Política e Resenha

ARTIGO – A cova de Manresa em mim: meu caminho inaciano de discernimento

 

(Padre Carlos)

A história de Santo Inácio de Loyola sempre me pareceu mais do que uma biografia de um santo fundador — é, para mim, um espelho. Assim como ele, ferido nas guerras da vaidade, descobriu na convalescença os primeiros sinais de um chamado mais profundo, também eu, entre batalhas internas e buscas de sentido, encontrei nos Exercícios Espirituais Inacianos uma cova de Manresa particular, silenciosa e fecunda, onde fui sendo moldado pelo Espírito.

Minha entrada na CVX – Comunidade de Vida Cristã, foi o ponto de virada. Ali, guiado pelos Exercícios, experimentei o que Inácio chamou de “consolação sem causa precedente” — aquela paz profunda que não se explica, apenas se reconhece como vinda de Deus. Essa espiritualidade inaciana, exigente e transformadora, ensina a escutar Deus nas moções mais sutis, nos movimentos da alma, no discernimento que não busca apenas o que é bom, mas o que é o melhor — o magis, como dizia Inácio.

Foi na Paróquia Santo André, no Nordeste de Amaralina, em Salvador, que essa espiritualidade se encarnou para mim. O contato com os padres jesuítas, seus modos sóbrios, seu amor exigente pela liberdade, sua paciência com o processo, foi decisivo. Aquela paróquia pulsava vida inaciana. Havia ali um ardor quieto, uma chama sem alarde, que era ao mesmo tempo contemplativa e comprometida com os pobres, os jovens, os esquecidos.

Lembro com reverência das vezes em que visitei o noviciado dos Jesuítas no Rio Vermelho. Cada conversa com os noviços, cada missa celebrada ou vivida ali, ampliava em mim o horizonte vocacional. Aquela casa não era apenas um espaço de formação: era um laboratório de discernimento, onde se aprendia a amar e servir com liberdade interior, despojamento e inteligência espiritual.

Não posso esquecer de irmã Rafaela, minha orientadora espiritual. Foi ela quem, com ternura e firmeza, me ajudou a perceber os sinais da vocação que me conduziria à Arquidiocese de Vitória da Conquista. Sua escuta atenta, seus silêncios oportunos, suas perguntas afiadas como espada espiritual, foram uma extensão dos próprios Exercícios de Inácio. Com ela, aprendi que a vocação é menos um lugar para chegar e mais um modo de caminhar, com os olhos fixos em Jesus e os pés sujos da estrada.

Santo Inácio dizia que “não o muito saber sacia e satisfaz a alma, mas o sentir e saborear internamente as coisas”. Foi exatamente isso que experimentei: um saber que brota da oração, do silêncio, da escuta e da entrega. Um saber que não quer ter razão, mas estar em comunhão com o Deus que chama, move e envia.

Hoje, olhando para minha trajetória, vejo que os Exercícios Inacianos não foram apenas uma etapa — foram e são um modo de ser. Um modo de escolher, de rezar, de servir, de me relacionar. É essa espiritualidade que me sustenta em toda a minha vida, que me livra do ativismo vazio, que me devolve ao essencial sempre que o ruído do mundo tenta dominar meu coração.

Como Inácio na cova de Manresa, eu também escrevo — não com tinta e papel apenas, mas com a vida. E continuo, dia após dia, pedindo a graça do discernimento. Porque ser padre, mesmo não estando exercendo os ministérios, ser cristão, ser servo, é sempre recomeçar: “Em tudo, amar e servir”.

Santo Inácio de Loyola, rogai por nós.