Política e Resenha

ARTIGO – A Democracia que Matriculou, Mas Não Educou

 

 

(Padre Carlos Roberto)

Quarenta anos de democracia, e o Brasil ainda não aprendeu sua lição mais básica: a de ensinar.
Sim, é verdade — aumentamos o número de matrículas. Em 1985, um quarto das nossas crianças estava fora da escola. Hoje, esse número caiu para 2%. Um avanço numérico que poderia ser motivo de celebração… se não fosse apenas isso: um número.

Porque matrícula não é sinônimo de frequência.
Frequência não é sinônimo de assiduidade.
Assiduidade não é sinônimo de permanência.
E permanência, infelizmente, não é sinônimo de aprendizado.

Criamos uma imensa máquina de registrar presença, mas não de formar consciência.
A escola brasileira ainda é, em muitos lugares, um espaço de exclusão dentro da inclusão. A criança está lá, mas o conhecimento não chega. O professor resiste, o aluno se ausenta — e o sistema finge que tudo vai bem, embalado por índices que não medem o essencial: o saber que transforma.

O presidente Lula gosta de lembrar que tirou o Brasil do mapa da fome. É verdade, e é um mérito histórico. Mas, se da fome física escapamos, continuamos presos à miséria intelectual. Essa é a pobreza mais perversa: a pobreza do discernimento, da leitura crítica, da ciência e da tecnologia.

Quarenta anos depois da redemocratização, não conseguimos ser uma nação de ponta em inovação, em pensamento, em conhecimento. A desigualdade segue entranhada na sala de aula: enquanto uns estudam em laboratórios de ponta, outros aprendem a soletrar à luz precária de uma lanterna.

E o problema não é falta de dinheiro — é falta de prioridade.
Faltou vontade política de colocar o professor no centro da República, o aluno no centro do futuro e a escola no centro do desenvolvimento.

O Brasil fez a democracia do voto, mas não fez a democracia da mente.
Porque o verdadeiro voto é aquele dado todos os dias ao conhecimento — e esse, ainda estamos aprendendo a depositar.

Se quisermos um país realmente livre, não basta garantir matrícula. É preciso garantir educação de qualidade.
E qualidade, no Brasil, ainda é um sonho não matriculado.