
(Padre Carlos)
Como filósofo de profissão e articulista de vocação, tenho observado com atenção o comportamento político da direita no Brasil. Não se trata de um olhar apressado nem movido por paixões ideológicas imediatas, mas de um esforço analítico para compreender um fenômeno que atravessa nosso tempo histórico: a profunda crise de identidade das direitas brasileiras, hoje amplamente confundidas com a extrema direita.
As reflexões do historiador Odilon Caldeira Neto, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, lançam luz sobre um ponto decisivo desse debate. A direita, ao abdicar de sua tradição liberal-conservadora e permitir-se capturar pela linguagem, pelos símbolos e pela lógica da extrema direita, deixou de disputar hegemonia democrática e passou a flertar perigosamente com projetos abertamente antidemocráticos. O resultado é uma corrosão interna que cobra, agora, um preço alto.
A extrema direita não é apenas uma radicalização retórica. Ela carrega uma visão de mundo fundada no autoritarismo, no culto à força, na nostalgia de um passado mítico e na recusa explícita das regras do jogo democrático. Quando esse universo simbólico e discursivo passa a ser normalizado no campo conservador, o que se perde não é apenas o centro político, mas a própria noção de responsabilidade institucional.
O caso brasileiro é emblemático. Jair Bolsonaro emerge inicialmente por vias eleitorais, mas seu percurso revela uma escalada que culmina na tentativa de ruptura democrática. Aqui reside um ponto essencial: não se trata apenas de uma liderança carismática ou de um estilo político excêntrico, mas de um fenômeno estrutural da extrema direita contemporânea, que opera na tensão permanente entre legalidade formal e subversão institucional.
A confusão conceitual entre direita, direita radical e extrema direita tem servido mais para obscurecer do que para esclarecer o debate público. Como lembra Odilon Caldeira Neto, categorias analíticas mais amplas são fundamentais para compreender processos históricos de curta, média e longa duração. Personalizar excessivamente o fenômeno — chamando-o apenas de “bolsonarismo” — pode nos fazer perder de vista algo mais profundo: a consolidação de um ecossistema político, cultural e digital que transcende indivíduos.
Essa crise das direitas brasileiras se agrava quando o descrédito às urnas eletrônicas, às instituições e ao próprio processo eleitoral passa a ser tratado como discurso legítimo. O que antes estava à margem foi sendo naturalizado, até se tornar quase um idioma oficial do campo conservador. Nesse ponto, a direita deixa de ser alternativa democrática e passa a ser vetor de instabilidade.
A autocrítica, defendida pelo historiador, não é um gesto de fraqueza, mas de maturidade política. Sem ela, a direita permanecerá refém de uma radicalização que a empurra para o isolamento e para a irrelevância institucional. Com ela, talvez seja possível reconstruir uma direita democrática, comprometida com o Estado de Direito, com a pluralidade e com a civilidade política.
Outro elemento inquietante é o papel do ambiente digital na disseminação de símbolos, códigos e narrativas extremistas. Vivemos uma era em que a política se comunica por emojis, memes e linguagens cifradas, muitas vezes fora do radar institucional. Essa topografia do extremismo, como bem define Odilon, exige mais do que respostas jurídicas pontuais: requer inteligência institucional, educação política e capacidade de leitura cultural.
Figuras como Pablo Marçal não surgem no vácuo. Elas são produto de um tempo marcado pelo ultraliberalismo performático, pela lógica do “self-made man” e pela rejeição sistemática da mediação política tradicional. Ainda que essas figuras não conquistem o poder majoritário, tendem a pulverizar o discurso extremista em parlamentos, redes sociais e debates locais, ampliando a crise de representação.
A democracia brasileira não pode se dar ao luxo de normalizar o extremismo. Tampouco a direita pode sobreviver politicamente sem enfrentar seus próprios fantasmas. A história ensina que toda tradição política que abdica da autocrítica acaba se tornando prisioneira de suas próprias sombras. O desafio posto é claro: ou a direita brasileira se reencontra com a democracia, ou continuará confundida com aquilo que, no fundo, ameaça destruí-la.




