
Quase.
Porque o que realmente espanta não é o corte de salário — é o fato de o foragido Ramagem ainda ter mandato. Condenado, com trânsito em julgado, por tentativa de golpe de Estado. Fugido para os Estados Unidos. Tentando driblar a Justiça como quem tenta pular catraca de metrô. E mesmo assim, o Congresso finge surpresa. Dão nota, fazem pose de seriedade, batem no peito e anunciam: “Bloqueamos o salário”. Ah, por favor.
Enquanto o brasileiro sustenta a máquina pública na unha e no boleto, um deputado condenado continua circulando com gabinete, assessores, cotas e toda a Disneylandia de benefícios que só a política oferece. R$ 46 mil mensais de salário, fora passagens, combustível, cota parlamentar e estrutura. Em alguns meses, a conta desses foragidos passa dos R$ 460 mil por mês. Dinheiro público, dinheiro do povo, dinheiro da dona de casa, do servidor, do motorista de aplicativo e do empresário que paga impostos até para existir. Mas Brasília, claro, finge que esse é apenas mais um dia útil.
E não é só Ramagem. A lista dos “selfies internacionais” da extrema-direita condenada é longa: Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos incitando o governo americano contra os interesses do Brasil, Carla Zambelli desfilando pela Europa depois de correr armada atrás de um eleitor e invadir sistemas do Judiciário. Todos com mandato. Todos com benefícios. Todos bancados pelo contribuinte — inclusive aquele que votou contra eles.
A perda de mandato, que deveria ser automática diante de condenação criminal, virou uma dança da chuva jurídica, empurrada com a barriga em nome do corporativismo. A Câmara dos Deputados virou um bunker, um abrigo cinco estrelas para quem tenta transformar crime em carreira política — e ainda lucrar com isso.
A verdade é cristalina: quem está condenado não pode exercer mandato. Quem está preso não legisla. Quem está foragido não representa ninguém. A lei é clara — e está sendo rasgada com cerimônia.
Mas Brasília prefere fingir. E nós, espectadores pagantes, continuamos nessa ópera bufa, assistindo o teatro da legalidade enquanto criminosos políticos continuam garantindo milhas, gasolina e gabinete — tudo com o nosso dinheiro.
Um país que tolera isso não está à beira de crise institucional.
Ele já está dentro dela.




