Política e Resenha

ARTIGO – A Estratégia Perneta de Washington e a Resistência do Chavismo

 

 

(Padre Carlos)

Há momentos na geopolítica em que a retórica imperial tropeça na realidade concreta do poder. A Venezuela vive exatamente esse instante. Os Estados Unidos, sob a batuta errática de Donald Trump, anunciaram ao mundo uma pretensão que beira o delírio estratégico: governar a Venezuela até que fosse possível uma “transição”. A pergunta óbvia, repetida por jornalistas e analistas sérios, permanece sem resposta: governar com quem?

A verdade nua e crua é que a Casa Branca não dispõe de atores internos suficientemente relevantes, representativos e enraizados para constituir uma alternativa real ao chavismo. Não agora, não no curto prazo, talvez nem no médio. É por isso que a estratégia de Trump nasce manca, incompleta, perneta. E é também por isso que ele desqualificou Maria Corina Machado: não por excesso de força, mas por fraqueza política. Ela não entrega governabilidade, não mobiliza massas, não controla instituições. Serve ao discurso, mas não ao poder.

Trump blefa porque não tem cartas sólidas. Não consegue responder como imagina governar a Venezuela porque, simplesmente, não há resposta. O Estado venezuelano continua operando sob a lógica chavista. As Forças Armadas, o Tribunal Supremo de Justiça, o Conselho de Defesa Nacional e o próprio Parlamento seguem reconhecendo Nicolás Maduro como presidente legítimo e constitucional da República Bolivariana da Venezuela. Isso não é detalhe: é o coração do poder.

O que ocorreu não foi uma deposição clássica, nem um colapso institucional. O que ocorreu foi o sequestro do presidente Nicolás Maduro. Sequer houve ruptura formal do Estado. As instituições não o abandonaram. Ao contrário, reafirmaram sua autoridade. É exatamente isso que transforma o gesto norte-americano numa “batata quente”: Washington criou um fato, mas não construiu uma saída política viável. Sonha com um regime fantoche, mas não encontra quem vista a fantasia.

Diante desse impasse, Trump tenta ganhar tempo. Ameaça novos ataques, mantém o cerco naval, insinua negociações obscuras, acena para setores da direita tradicional e, no limite, calcula se seria possível dobrar algum setor do próprio chavismo. Tudo entra na conta, porque não há solução pronta. A política externa norte-americana, nesse caso, não passa de uma aposta desesperada na fadiga do adversário.

É preciso rejeitar, com firmeza, o derrotismo que começou a se espalhar na América Latina e no Sul Global. Sim, o sequestro de Maduro foi um golpe duro. Sim, taticamente, os Estados Unidos venceram uma batalha específica. Mas confundir isso com a derrota do chavismo é um erro grosseiro de análise. É capitulação intelectual. É desistir antes do desfecho.

Ser realista, aqui, é evitar dois extremos igualmente perigosos: o ufanismo vazio e o derrotismo covarde. Não houve colapso do projeto bolivariano. Não houve rendição das instituições. O governo segue funcionando. A autoridade do Estado foi reafirmada. Isso muda completamente o tabuleiro.

A saída preferida de Trump é conhecida e velha: acionar, sob pressão, um dispositivo constitucional venezuelano que prevê a declaração de vacância da presidência em caso de interrupção do mandato antes da metade do período. Declarada a vacância pelo Parlamento, novas eleições seriam convocadas em até 90 dias. Esse seria o caminho “legal” para asfaltar a saída do chavismo do poder.

Mas essa engrenagem não gira sozinha. Ela depende de cumplicidade interna. Depende de Delcy Rodríguez, das Forças Armadas, do Judiciário e do Parlamento aceitarem a farsa. E isso não ocorreu. Pelo contrário. A resposta do Conselho de Defesa Nacional foi clara, taxativa e histórica: Nicolás Maduro é o único e legítimo presidente da Venezuela. Essa posição foi chancelada pelo Tribunal Supremo, pelas Forças Armadas e tende a ser reafirmada pelo Parlamento presidido por Jorge Rodríguez. Com isso, a hipótese de antecipação eleitoral foi neutralizada, ao menos por agora.

Daí a irritação de Trump. Daí o fracasso de suas manobras. Fontes indicam que, em novembro, teria sido oferecida a Maduro uma saída “honrosa”: renúncia, asilo na Rússia ou na Turquia e eleições antecipadas. Maduro recusou. Viu nisso — corretamente — um atentado direto à soberania nacional. A recusa empurrou Washington para a aventura do sequestro, numa repetição sinistra do roteiro de 2002 contra Hugo Chávez.

A história, aliás, ensina. Em abril de 2002, Chávez foi derrubado por um golpe interno apoiado pelos Estados Unidos. Preso, levado a local desconhecido, pressionado a renunciar para que o Parlamento declarasse a vacância. Mentiram dizendo que ele havia renunciado. Chávez resistiu, fez chegar um bilhete ao mundo afirmando que não havia renunciado. O povo e setores leais das Forças Armadas o reconduziram ao poder. A Constituição Bolivariana venceu.

Hoje, a operação é semelhante, mas o desfecho, até aqui, também. A recusa do governo venezuelano em declarar vacância desmonta a narrativa fantasiosa de que Delcy Rodríguez e as Forças Armadas conspiraram para entregar Maduro. Se houvesse tal acordo, a vacância já teria sido proposta. O que vemos é o oposto: resistência institucional, afirmação de soberania e rejeição aberta à tutela estrangeira.

A Venezuela segue sob ataque, mas não está derrotada. O chavismo continua sendo a espinha dorsal do poder real. E enquanto Washington insistir em blefar sem base social, sem legitimidade interna e sem resposta para a pergunta essencial — “com quem governar?” — sua estratégia continuará manca, exposta e condenada a tropeçar na realidade.