Política e Resenha

ARTIGO – A Epidemia da Indelicadeza (Padre Carlos)

 

 

 

Vivemos em uma época barulhenta. Todo mundo tem opinião sobre tudo, fala alto, atropela as palavras e, muitas vezes, atropela também as pessoas. No meio dessa pressa doentia, uma epidemia silenciosa vai se espalhando: a epidemia da indelicadeza. Não dá febre, não leva a um hospital, mas adoece a alma e destrói a convivência entre nós.

A cena é comum: a porta que bate na sua cara, o “bom dia” que fica sem resposta, o motorista que lhe fecha sem pensar, o colega que responde atravessado no trabalho, a grosseria disfarçada num comentário. Coisas pequenas? Não. São sintomas de algo maior, um mal social que mina a paciência, corrói a autoestima e empurra muita gente para o isolamento, para a ansiedade, para a depressão.

Indelicadeza é a negação do outro. É dizer, sem palavras, que o tempo e a vida da pessoa não valem nada. Cada gesto grosseiro é um cortezinho que parece pequeno, mas, somado a milhares, machuca fundo e deixa cicatrizes. E pior: é contagioso. Quem é tratado com grosseria tem mais chance de repassar o veneno adiante, num ciclo vicioso que só aumenta a hostilidade e o cansaço coletivo.

No trabalho, o custo é altíssimo. Não existe criatividade, colaboração ou produtividade em um ambiente contaminado pela falta de respeito. O talento vai embora, o clima pesa, e as empresas perdem muito mais do que imaginam. No convívio diário, a grosseria espalha desconfiança e fecha portas que poderiam se abrir para relações humanas mais verdadeiras.

A saída? Gentileza. Mas não como um gesto bonitinho ou uma fraqueza. Gentileza é resistência. É um ato de rebeldia contra a aspereza do mundo. Segurar uma porta, agradecer de verdade, ser paciente, ouvir sem desqualificar. Pequenas atitudes, mas que desarmam a hostilidade e criam ilhas de humanidade. Se cada um fizer a sua parte, essas ilhas viram um continente.

O combate à indelicadeza não depende de leis nem decretos. Ele acontece no campo de batalha do cotidiano, nas interações mais simples. Gentileza é cimento social: nos mantém de pé quando tudo parece ruir. E sejamos honestos: a nossa estrutura já mostra rachaduras demais.