Política e Resenha

ARTIGO – A Corda do Crime: Vitória da Conquista Refém da Bandidagem Noturna

 

(Padre Carlos)

Enquanto Vitória da Conquista dormia, o crime acordava cedo. Às 3h20 da madrugada, uma cena macabra se desenrolava nas sombras da Rua 22, no bairro Conveima: um homem, corda em punho, tentava empurrar o caos para dentro do Presídio Nilton Gonçalves. Uma corda. Um saco. Um presídio. A equação do terror estava armada.

A ação criminosa, flagrada por equipes do PETO da 78ª CIPM, sob o comando do tenente-coronel Pontes, revelou mais que um ato isolado: escancarou as vísceras de um sistema carcomido, frouxo, cúmplice pela omissão. O criminoso foi surpreendido no momento exato em que alimentava o ventre faminto do crime institucionalizado. Mas e os que passaram despercebidos? Quantas cordas, quantos sacos, quantas mãos invisíveis estão operando nas madrugadas conquistenses?

Dentro do saco da vergonha: drogas, celulares, carregadores, massa de epóxi, comida. Uma lista digna de supermercado do submundo. O material seria entregue aos internos, que seguem comandando operações como se estivessem em suas casas — ou melhor, em seus escritórios do crime. E tudo isso por apenas R$ 300. O preço da moral virou trocado. A consciência social, um artigo em extinção.

Vitória da Conquista, outrora referência de progresso no sudoeste baiano, virou quintal de facções? O Nilton Gonçalves é ainda um presídio ou já se converteu em base de operações de uma criminalidade que ri das instituições e tripudia da sociedade?

O comparsa fugiu de moto. Escapou da polícia, mas não escapa da nossa memória. Ele é o símbolo do sistema que vaza pelos poros da impunidade. Que Estado é esse que permite que, com corda e epóxi, se burle um sistema prisional? Quem responde por essa brecha? Onde estão as câmeras? Os agentes? O controle?

A população, acuada, se tranca em casa enquanto o crime passeia pela madrugada. A rua virou território de guerra. O presídio, um centro de logística. E a polícia? Corajosa, sim, mas sozinha. Sozinha contra um aparato criminoso que parece rir do lado de lá das grades.

Essa corda lançada ao presídio é símbolo de algo muito maior: é o fio invisível que liga o abandono da segurança pública à audácia das facções. É o elo entre a fragilidade das instituições e a força crescente do crime. Até quando viveremos assim, reféns da escuridão? Até quando vamos naturalizar o absurdo?

Este caso não é banal. É sinal. Alerta. É o grito sufocado de uma cidade cansada de promessas e rendida aos bandidos. Ou enfrentamos agora esse sistema podre — com inteligência, coragem e investimento — ou entregaremos o futuro aos que já dominam o presente.

E você, cidadão de Vitória da Conquista, vai continuar dormindo tranquilo enquanto cordas do crime atravessam os muros da lei?