Política e Resenha

ARTIGO — A Faxina do Passado

 

Padre Carlos

 

Hoje resolvi visitar o meu passado.

Não foi uma viagem longa nem precisei de malas. Bastou fechar os olhos e abrir algumas portas que o tempo deixou entreabertas dentro de mim. Foi como entrar numa casa antiga onde vivi muitos anos e onde ainda permanecem objetos que a vida esqueceu de levar.

E então comecei a fazer uma faxina.

Mexi em gavetas da memória. Soprei a poeira de algumas lembranças. Encontrei retratos amarelados de sonhos antigos, cartas que o tempo nunca respondeu e promessas que ficaram pelo caminho.

A vida, é verdade, arrancou de mim mais que lágrimas.

Houve dias em que o silêncio parecia mais pesado que qualquer palavra. Houve noites em que o coração parecia um campo depois da tempestade, cheio de galhos quebrados e folhas espalhadas. Quem já viveu bastante sabe que a existência não distribui apenas flores; às vezes ela nos entrega também espinhos e longas estradas de pedra.

A vida partiu o meu coração algumas vezes.

Mas não conseguiu partir a minha alma.

Há algo no ser humano que resiste. Algo que permanece inteiro mesmo quando tudo parece quebrado. É essa força invisível que nos faz levantar depois das quedas, que nos faz continuar acreditando mesmo depois das decepções.

A vida também roubou algumas ilusões.

E ainda bem.

Porque certas ilusões precisam mesmo ser levadas pelo vento para que possamos enxergar o mundo com mais verdade. A maturidade, afinal, não é perder a capacidade de sonhar — é aprender a sonhar com os olhos abertos.

E nisso a vida não venceu.

Porque ela pode ter levado algumas fantasias, mas não conseguiu levar os meus sonhos. Esses continuam vivos, teimosos, inquietos, pulsando dentro do peito como se ainda fossem jovens.

Os anos passaram, claro.

Eles passaram como passam todas as coisas deste mundo. Foram deixando marcas no rosto, pequenas rugas que o espelho insiste em revelar todas as manhãs. São os sinais do tempo, os mapas da experiência humana, as pegadas da história que cada um carrega na própria pele.

Mas o tempo, curioso como é, cometeu um erro.

Ele envelheceu o meu rosto.

Mas não conseguiu envelhecer o meu coração.

Porque o coração — quando guarda esperança — permanece jovem. Ele continua acreditando na beleza da vida, continua emocionando-se com pequenos gestos, continua sorrindo diante das coisas simples que fazem a existência valer a pena.

Hoje, ao terminar essa faxina silenciosa nas salas da memória, percebi algo importante.

Não somos feitos apenas das nossas perdas.

Somos feitos também daquilo que conseguimos preservar apesar delas.

E talvez seja esse o verdadeiro milagre da vida: ela pode nos ferir, pode nos testar, pode até nos fazer chorar muitas vezes…

Mas ainda assim não consegue apagar o sorriso de quem decidiu continuar acreditando.

Porque enquanto houver sonhos dentro de nós, o tempo jamais terá a última palavra.