Política e Resenha

ARTIGO – A Crise Venezuelana e o Cerco do Imperialismo: Uma Ameaça para Toda a América Latina

 

 

 

(Padre Carlos)

A fumaça ainda não subiu dos campos venezuelanos, mas o cheiro de pólvora já ronda os céus da América Latina. O que hoje parece apenas tensão diplomática, operações “secretas” e ataques no mar pode muito em breve tornar-se a mais nova frente de guerra alimentada pelo velho motor do imperialismo estadunidense.

Sim, os Estados Unidos já estão atacando a Venezuela. Ainda não por terra com tanques e fuzis, mas com mísseis e barcos no Mar do Caribe. São pelo menos seis ataques — e 27 mortos — em embarcações que, segundo o governo dos EUA, estariam envolvidas com o narcotráfico. Curiosamente, nenhum desses ataques foi devidamente comprovado. Nenhuma evidência concreta foi apresentada à comunidade internacional. Apenas acusações soltas, semelhantes àquelas que, em 2003, justificaram a invasão do Iraque sob o falso pretexto das “armas de destruição em massa”. Hoje sabemos que não havia nenhuma.

Estamos, novamente, diante da mesma cartilha imperial.

Donald Trump, em recente declaração no Salão Oval, afirmou que as operações contra a Venezuela são justificadas por dois motivos: o envio de drogas ao território americano e a suposta liberação de presos pelas autoridades venezuelanas. Argumentos frágeis, simbólicos, mas eficazes para a retórica bélica de sempre. Por trás desses discursos, no entanto, o que se esconde é muito mais valioso — e inflamável: petróleo. A Venezuela possui as maiores reservas provadas de petróleo do planeta, superando até mesmo a Arábia Saudita. É essa riqueza que transforma o país em alvo.

Não se trata de guerra às drogas. Trata-se de guerra por recursos.

O modus operandi é velho conhecido: antes da invasão militar declarada, vêm os bloqueios econômicos, as operações da CIA, os ataques cirúrgicos, a propaganda. Depois, se for “necessário”, vem a guerra convencional — sempre em nome da “liberdade”, da “democracia” e de um “mundo mais seguro”.

E é aqui que a América Latina precisa acordar. A ameaça à Venezuela é uma ameaça regional. O que acontece em Caracas hoje pode muito bem acontecer em Brasília ou La Paz amanhã. O Brasil, por exemplo, é detentor de enormes reservas de nióbio, grafeno e outras terras raras — recursos altamente estratégicos. E como qualquer estudante de geopolítica sabe, os Estados Unidos não hesitam em intervir quando seus interesses estão em jogo, especialmente quando se trata de competir com a China.

E aqui entra outro ator central neste tabuleiro: a China. Pequim tem se posicionado firmemente contra qualquer intervenção militar na Venezuela. O porta-voz do governo chinês, Lingan, foi categórico: a China não permitirá ataques à integridade territorial venezuelana, reafirmando a América Latina como zona de paz. Esta não é apenas uma disputa entre dois países — é a manifestação concreta da nova Guerra Fria, com Washington e Pequim se enfrentando em múltiplas frentes: econômica, tecnológica e agora também militar.

A solidariedade latino-americana, que deveria ser um escudo natural contra esse tipo de ingerência, anda fraca. Falta contundência a países como o Brasil, que poderiam — e deveriam — adotar uma postura mais firme contra o imperialismo. Porque hoje a vítima é a Venezuela. Amanhã, quem sabe?

A história nos ensinou que a liberdade de um país latino-americano está sempre conectada à liberdade dos demais. O imperialismo não é seletivo em suas ambições. Ele só respeita o que teme. Se não formos capazes de erguer nossas vozes hoje, podemos ser forçados a erguer armas amanhã.

A situação é grave, e não se trata de alarde. Trata-se de entender o mundo com olhos abertos, memória ativa e senso crítico aguçado. O que os Estados Unidos chamam de “missões de paz” ou “operação antidrogas”, a história chamará de intervenção imperialista. E quanto mais tarde reconhecermos isso, mais caro pagaremos — todos nós, latino-americanos.

Conclusão:
A crise na Venezuela não é um problema isolado. É um campo de prova para os interesses geopolíticos de potências que nunca se afastaram da lógica colonial. Diante disso, a América Latina precisa decidir de que lado está: do direito dos povos à soberania, ou da submissão à velha lógica de dominação.

O tempo de silêncio acabou.