Política e Resenha

ARTIGO – A Chapa Puro-Sangue e o Erro da Soberba Política

 

 

Padre Carlos

 

A política, quando se fecha em si mesma, costuma confundir identidade com exclusão. A chamada “chapa puro-sangue” do PT na Bahia nasce desse equívoco: ao tentar reafirmar hegemonia, conseguiu o feito raro de desagradar a esquerda histórica que caminhou com o partido antes mesmo de chegar ao poder e, ao mesmo tempo, ferir a centro-direita institucional representada pelo PSD. Em vez de ampliar a base, estreitou-a. Em vez de somar, subtraiu.

A retirada de Angelo Coronel da chapa não foi apenas uma decisão tática; foi percebida como uma punhalada pelas costas. A vaga, por direito político e por acordo tácito, pertencia ao PSD. Na política real — essa que se faz com compromissos, lealdade e respeito aos aliados — romper assim tem custo. E o custo apareceu rapidamente: a ausência de dois senadores no evento de Lula em Salvador não foi acaso de agenda; foi sinal claro de descontentamento. Sinal político se lê com atenção, porque ele antecede a crise.

O erro central está na leitura do tabuleiro. Angelo Coronel não precisa firmar acordo com ACM Neto para se tornar viável. O apoio poderia cair em seu colo “de graça”, simplesmente porque a oposição adoraria retirar um cacique petista do jogo e substituí-lo por um nome de centro, institucional, com trânsito e capacidade de diálogo. A política brasileira, especialmente na Bahia, sempre valorizou pontes — e Coronel é uma ponte. Não por oportunismo, mas por trajetória.

Há ainda um dado que não pode ser ignorado: o PSD tem prefeitos, capilaridade e base municipal. Se Otto Alencar assim determinar, esses prefeitos marchariam com Coronel sem abandonar Jerônimo e Lula. Essa é a natureza do partido: pragmático, federativo, atento às realidades locais. Ignorar isso é desconhecer a engenharia política que sustenta vitórias eleitorais em cenários complexos.

A esquerda que acompanhou o PT nas travessias mais duras — quando não havia máquina, nem holofote — sente-se deslocada por uma estratégia que privilegia a pureza simbólica em detrimento da convivência plural. A centro-direita, por sua vez, reage ao ser tratada como descartável. Democracia não é uniformidade; é coalizão. Não é imposição; é negociação.

No fim, a “chapa puro-sangue” pode até satisfazer os fiéis do núcleo duro, mas arrisca isolar o projeto maior. Política se ganha com maioria, não com pureza. Com alianças estáveis, não com ressentimentos acumulados. A Bahia, sua história e sua complexidade exigem menos soberba e mais escuta. Porque, na política, quem fecha portas cedo demais costuma descobrir tarde que precisava delas abertas.